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Medicina

12 ameaças por trás do diabetes

Só pegar leve no açúcar não tira ninguém da mira dessa doença. Veja fatores inusitados que contribuem para o aparecimento do problema e defenda-se

por Thaís Manarini Atualizado em 14 nov 2018, 11h01 - Publicado em
20 dez 2017
10h53

É difícil alguém procurar um médico porque desconfia que tem diabetes tipo 2, a versão mais popular da doença. E até dá pra entender: estamos diante de um problema que quase não gera sintomas. Se eles surgem – boca seca e vontade intensa de urinar, por exemplo -, significa que a glicose no sangue já está superelevada.

“O diabetes tipo 2 muitas vezes é descoberto quando o pâncreas do indivíduo já perdeu 70% da capacidade de produzir insulina”, explica o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Sem o hormônio, o açúcar dá sopa na circulação, provocando estragos.

O assustador é que a glicemia nas alturas abre as portas para uma série de encrencas: infarto, amputações e até alguns tumores. Hoje estima-se que 14 milhões de brasileiros tenham diabetes. Mas, por ser silencioso, metade não faz ideia disso.

Os 11 milhões de pessoas que estão no estágio do pré-diabetes – quando os níveis glicêmicos já se encontram alterados – também correm mais riscos do que as saudáveis. “Por isso devemos tratar o tema com urgência”, diz Couri. Leia-se: prevenir e flagrar a condição quanto antes. Não dá para aguardar os sinais baterem à porta.

Em primeiro lugar, falamos de uma doença fortemente atrelada à carga genética. Segundo o médico André Reis, professor de pós-graduação da disciplina de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), se o pai ou a mãe tem diabetes tipo 2, a probabilidade de o filho seguir o mesmo caminho na fase adulta gira em torno de 30%. Portanto, tem que acompanhar.

O quadro ainda guarda relação íntima com o estilo de vida. Nesse aspecto, o excesso de peso representa a maior ameaça. Além de brigar com o sedentarismo, é essencial cuidar da dieta como um todo – e não só maneirar no açúcar e nos carboidratos. Tem muita coisa escondida por trás da epidemia de diabetes. Desde outros deslizes à mesa até o aquecimento global! Que tal escancará-los?

Já fez o exame?

Independentemente da idade, você deveria fazer um teste de glicemia se…

  • Está acima do peso
  • Teve diabetes gestacional
  • O filho nasceu com mais de 4 quilos
  • Já infartou ou sofreu um AVC
  • É hipertenso ou apresenta triglicérides ou colesterol alto
  • Está no estágio de pré-diabetes
  • Possui histórico familiar de diabetes
  • Tem a síndrome dos ovários policísticos

Se você não se encaixa aí, o ideal é fazer exames de glicemia a partir dos 45 anos – e repetir a cada três anos.

Para ter certeza do quadro, os testes recomendados são:

  • Glicemia de jejum
  • Hemoglobina glicada
  • Teste oral de intolerância à glicose
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Abuso no sal

Há outro tipo de grãozinho branco que soma pontos ao diabetes. Só que ele é salgado. Pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, avaliaram o consumo de sódio entre 1 136 indivíduos com diabetes tipo 2 e 1 379 voluntários saudáveis. Perceberam o seguinte: quem ingeria altas doses do mineral do sal de cozinha (mais de 3,15 gramas por dia) apresentava um risco 72% maior de desenvolver a doença em comparação àqueles que não iam além de 2,4 gramas.

Para ter ideia, a recomendação oficial é que a gente use até 2,3 gramas da substância – o que dá 5 gramas de sal. “Uma hipótese é que o excesso de sódio interfere na resistência à insulina”, diz Bahareh Rasouli, autora da investigação.

Ora, nessa situação, o hormônio não atua direito e a glicose sobra no sangue. Outra possibilidade é que se empanturrar de itens salgados contribui para hipertensão e ganho de peso, quadros que encurtam o caminho para o diabetes. Para Couri, a relação é plausível, mas ainda falta uma explicação definitiva. Mesmo assim, convém maneirar.

Muita carne vermelha

Diversos estudos ao redor do mundo já concluíram que exagerar no alimento favorece o diabetes. Mas faltava avaliar populações asiáticas. Foi o que fez Koh Woon Puay, pesquisadora da Universidade Nacional de Cingapura. E, mais uma vez, o elo se mostrou intenso.

Fora a carne de vaca, os cortes mais escuros de frango, como a coxa, também exibiram uma relação com a doença. Para Koh, a culpa deve ser do ferro-heme. “Ele pode se acumular no pâncreas, afetando a produção de insulina”, conta. No caso da carne, outras substâncias estariam envolvidas, como as gorduras saturadas e os produtos de glicação avançada, que se formam ao tostarmos o bife.

Também não precisa cortar de vez

“A carne é fonte de aminoácidos essenciais”, lembra Couri. Então, a ideia não é aboli-la do cardápio. Basta comer com moderação – umas duas ou três vezes na semana. Koh sugere revezá-la com peito de frango e peixe.

O consumo de carne bovina no Brasil gira em torno de 40kg por habitantes ao ano

Cada brasileiro ingere, em média, 12g de sal por dia

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Desequilíbrio no intestino

O problema aqui é com a comunidade de bactérias que vivem em nosso aparelho digestivo, a microbiota intestinal. Desbalanços nesse pequeno universo dentro de nós já são ligados a uma lista de encrencas. O diabetes faz parte dela.

Nos laboratórios da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista, pesquisadores já notaram que cobaias geneticamente protegidas contra a doença perdiam essa blindagem natural quando sua microbiota não era lá tão favorável. De acordo com o endocrinologista Mário Saad, à frente dos estudos, a composição desse ambiente afeta até o tratamento do diabetes.

Como zelar pela sua flora

Enquanto não se sabe quais bactérias exatamente têm a ver com o diabetes, a dica é caprichar nas fibras, que nutrem os micro-organismos bons, e nunca usar antibióticos sem orientação médica.

Falta de vitamina D

Para o endocrinologista americano Michael Holick, professor da Universidade de Boston, há fartos indícios de que a substância tem papel de destaque na prevenção do diabetes tipo 2. Isso porque o nutriente (na verdade, um hormônio) estimularia a fabricação de insulina – é ela, você sabe, que permite a entrada da glicose nas células.

“Há pesquisas apontando que melhorar o status de vitamina D atenuaria a resistência à insulina em pessoas com a doença”, acrescenta Holick. André Reis, da Unifesp, diz que faz sentido imaginar que níveis adequados da substância resguardariam o pâncreas. “Só que ainda não dá para pensar em suplementá-la com esse objetivo”, pondera.

O endocrinologista Sérgio Maeda, do Fleury Medicina e Saúde, na capital paulista, concorda: “Para uma recomendação oficial, as evidências de benefícios precisam ser muito contundentes.” Na dúvida, garanta a vitamina com banhos de sol diários.

Exposição à poluição

Após avaliar quase 3 mil pessoas, a epidemiologista Kathrin Wolf, do Helmholtz Zentrum München, na Alemanha, encontrou uma curiosa conexão entre poluição do ar e resistência à insulina, situação precursora da doença que adoça o sangue. “Esse elo se mostrou mais proeminente em indivíduos com pré-diabetes“, observa Kathrin.

Mas há pistas de que gente saudável estaria igualmente ameaçada. Uma revisão saudita de 21 estudos reforça a relação. “A hipótese mais aceita é a de que os poluentes ocasionam um processo inflamatório”, explica Mário Saad, da Unicamp. E inflamação demais, já se sabe, dificulta o trabalho da insulina.

É preciso mudar as cidades

Kathrin e outros experts creem que a redução da poluição depende de um replanejamento urbano. Dentro dele, vale promover e apoiar o ciclismo, o transporte público, os veículos elétricos e os espaços verdes.

Cerca de 6,5 milhões de pessoas morreram no mundo, em 2015, por causa da poluição do ar

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Aquecimento global

Sim, até ele. Cientistas da Universidade de Leiden, na Holanda, calcularam que a elevação de 1 °C na temperatura do planeta responderia por mais de 100 mil novos casos de diabetes nos Estados Unidos a cada ano.

Já existem especulações em cima dessas previsões – e elas envolvem o nosso tecido de gordura marrom. Ao contrário do branco, ele é responsável por gastar energia. Mas onde entra a meteorologia?

“A tal gordura marrom é ativada em um clima mais frio”, esclarece Saad. E esse contexto favoreceria uma modesta perda de peso e o desempenho da insulina. Agora, se o clima esquentar…

A temperatura média do planeta no ano passado foi 0,94°c mais alta que a média do século 20

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Altos níveis de estresse

Anda por aí parecendo uma bomba prestes a explodir? Pois viver assim deixa o terreno fértil para o diabetes irromper. Pelo menos é o que sinaliza uma pesquisa recente da Universidade de Newcastle, na Austrália.

Na investigação, 12 338 mulheres foram convidadas a relatar quão estressadas se sentiam em diversos âmbitos (financeiro, amoroso…) durante 12 anos. Cruzando essas impressões com a taxa de diagnósticos de diabetes, os estudiosos viram que a tensão moderada ou alta aumentava o risco de a doença ser diagnosticada.

“O que pode acontecer é que, em indivíduos predispostos, o estresse aceleraria essa situação”, interpreta Reis. Segundo a psicóloga Graça Camara, membro do Conselho Consultivo da ADJ Diabetes Brasil, é compreensível, já que o nervosismo e a ansiedade levam à produção de hormônios como adrenalina e cortisol. “E eles atrapalham a função da insulina”, justifica.

Depressão

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Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital

Está aí um contexto emocional mais conturbado e que também mexe com hormônios, acarretando dificuldades extras para o açúcar ser aproveitado pelas células como energia. Como se não bastasse, Couri, da USP de Ribeirão Preto, lembra que alguns medicamentos utilizados para tratar a depressão podem piorar a ação da insulina.

Mas não é só a via biológica que conta aqui. “Esse paciente provavelmente se exercita menos. E, com pouca energia, acaba mais suscetível a ganhar peso”, exemplifica a psiquiatra Luciana Pires, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. 

Por isso, é importante que alguém deprimido receba suporte adequado para evitar dilemas que vão além da tristeza profunda. Cabe lembrar que o caminho inverso também é possível. “Na confirmação do diabetes, a pessoa precisa mudar muito seus hábitos. E, às vezes, isso se torna pesado”, repara Graça. Não é à toa que, sem uma boa orientação, possam surgir sintomas depressivos.

Atualmente, 400 milhões de pessoas convivem com depressão no mundo

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Problemas de sono

Dormir pouco é como estar submetido a uma condição de estresse”, define a médica Sônia Togeiro, do Instituto do Sono, em São Paulo. Não importa se a privação é intencional ou patológica (insônia), ela propiciará a liberação de hormônios que servem de obstáculo para a insulina cumprir sua função.

“Por outro lado, o sono ajuda na produção de substâncias que protegem contra o diabetes”, informa a especialista. Não falamos daquele descanso superficial. Para o corpo ficar em equilíbrio, a qualidade do repouso faz diferença.

Até porque passar tempo demais na cama não é a solução. Em revisão assinada pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, identificou-se que dormir mais de oito horas diariamente elevava o risco de diabetes.

Sônia nota ainda que formas moderadas e graves de apneia, distúrbio marcado pela interrupção da respiração durante o sono, também se associam à doença. São bons motivos para dar fim às noites tumultuadas.

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Ovários policísticos

De acordo com a endocrinologista Silmara Leite, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – regional Paraná, 80% das portadoras de síndrome dos ovários policísticos, a SOP, apresentam resistência à insulina. “Mas que fique claro: cistos na região não são suficientes para cravar o diagnóstico do distúrbio”, frisa Silmara.

Ele é marcado por outras características, como aumento nos níveis de testosterona, irregularidade menstrual, acne, excesso de peso e por aí vai. São sintomas que merecem ser investigados justamente para a síndrome não passar batida – e, com ela, as altas taxas de açúcar no sangue.

8 em cada 10 mulheres com SOP têm resistência à insulina

Sedentarismo

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Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital

Beira o óbvio que a inatividade física, junto com uma dieta desequilibrada, predispõe à obesidade, grande motivo por trás do diabetes tipo 2. Ocorre que ficar paradão é, por si só, um perigo.

O educador físico Fábio Lira, professor da Universidade Estadual Paulista em Presidente Prudente, afirma que o sedentarismo torna mesmo indivíduos com peso normal mais propensos à doença. Logo, é primordial se mexer.

Isso não é sinônimo de almejar um corpo trincado. O simples fato de ser ativo já blinda o organismo de enfermidades crônicas. “A atividade escolhida é indiferente. Importante é se exercitar regularmente, durante a vida toda”, reforça Lira.

O educador físico Winston Boff, do Instituto da Criança com Diabetes, em Porto Alegre, recomenda estimular a prática esportiva desde a infância. Assim, sobe a chance de vermos mais adultos saudáveis por aí.

E, se o diabetes der as caras, não há razão para cancelar a academia. Exercitar-se – com supervisão – ajuda a controlar melhor a glicemia.

62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais não praticaram qualquer esporte ou atividade física em 2015

38,2% dos sedentários citam a falta de tempo como principal motivo para não saírem do sofá

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Hepatite C

A relação entre uma doença e outra é tão nítida que a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) lidera uma campanha para incentivar a realização do teste que detecta o vírus da hepatite C. “Ele desencadeia algumas alterações no organismo que fazem com que a insulina não trabalhe direito”, ensina o endocrinologista Luiz Turatti, presidente da SBD.

Na prática, a presença do agente infeccioso aumenta em quatro vezes a probabilidade de um indivíduo se tornar diabético. O teste para flagrar o vírus é rápido, indolor e está disponível no Sistema Único de Saúde. Definitivamente não tem por que correr esse risco.

Outra doença que não faz barulho

Cerca de 2 a 3 milhões de brasileiros têm hepatite C, mas (pasme!) 85% não estão cientes disso. O vírus pode ser transmitido por meio de procedimentos que envolvem sangue, como manicure, tatuagem e tratamento dentário.

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Infográfico: Mayla Tanferri/SAÚDE é Vital
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Infográfico: Mayla Tanferri/SAÚDE é Vital
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Infográfico: Mayla Tanferri/SAÚDE é Vital
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Infográfico: Mayla Tanferri/SAÚDE é Vital

Fontes: Organização Mundial da Saúde; Carlos Eduardo Barra Couri, endocrinologista da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Escola de Medicina Icahn do Hospital Monte Sinai (EUA); e Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos