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Com vocês, a chufa

Se preferir, pode chamá-la de tigernut. O importante mesmo é conhecer esse novo petisco, que esbanja fibras, potássio e outras maravilhas

Por Thaís Manarini - 2 nov 2016, 08h30

Precisamos ser justos. Apesar de se tratar de uma novidade por aqui, a chufa tem história à beça para contar. Em artigo recente, cientistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra, relatam que o alimento fazia parte da dieta de hominídeos que viveram na África entre 2,4 e 1,4 milhão de anos atrás. Mais tarde, apareceu nas tumbas junto com antigos faraós e, durante a Idade Média, entrou na mala dos árabes e ganhou a Europa. E foi na Espanha, mais especificamente na região de Valência, que a chufa fincou raízes de vez, dando origem a uma bebida que até hoje é símbolo da região, a horchata.

Contudo, é a chufa em si, essas bolinhas que estão na foto à direita, que está chegando ao Brasil pela marca b.eat – um pacote de 200 gramas custa, em média, 29 reais. Vale dizer que ela já é produzida em algumas regiões do Nordeste, só que em pequeníssima escala e para consumo local – nessas áreas, o tubérculo atende pelo nome de junça. Calma aí: tubérculo? Isso mesmo. Embora pareça uma oleaginosa (como a amêndoa ou a castanha de caju), a chufa é, na verdade, parente da batata-inglesa e do inhame.

E é por isso que ela foi comparada com essa classe de alimentos em um estudo realizado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). “O que se destaca na junça é seu considerável percentual de fibras“, revela o químico Victor Elias Mouchrek Filho, orientador do trabalho. “E essa característica não é própria dos tubérculos”, completa. Na análise, a diferença se mostrou gritante: enquanto a batata-inglesa apresentou 0,4% de fibras, a chufa bateu nos 7,5%.

A nutricionista expert em gastronomia Andréa Esquivel, de São Paulo, ressalta que essas fibras exercem uma ação prebiótica. “Elas fazem muito mais do que melhorar o trânsito intestinal“, afirma. Segundo a especialista, tais componentes servem de alimento para as bactérias boas que vivem em nosso intestino. “Ao serem usadas com esse propósito, elas incitam a produção de ácidos graxos de cadeia curta”, ensina. Esses elementos têm mil e uma utilidades para o organismo: auxiliam na manutenção das taxas de açúcar no sangue, participam do controle do colesterol e até favorecem a liberação de óxido nítrico, gás que relaxa os vasos e faz a pressão arterial baixar.

As fibras exercem outra função louvável. “Elas dão bastante saciedade”, conta a nutricionista clínica Isabel Jereissati, do Rio de Janeiro. “Então, para quem está em processo de emagrecimento, a chufa é um ótimo lanche”, indica. De sabor adocicado, parecido com o do coco, o tubérculo pode ser consumido com frutas, dentro de um mix de castanhas ou sozinho. Para dar uma cha-coalhada no menu, dá pra investir na farinha do alimento, também já disponível no mercado brasileiro. Ela combina com vitaminas, sucos, shakes, frutas, tortas, bolos…

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Pois voltemos à questão do peso. Se a intenção é deixar de montar pratos pesados, há mais um motivo para dar uma chance à chufa: sua fartura de gordura monoinsaturada. É que esse nutriente eleva pra valer a sensação de saciedade. Nesse sentido, batatas e afins também ficam pra trás. “Essa gordura costuma ser encontrada em peixes, azeitonas, nozes, abacate, entre outros. Mas não em tubérculos”, explica o farmacêutico Marcos Leão, que está desenvolvendo uma pesquisa com a chufa na Universidade Federal do Ceará.

E olha que você não precisa se preocupar com o coração. De acordo com Andréa, o ômega-9, a gordura monoinsaturada da chufa, é célebre por aumentar os níveis de HDL, o colesterol do bem. “Isso ajuda a evitar a formação de placas nas artérias”, argumenta. Outro nutriente de grande valia para o sistema cardiovascular e que a chufa tem em abundância é o potássio. Seu trunfo? Agir de maneira oposta ao sódio. Ou seja, ele contribui para a dilatação dos vasos sanguíneos. Assim, a pressão não decola e cai o risco de sofrer um infarto ou derrame.

“A chufa ainda é rica em magnésio que, em parceria com o potássio, ajuda o cálcio a se fixar nos ossos”, conta Andréa. Essa informação é preciosa para quem toma suplementos em busca de um esqueleto forte. Afinal, se a dupla de minerais não entrar na jogada, o cálcio artificial das cápsulas se acumula nas artérias e consolida placas capazes de obstruir os vasos sanguíneos.

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Por causa do conteúdo nutricional, não surpreende que a chegada da chufa por aqui empolgue os profissionais de saúde. “Precisamos que esse alimento saia dos laboratórios e seja divulgado”, aprova Mouchrek Filho, da UFMA. Hoje, o tubérculo ainda é importado da Espanha. Mas a intenção é cultivá-lo em solo nacional, onde existem ótimas condições de plantio. “Inclusive, já estamos fazendo testes com dois produtores no país”, adianta o empresário José Kappaz, fundador da b.eat. Enquanto a chufa aguarda pela cidadania brasileira, não custa ser bom anfitrião e convidá-la à mesa. A satisfação será toda sua.

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O perfil da chufa

Energia – 149 cal

Carboidratos – 18 g

Gorduras monoinsaturadas – 5g

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Gorduras poli-insaturadas – 0,85 g

Gorduras saturadas – 1,6 g

Proteínas – 1,4 g

Potássio – 257 g

Fibras – 7,4 g

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*os valores se referem a 38 gramas do alimento (ou duas colheres e meia de sopa)

 

Em pé de igualdade

Uma porção de chufa se equipara a alimentos clássicos na oferta de determinados nutrientes

38 gramas de chufa (2 colheres e meia de sopa) é igual a:

½ abacate

É o que devemos comer para atingir os 5 g de gordura onoinsaturada que o petisco fornece.

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5 colheres (sopa) de aveia

Nessa quantidade, há 6,8 g de fibras. Você acha teor similar (7,4 g) em 2 colheres e meia de chufa.

1 banana-prata

Ela tem 268 mg de potássio, valor bem parecido (257 mg) com o encontrado no tubérculo.

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