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Luto: temporal da dor

Uma das consequências mais devastadoras da Covid-19 é o luto que tanta gente vivencia e vai se arrastar até depois do controle da doença. Entenda

Por Ingrid Luisa 22 out 2021, 12h25

Eu estava no dentista perto de casa, em São Paulo, quando recebi a fatídica ligação do meu irmão. “Ingrid, já comprei a passagem aérea. Você vem para Teresina amanhã. O papai foi internado.” Oi? Eu não queria acreditar no que estava acontecendo. O medo dominava completamente a minha razão.

A única coisa que consegui perguntar foi: “Mas se eu preciso ir significa que é grave?”. Ele hesitou: “Acho que a família precisa ficar unida nesse momento”. Desabei em lágrimas.

Uma semana antes desse dia, meu pai contou que estava com Covid-19 na ligação diária que realizávamos. Mas seu otimismo e alegria de sempre o faziam falar convicto de que ia vencer o vírus. Uns três dias depois da conversa por telefone, mamãe avisou que também tinha contraído a doença.

Entrei em desespero. Queria voar para Teresina naquele dia mesmo, mas papai não deixou, disse que eu correria risco e que era para ficar tranquila porque eles iam ficar bem. Me despedi reafirmando que estava com muito receio, afinal eles são a coisa mais importante da minha vida.

Depois de ouvir um “Eu te amo” dele, desliguei. Aquela foi a última vez que falei com meu pai.

Começo com a minha história porque perder alguém na pandemia é essencialmente traumático. A Covid-19 se demonstrou uma doença imprevisível, uma roleta-russa que nem a medicina sabia, a princípio, como desarmar. E não fui um caso isolado.

“As mortes por Covid-19 são completamente desestabilizadoras”, diz o psicólogo Rodrigo Luz, fundador do Instituto Pallium Brasil, que trabalha com suporte a pessoas em luto e cuidados paliativos.

“Os enlutados não chegavam antes com tantos sintomas de estresse pós-traumático, com tanta desorganização mental como agora. Vivemos o maior experimento psicológico do século, e os desafios se mostram ainda maiores”, interpreta.

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De fato, o contexto único que encaramos há meses acaba intensificando a dor da morte, e isso envolve todos os percalços de antes do fim.

Quando finalmente cheguei a Teresina para ficar com a família, papai estava entubado. E fui impossibilitada de vê-lo. Mamãe também foi internada logo em seguida. Foram dias de choro, impotência, reza e muito medo de perder os dois. Sem poder nem entrar no hospital, só recebia notícias por telefone.

Após uma semana de angústia, mesmo tendo a saúde mais frágil da família, mamãe voltou para casa. Sem andar, sem falar, com dificuldade de respirar, porém já não dependia mais do suporte de oxigênio. Deram alta a ela porque precisavam da vaga no leito.

Papai, no entanto, seguia no tubo. Mesmo com apenas 47 anos, sem nenhuma comorbidade e com uma disposição invejável (corria 10 km na esteira todo dia), seus pulmões não responderam a nenhum remédio, técnica ou protocolo.

Inexplicavelmente, inflamaram demais e não reagiam. Em 2 de junho de 2021, ele partiu para sempre.

Quando perdemos alguém, somos inundados por uma mistura de sentimentos: tristeza, dor, raiva, desamparo, solidão, impotência. É clichê dizer que o luto é o preço que se paga pelo amor, mas é uma afirmação até que acertada.

Segundo Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro fundador do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM), o luto é um trabalho psíquico de elaboração de uma perda significativa, que apaga uma situação que a gente conhece, uma segurança, e resulta numa ambivalência de emoções por não saber o que vai ser da vida dali pra frente.

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Esse processamento envolve todas as dimensões do ser humano: física, psicológica e social.

Luz explica que a confusão mental e o estresse relacionado a ela podem refletir no organismo, e é comum enlutados vivenciarem perda de apetite, distúrbios do sono, queda na imunidade e problemas em diversos cantos do corpo.

Segundo a Sociedade Psicológica Britânica, estômago embrulhado, coração disparado, tremores e hipersensibilidade ao ruído são alguns dos sintomas presentes.

Como o luto é algo muito particular, poucos estudos cravam exatamente o que uma pessoa pode sentir, mas a médica Camila Rabelo, presidente da Sociedade de Tanatologia e Cuidado Paliativo de Minas Gerais (Sotamig), afirma que ele sempre traz um desafio para a medicina. “O luto é um processo natural, mas lidar com a morte é muito difícil, e não é à toa que outros problemas de saúde podem surgir a partir daí”, explica a especialista em cuidados paliativos.

Apesar disso, os estudiosos refutam a noção de “luto patológico”. Maria Julia esclarece que o indivíduo pode ter características emocionais que dificultam encarar a perda, e isso não raro tem reflexos negativos em sua rotina.

Após um ano do sucedido, se o enlutado não conseguiu retomar suas atividades, até se fala em “luto complicado”, mas a professora da USP ressalta que é preciso ponderar sobre diagnósticos do tipo.

Outro conceito que já não é mais unanimidade são as “fases do luto”. “Às vezes se tenta erroneamente encaixar as pessoas nessas etapas, dizendo que, se elas não passarem por A, B ou C, seu luto é problemático, quando não é tão simples assim”, argumenta.

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De acordo com pensadores como Sigmund Freud e Judith Butler, o luto faz parte da configuração do “eu”, algo instável e constantemente mutável pelas nossas relações. No livro O Eu e o Isso (1923), o pai da psicanálise afirma que, no fim, somos constituídos pela história das nossas perdas. Temos que descobrir quem nos tornamos após cada uma delas.

“É um duplo movimento: a pessoa precisa entender quem ela é sem aquele ente querido e o que dele permanecerá nela para sempre”, resume Carla Rodrigues, professora de ética e filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro recém-lançado O Luto entre Clínica e Política (Autêntica).

Todo luto é devastador, mas diversos fatores contribuem para uma digestão ainda mais difícil em um período pandêmico.

Os especialistas destacam três: o primeiro é a impossibilidade de despedidas. “Ter a chance de acompanhar seu familiar doente, se doando uma última vez, pode fazer uma grande diferença no processo”, aponta a psicóloga Junia Drumond, coordenadora do Grupo de Atendimento a Enlutados (GAL).

“E ainda tem o velório curtíssimo, com poucas pessoas, o enlutado sem conseguir se despedir direito… O caixão fechado também machuca, porque ver o ente querido ali é a concretização da perda”, completa.

O segundo fator é a fragilidade da saúde mental em meio à crise da Covid-19. “Além do isolamento, atualmente todo mundo está ansioso, ainda com medo de se contaminar, de contaminar os outros, recebendo fake news que prejudicam a busca por ajuda… Então há uma insegurança geral, e é muito difícil passar pelo luto quando há essa falta de equilíbrio”, analisa Camila.

O terceiro fator talvez seja o mais dolorido: a multiplicidade de perdas. “Muitos pacientes que eu atendi perderam o pai, o marido, o filho, e esse luto acumulado de uma vez só mexe muito com o estado psicológico”, ilustra Eliane Franco, psicóloga do Núcleo de Intervenções em Emergências e Desastres (Niped).

A entidade tem oferecido quatro sessões de terapia gratuitas a enlutados durante a pandemia, e Eliane (a Eli) foi a psicóloga que me atendeu quando procurei ajuda. Ela me contou que perdeu o pai de seu filho, com quem havia sido casada por quase 30 anos, para a Covid-19.

“Precisei deixar a clínica por duas semanas para conseguir processar meu próprio luto. Mesmo tendo clareza da situação, a dor é inexplicável”, confessa a profissional. “Depois disso, ficou bem mais fácil dizer para os pacientes que eu entendo a dor deles. Porque só entende quem sente”, afirma.

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Assim como eu e Eli, estima-se que existam mais de 30 milhões de enlutados no mundo pelas vítimas do coronavírus. Se o avanço da vacinação traz uma esperança de que essa tragédia pode acabar em breve, a pandemia do luto não tem previsão de fim.

“A condição atual trouxe a palavra ‘luto’ para a boca de pessoas que antes não se interessavam pelo assunto, ou porque elas estão vivendo essa situação ou porque conhecem quem esteja”, observa Maria Julia.

E até mesmo sujeitos que não perderam ninguém diretamente podem ficar tristes, melancólicos e se sentirem no fundo do poço ao ver as notícias de morte. “Existe um luto coletivo que afeta muita gente”, afirma a professora.

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Como se já não fosse difícil o suficiente, os enlutados brasileiros ainda sofrem com mais um agravante: o descaso de governos e autoridades em relação aos 600 mil mortos. A falta de um luto público, ou mesmo de simples declarações de empatia, pesa.

“O reconhecimento público e político autoriza o luto privado, e o não reconhecimento deslegitima esse luto. Quando o presidente da República diz ‘E daí?’ diante dessa situação, é como se milhões de pessoas não pudessem chorar pelos seus mortos”, opina Carla.

O psicólogo Francisco Nogueira, do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, concorda: “Afirmar coisas como ‘Eu não sou coveiro’ significa que o sofrimento de milhões não importa. São falas com um potencial traumatizante enorme”, afirma o profissional, que criou um serviço emergencial de acolhimento e escuta para a população durante a fase aguda da pandemia.

Mas a sociedade encontra suas formas de prestar reverência e homenagem a quem se foi. O memorial online Inumeráveis, por exemplo, conta histórias de vítimas da Covid-19 por todo o Brasil.

“A aflição de viver num país em que a pandemia estava sendo tratada de forma fria foi o que motivou nosso projeto. E a ideia era fazer o contraponto do número, porque essas pessoas não podem ser esquecidas”, conta Gabriela Veiga, uma das fundadoras do memorial, que em breve ganhará versão física.

Já Silvana Andrade transformou sua causa em luta pública: após mover mundos e fundos para conseguir se despedir da mãe entubada por uma videochamada (mesmo ela estando sedada), a jornalista resolveu brigar para que todos tivessem direito a dizer adeus nessas situações.

Depois de meses de trâmites, a Lei Maria Albani (nome de sua mãe) foi sancionada. “A luta me sustentou. Foi uma forma de honrar minha perda”, relata Silvana.

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Conforme o tempo passa, a dor pode não passar e, pior, nosso entorno começar a cobrar. É nesse processo de reinserção social, quando a ficha cai, que instituições como o GAL estendem a mão. Só aceitando pessoas com pelo menos dois meses de luto, a escuta qualificada de uma psiquiatra e de uma psicóloga ajuda a processar melhor a tristeza.

“Nos primeiros dois meses de luto, o sujeito tem um acolhimento da sociedade, pois parece aceitável o sofrimento. Mas, depois disso, muitos acham que já está tudo bem e que o enlutado superou, só que não é bem assim. Nós auxiliamos justamente indivíduos nesse contexto com informação e escuta, a fim de que eles entendam e vivenciem seu próprio processo”, diz a psiquiatra Mariel Paturle, fundadora do GAL.

Apesar dos percalços, há quem até agradeça por encarar seu quinhão de sofrimento nestes tempos de caos e lágrimas.

“Uma participante me confessou que ficou aliviada por ter se enlutado na pandemia, porque a vida de todo mundo está parada em alguma instância, não só a dela. O enlutado sofre muito quando ele se vê enfraquecido para tocar a vida e o mundo está correndo, como se nada tivesse acontecido”, conta Junia Drummond.

Com uma dor inexplicável e uma grande pressão social, muitos enlutados se preocupam sobre quando a dor vai passar e a vida vai voltar ao normal. Bem, ela não volta. “Não gosto da expressão “superar o luto”, porque a gente não supera, a gente integra, compreende, significa uma perda, e durante toda a nossa vida vai aprendendo a lidar com aquela falta”, destrincha Maria Julia.

E é crucial respeitar seu próprio luto. Na elaboração desta reportagem, conversando com tantos especialistas e lendo livros e pesquisas, entendi que as circunstâncias acabaram violentando o meu luto e o de minha mãe.

O dela porque meus irmãos e eu fomos obrigados a pedir para que parasse de chorar após receber a notícia, já que seus pulmões estavam fragilizados e não queríamos que ela voltasse ao hospital. E o meu porque, apesar de destruída por dentro, me obriguei a ser forte o tempo inteiro para que o sofrimento de uma mulher doente e enlutada não fosse ainda maior.

Hoje, estamos juntas cuidando uma da outra e de nossas memórias. Tentando nos encontrar. A dor não passa, e nem espero isso, já que papai era o meu porto seguro.

Há alguns dias, completou um ano que fizemos um dueto, eu no piano e ele cantando uma de suas músicas favoritas. Coincidentemente, as palavras de Milton Nascimento traduzem exatamente o que estou sentindo: por tanto amor, por tanta emoção, a vida me faz assim… Doce e atroz, mansa e feroz, eu caçadora de mim.

Como lidar com alguém enlutado

Muita gente não sabe o que dizer nessa hora, mas há orientações

Não tente diminuir a dor
Frases como “Foi melhor assim”, “Ele descansou”, “Acabou o sofrimento” ou “Tem gente que perdeu mais pessoas” subestimam os sentimentos alheios.

Cuidado com as perguntas
Se o enlutado quiser falar, ouvir sem julgamentos e questionamentos é a melhor opção, pois ele só irá até onde se sentir confortável.

Coloque-se à disposição
Mandar mensagens de apoio e oferecer ajuda cria conexão com o enlutado. Exemplo: “Não imagino o que está passando, mas estou aqui para você”.

Respeite o silêncio
Não espere que o enlutado vá responder automaticamente aos seus gestos. Se você tiver o silêncio como resposta, espere a pessoa se manifestar.

Entenda a vivência dele
Não existe forma errada de viver o luto, e a pessoa receber apoio ao decidir voltar logo pro trabalho, ou não retomar de cara as atividades, mostra acolhimento.

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Contando a pior notícia

Você pode acabar sendo encarregado disso. Como fazer?

Prepare o ambiente
Estar em um local onde se possa conversar com calma, sentado e sem interrupções é o ideal. Garantir que haja mais de uma pessoa para ouvir a notícia também é aconselhável.

Conte a história
Saiba até onde a família está a par da situação para relatar a partir disso. É importante que os enlutados saiam com uma história, que pode ser repassada e repetida no processo de luto.

Fale a verdade
Contar os fatos é uma forma digna de explicar como a situação é difícil e precisa ser encarada. Sinta as reações no decorrer da conversa e, se possível, diga tudo.

Acolha as emoções
Após a notícia, a família certamente vai ter um choque inicial, que pode ser silencioso ou intenso. Não tente amenizar e respeite o momento, mesmo se ele for de extravasamentos.

Mostre apoio
Frases como “Eu sinto muito” e “Eu nem imagino a sua dor” são de bom–tom e criam um ambiente emocional de legitimação e de suporte àquela dor.

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Por um processo mais tranquilo

Conselhos para quem está passando pela pior das dores

Coloque tudo pra fora
Chorar, desabafar, não se conformar e até gritar está permitido. Conter a dor é um dos maiores erros dos enlutados. Liberar as emoções ajuda na elaboração e aceitação da perda.

Dê tempo ao tempo
Não adianta se cobrar ou se obrigar: o enlutado não fica bem quando quer, e sim quando está pronto. E não existe tempo “certo” para isso. É preciso acolher o tempo da dor.

Fique com quem ama
Se isolar totalmente pode ser prejudicial. Claro que se deve respeitar a reclusão, necessária para algumas pessoas, mas ter família ou amigos por perto é bem-vindo.

Preste homenagens
Quando estiver pronto, celebrar a vida de quem se foi traz alento. Pode ser um ritual religioso, fazer homenagens em datas festivas, cozinhar a comida de que a pessoa mais gostava…

Preserve as memórias
Alguns enlutados acham que seguir a vida significa esquecer quem se foi, mas isso não é verdade. Falar da pessoa, contar suas histórias e seus exemplos a mantém viva.

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