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Livro: o papel dos sonhos na nossa vida e até na saúde

SAÚDE conversou com neurocientista que une história e ciência em livro para mostrar o impacto dos eventos oníricos na saúde e nos caminhos da nossa espécie

Já encarados como algo sem nexo nem valor científico, os sonhos que há mais de um século foram resgatados por Sigmund Freud (1856-1939) hoje encontram na neurociência as provas de seu fascinante papel para o cérebro, a mente e a cultura humanas.

Se povos e civilizações antigos os interpretavam como profecia e guia para decisões coletivas, dá pra dizer que, do ponto de vista psicológico e biológico, as narrativas oníricas permitem recrutar memórias e dados do passado (muitos inconscientes) para prever problemas e planejar soluções no dia a dia. É o que defende o cientista brasileiro Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande Norte, no livro O Oráculo da Noite.

A obra revisita nossas origens como espécie e sociedade e, com um extenso repertório que mescla de literatura antiga a experimentos de laboratório de última geração, vislumbra o potencial de usarmos os sonhos para nos aperfeiçoarmos como indivíduos e humanidade.

A seguir, você confere o bate-papo com o autor sobre o tema:

SAÚDE: no livro, o senhor fala que os sonhos foram vítimas de uma descrença científica, mas que isso está mudando. Pode explicar?

Sidarta Ribeiro: O sonho esteve no centro dos fatos políticos, sociais e culturais nos limites da história. Mas sua importância começa a ruir com o mercantilismo, o capitalismo industrial e depois financeiro. Ninguém imagina numa reunião do board de uma empresa uma decisão tomada com base no que alguém sonhou.

É Freud quem resgata a ideia de que sonhar é a melhor maneira de acessar o inconsciente e que o sonho deve ser interpretado dentro do contexto do sonhador. Hoje as pesquisas mostram que esse fenômeno é decisivo para a formação e a consolidação das memórias, a criatividade e a saúde cognitiva e mental.

Sonhar também foi crucial para a evolução da nossa espécie?

Uma das teses do livro é: o que nos tirou das cavernas foi a capacidade de sonhar e narrar. A evolução do sono nos animais e, mais tarde, a evolução dos sonhos nos mamíferos faz parte do mecanismo adaptativo que garantiu nossa sobrevivência e sucesso. O sonho integra, assim, um maquinário biológico que, ao acessar e combinar memórias e informações do passado, permite nos preparar para o futuro, como um oráculo probabilístico.

Restrições ou prejuízos ao período em que deveríamos estar sonhando podem afetar nossa saúde?

Sabemos que o sono tem um grande impacto na saúde física e mental. Quem dorme mal corre maior risco de ter obesidade, hipertensão, depressão, Alzheimer… Mas um sonho ruim [a capacidade de sonhar prejudicada], ainda que possua efeitos mais sutis, tem repercussões negativas para a memória. O período do sono REM, em que a gente mais sonha, é fundamental para atenuar o impacto de vivências negativas, por exemplo.

O senhor defende no livro que a gente busque recordar os sonhos. Por quê?

O sonho é uma antena de tudo que acontece ao redor e que por vezes fica no inconsciente. Voltar-se para os sonhos é uma forma de lidar com os acontecimentos e preparar-se para o que vai ocorrer. Para nos recordarmos deles, podemos criar o hábito de mentalizar, antes de dormir, o que queremos sonhar e a intenção de recuperar esses sonhos, e o de, ao despertar, ficar mais alguns minutos na cama tentando resgatar o que foi sonhado.

Qual é o potencial do sonho para a medicina hoje?

Freud propôs há 120 anos que os sonhos são a via régia para o inconsciente, e o seu potencial para o conhecimento mental vem se revelando cada vez mais na psicologia e na psiquiatria. Pesquisas feitas aqui no Brasil atestam esse papel e mostram que isso é verdade até mesmo em casos de psicose. Estudos que se valem de relatos de sonhos mostram, por exemplo, que eles são úteis para diagnosticar distúrbios psiquiátricos, principalmente a esquizofrenia.

A capacidade de domar os próprios sonhos — o sonho lúcido — pode ser bem-vinda à humanidade?

Controlar os próprios sonhos é uma maneira reconhecida de superar traumas, se libertar de pesadelos e episódios negativos. Aprimorar essa capacidade seria bem-vindo a pessoas saudáveis, embora não pareça algo bom para pessoas com psicose, porque há o risco de se confundir ainda mais realidade com imaginação. Da perspectiva da espécie humana e do planeta, os sonhos foram abandonados nos últimos 500 anos por um mundo focado na aquisição de bens, que pouco se preocupa aonde as coisas vão chegar.

O sonho lúcido nos abre para a possibilidade de sermos mais introspectivos e controlarmos melhor nossa mente, e isso nos ajuda a prever rumos e a escolher qual o mundo que queremos, algo que hoje parece estar num caminho um tanto perigoso.

FICHA TÉCNICA

Autor: Sidarta Ribeiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 472

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