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A anatomia dos vícios: por que eles surgem e como domá-los

Dependência online, compulsão alimentar, vontade incontrolável de beber, fumar, comprar... Os vícios parecem ter piorado após a pandemia. O que fazer?

Por André Bernardo 19 nov 2021, 14h18

O dia em que a Terra (quase) parou. Assim pode ser descrito o 4 de outubro de 2021. Em plena segunda-feira, 2,85 bilhões de usuários do Facebook não conseguiram acessar a maior rede social do planeta. Não foram os únicos: 2 bilhões de perfis do WhatsApp, o aplicativo de mensagens mais usado pelos brasileiros, e 1,3 bilhão do Instagram também ficaram impossibilitados de se comunicar, trabalhar ou se divertir.

O apagão durou quase sete horas. Mas, para quem sofre de dependência tecnológica, transtorno que atinge, segundo cálculos da Organização Mundial da Saúde (OMS), em torno de 468 milhões de pessoas, pareceu uma eternidade. “Dizem que a internet é a nova cocaína. Prefiro dizer que é uma nova forma de prazer artificial”, afirma o psiquiatra Antônio Egídio Nardi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“A sensação de ganhar uma curtida na rede social é tão boa que leva o indivíduo a querer mais. Daí que ganhar likes pode ser tão viciante quanto consumir drogas”, completa o pesquisador do Instituto Delete — Uso Consciente de Tecnologias.

A pane que tirou as principais redes sociais do ar não foi o único golpe a arranhá-las. No dia seguinte, uma ex-executiva do Facebook, Frances Haugen, prestou depoimento ao Senado americano denunciando a companhia por priorizar “o lucro em detrimento da segurança”. A engenheira da computação chegou a comparar a gigante da tecnologia à indústria do tabaco, que, por décadas, negou que fumar fazia mal à saúde, e apelou por sua regulamentação urgente.

Sua fala ecoa diretamente a de Edward Tufte, professor da Universidade Yale, nos EUA, em entrevista ao documentário O Dilema das Redes, da Netflix: “Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários, a de drogas e a de softwares”.

Quem há de concordar é o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Programa de Dependentes de Internet do Ambulatório dos Transtornos do Impulso (Pro-Amiti) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). “Gosto de comparar o uso abusivo de tecnologia ao mito da caverna de Platão. Os prisioneiros só vão descobrir que o mundo não é tão limitado quanto aparenta quando fugirem da caverna, isto é, quando adquirirem conhecimento. Nosso objetivo não é banir a tecnologia, mas estimular seu uso consciente”, resume.

Depois que as mídias sociais foram retomadas naquele dia e dos pedidos de desculpas do Facebook — que ressaltavam a confiança e a dependência das pessoas pela plataforma —, um alarme soou entre tantos lares. Será que estamos viciados nisso?

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A compulsão digital é a “caçula” das dependências comportamentais, na definição do psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No livro Dependências Não Químicas e Compulsões Modernas (Atheneu), ele explica que a dependência de internet não é caracterizada essencialmente pelo tempo gasto nas telas — e olha que o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking dos países que passam mais tempo online.

O que transforma o usuário em dependente é a dificuldade de reduzir, interromper ou modificar esse comportamento ou, ainda, o prejuízo dele em sua vida pessoal, social, acadêmica ou profissional.

“Não é porque usamos a internet todos os dias e por muitas horas que somos viciados em tecnologia”, pontua a psicóloga Anna Lúcia Spear King, doutora em saúde mental e coordenadora do Instituto Delete, que é vinculado à UFRJ. “Muitas vezes, o uso abusivo não é caso de tratamento em si, mas de educação. É preciso ensinar a pessoa a usufruir dos benefícios do mundo digital e a saber evitar seus malefícios”, esclarece.

Vidrados nas telas

A dependência tecnológica é aquela necessidade ingovernável de ficar conectado e de olho no celular ou no computador. O “viciado” não consegue parar, deixa de lado compromissos e pode se furtar até de comer. Só no Brasil se estima que existam 12,7 milhões de compulsivos do tipo — número que pode saltar com a pandemia. Não é por menos que os especialistas vêm propondo um detox digital.

Um caso emblemático é o da escritora americana Laura McKowen, autora de um livro sobre as bênçãos de uma vida sóbria, que, numa viagem ao Havaí para visitar a mãe, sofreu uma recaída. Não, ela não voltou a beber, hábito que largou em 2014. O que ela fez foi postar uma selfie de biquíni no Instagram.

Parece bobagem, mas Laura tinha prometido a si mesma que não faria mais isso depois de perceber que passava seis horas por dia no aplicativo. Publicada a foto, Laura não parava de ficar checando sua rede social em vez de curtir o passeio. Dormiu mal e, de manhã, deletou a selfie. Dias depois, desativou a conta para largar seu novo vício.

Vici@dos digitais

A pesquisa sobre a dependência tecnológica se divide em quatro ramos: redes sociais, games, pornografia e uso exagerado de aparelhos como smartphones e tablets. Segundo a psicóloga Aline Restano, do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (Geat), meninas estão mais propensas a se entregar às redes sociais, enquanto meninos são mais vulneráveis à compulsão por jogos eletrônicos.

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A preocupação é que o “vício” está surgindo cada vez mais cedo. Crianças e adolescentes costumam se esquecer da vida real quando ficam postando fotos, curtindo vídeos e compartilhando memes pelo celular.

“A rede social é a nova praça pública. É lá que os jovens do século 21 batem papo, trocam ideias e contam piadas. Conversar sobre esse ambiente hoje é tão importante quanto conscientizar os filhos sobre os riscos do álcool”, compara a pesquisadora.

Impacto semelhante na vida escolar, na interação social e na saúde emocional permite estender esse raciocínio para os videogames. O assunto ficou tão sério que a obsessão por jogar foi catalogada como um transtorno mental pela OMS e incluída no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria. Jovens matam aulas, se isolam e viram noites na frente das telas para passar mais tempo em games de guerra, luta e tiro.

A exemplo de outros tipos de dependência tecnológica, a linha que separa o hobby do vício é a perda do controle. Por mais que tente, o sujeito não sabe a hora de parar.

“Pais e responsáveis precisam aprender a limitar o tempo de uso das telas dos filhos, melhorar a qualidade dos conteúdos acessados e estimular a ida deles a locais como parques, praias e jardins”, orienta a médica Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

“As famílias devem aprender a conjugar o verbo ‘desconectar’. Menos tecnologia e mais convivência: é disso que as crianças e os adolescentes estão precisando”, frisa.

Muito em pouco tempo

Entre novos e velhos “vícios”, os estudiosos costumam repartir as dependências em duas categorias: químicas e não químicas. “A química faz referência à dependência de substâncias como álcool, maconha ou cocaína. A não química designa as comportamentais, como jogar e comprar”, explica o psiquiatra Marcelo Niel, doutor em ciências pelo Departamento de Saúde Coletiva da Unifesp.

“Mas, química ou não, alguns dos critérios para diagnosticar são os mesmos, como desejo incontrolável e síndrome de abstinência”, aponta. O espectro das dependências não químicas é amplo e vai muito além da tecnologia. Engloba compulsões com comida, jogos de azar, compras e sexo. Na lista, aparecem até casos de ciúme patológico, transtornos de escoriação (a pessoa fica se machucando) e vigorexia (o indivíduo só quer saber de malhar).

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Antes de seguir, uma ponderação sobre o termo “vício”. Os especialistas buscam evitá-lo, porque, nas palavras do psiquiatra Jorge Jaber, da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad), “ele atribui ao dependente uma fraqueza moral”. “É o tipo de preconceito que a medicina deve combater porque impede ou prejudica o tratamento”, defende.

Enquanto o controle das dependências químicas — parar de beber, fumar ou usar drogas — tem boas chances de sucesso com psicoterapia e medicações, o lado das não químicas reserva alguns desafios extras.

Ora, é muito difícil, se não impossível, viver sem se conectar à internet, fazer compras ou ter relações sexuais. Por essa razão, o objetivo do tratamento não é a privação total, mas a mudança responsável de um padrão de comportamento. Algo que se aplica inclusive à comida.

foto de mão pegando biscoito recheado em pote
Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital

A compulsão alimentar

Você come quando não está com fome? Sente culpa ou remorso depois de comer demais? Gasta muito tempo comendo ou pensando em comida? Essas são três das 15 perguntas feitas pelos Comedores Compulsivos Anônimos, entidade que, por meio de um questionário disponibilizado em seu site, ajuda o internauta a ter uma ideia de que pode sofrer de compulsão alimentar.

A irmandade chegou ao Brasil em 1984 e, hoje, tem 73 grupos em 15 estados, oferecendo reuniões e orientações a pessoas que relatam se empanturrar às escondidas ou que comem até passar mal com frequência.

“O indivíduo sofre de compulsão alimentar quando se relaciona com a comida de maneira patológica. Sim, a comida pode virar algo tóxico, assim como um jogo ou um relacionamento”, diz a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Como outras compulsões, tem tratamento!

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Sem controle, sem liberdade

“Toda e qualquer dependência representa uma perda da liberdade de escolha”, adianta o psiquiatra Táki Cordás, coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP. “No caso da compulsão alimentar, o indivíduo perde a liberdade de escolher, por exemplo, ‘o que’ ou ‘quanto’ vai comer”, continua.

Episódios desse descontrole diante do prato (ou de um pote de doces) estão associados a fatores como comer rápido demais, ingerir a refeição até se sentir desconfortavelmente cheio e, mesmo sem fome, consumir um grande volume de comida. Nesses momentos, os compulsivos tendem a procurar alimentos ricos em gorduras e carboidratos, como pizza, chocolate e sorvete.

“A compulsão é um transtorno que leva o sujeito a ingerir uma grande quantidade de alimento em um curto espaço de tempo, em geral em até duas horas”, explica a psiquiatra Cláudia Cozer, coordenadora do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

“E, na maioria das vezes, a ingestão excessiva vem acompanhada de culpa, arrependimento ou vergonha”, diz a médica. Não se trata de um ataque de gula pontual, mas de um comportamento que vai se perpetuando e levando ao ganho de peso.

Na visão dos experts, a pandemia e seus reflexos agravaram não só os abusos com a comida como outras dependências não químicas. No auge do isolamento social, muitos compradores compulsivos — o transtorno é conhecido como oneomania — fizeram empréstimos no banco, estouraram o cartão de crédito e entraram no cheque especial só para adquirir produtos de que não precisavam, como objetos de decoração, roupas íntimas e aparelhos eletrodomésticos, em sites de compras online.

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“Houve um boom na procura por atendimento médico, acompanhamento psicoterápico e terapia familiar. Desde o início da pandemia até os dias de hoje, recebemos cerca de 900 e-mails, uma média de 50 por mês, com pedidos de ajuda. É um número altíssimo”, relata a psicóloga Tatiana Filomensky, coordenadora do Programa para Compradores Compulsivos do Pro-Amiti da USP.

A oneomania é classificada como um distúrbio de controle dos impulsos e, segundo estimativas, atinge 8% da população. Só no Brasil, seriam 17 milhões de compradores compulsivos. “O frete pode ser caro, mas, se a entrega é rápida, não tem problema. Quanto antes essas pessoas recebem o produto, melhor”, nota Tatiana. E, logo depois, partem para outra… compra.

Confinados em casa, com medo de contrair o vírus ou de perder o emprego, os portadores de transtornos de impulso extrapolaram todos os limites: comeram sem fome, apostaram sem dinheiro e compraram (e se endividaram) sem necessidade.

Sobrou até para quem sofre de comportamentos repetitivos voltados ao próprio corpo — entre os alvos preferenciais estão as unhas, os cabelos e a pele. Um dos mais perturbadores é o que os profissionais chamam de transtorno de escoriação, que consiste em ficar se arranhando, às vezes até sangrar, e afeta aproximadamente 7,2 milhões de brasileiros. Por culpa ou vergonha, essas pessoas acabam evitando praias e piscinas e priorizam roupas com mangas compridas.

Mas outras situações do gênero também preocupam, até pela falta de busca por apoio. “A maioria pensa que arrancar fios de cabelo ou roer as unhas sem parar não passam de uma mania que vai sumir com o tempo. Só que, sem tratamento, essa condição, que gera tanto sofrimento psíquico quanto prejuízo social, tende a se cronificar”, avisa o psicólogo Daniel Gulassa, coordenador do Programa para Transtorno de Escoriação do Pro-Amiti.

foto de mão com cartas de baralho e fichas de jogo
Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital

Jogo sem fim

Não é difícil identificar um jogador patológico. O protagonista de Round 6, a série mais vista da história da Netflix, é um deles. Logo no primeiro episódio, o personagem furta o cartão da mãe, saca dinheiro, aposta tudo em corrida de cavalos e é ameaçado por agiotas. Endividado, aceita participar de um torneio que transforma brincadeiras em disputas mortais.

No ranking dos jogos mais viciantes da vida real, a tal corrida de cavalos ocupa o quarto lugar. Os três piores são caça-níqueis, bingo eletrônico e pôquer. Quanto menor o intervalo entre a aposta e o resultado, mais viciante! “A máquina caça-níquel é o crack dos jogos de azar”, crava a psicóloga Maria Paula de Oliveira, da USP.

Jogadores compulsivos levam, em média, dez anos para procurar ajuda. “Em 50% dos casos, eles não voltam a jogar. Mas, nos outros 50%, persistem e progridem, ainda mais se não houver tratamento”, estima o psicólogo Hermano Tavares, coordenador do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (Pro-Amjo) da USP.

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O efeito pandemia

Nem a dependência química passou batida pela crise do coronavírus. Segundo pesquisa com 44 mil voluntários da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os brasileiros passaram a beber e a fumar mais no pico do distanciamento social, entre abril e maio de 2020.

O consumo de álcool subiu 18% e o de tabaco, 34%. No caso da bebida alcoólica, o maior aumento ocorreu entre pessoas de 30 a 39 anos (26%). Já entre os fumantes, 28% relataram ter aumentado as tragadas em cerca de dez cigarros por dia.

No Brasil, as drogas mais consumidas, independentemente do público-alvo, são o álcool e o tabaco, ambas liberadas para adultos. Fora a discriminação entre lícitas e ilícitas, elas são classificadas pelos efeitos no sistema nervoso central.

Tem as depressoras, como o álcool, que manifesta efeito relaxante. Há as estimulantes, caso da nicotina do cigarro. E as alucinógenas, como a maconha. A ação no corpo, o “barato” e os danos variam de acordo com a dose e as particularidades de cada um.

Já está fartamente documentado que, em situações de estresse, o ser humano fica mais propenso a procurar fuga ou apoio num drinque ou num cigarro. Com a Covid-19 à solta, então…

Outro levantamento, este da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e feito entre maio e junho de 2020 em 33 países, revelou que 42% dos brasileiros relataram um consumo mais elevado de álcool durante a pandemia. E, nessas horas, a última pergunta que vem à mente de quem gosta de tomar cerveja, vinho ou uísque para relaxar é se existe um limite seguro.

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Bem, a resposta do psiquiatra Arthur Guerra, presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), é taxativa: “Não”. “Sempre há um risco, mesmo que pequeno. É essencial entender que álcool não é remédio e não deve ser usado para resolver problemas”, afirma.

Outro que carece de limites de segurança é o cigarro. “Considerando que eles podem conter até 7 mil substâncias tóxicas, não há níveis adequados para o uso de produtos de tabaco, seja do modelo tradicional, seja do dispositivo eletrônico”, diz a psicóloga Vera Borges, responsável pela Divisão de Controle de Tabagismo do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Pensa que as repercussões pandêmicas pararam aí? Dados do programa Recomeço — Uma Vida sem Drogas, da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, mostram aumento no consumo de drogas lícitas e ilícitas entre abril de 2020 e julho de 2021 — as mais utilizadas, nessa ordem, foram álcool, cocaína, tabaco, crack e maconha.

foto de mão segurando drink alcoólico com café
Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital

De gole em gole

O aumento no consumo de bebida alcoólica durante a pandemia reacendeu a preocupação com a dependência, problema que pode abalar a vida do cidadão e do seu entorno. O escritor Ruy Castro nasceu em 1948 e renasceu em 1988: à época de sua internação numa clínica para dependentes químicos, o mestre das biografias tomava, só em casa, uns 2 litros de vodca por dia.

Mas por que alguns conseguem beber moderadamente, enquanto outros se encharcam? “A resposta vai muito além da predisposição genética. Há fatores sociais e familiares que, em boa parte dos casos, contribuem para isso”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas da Unifesp.

Sóbrio há 33 anos, Ruy Castro trocou o álcool pelo sorvete — chega a tomar três bolas por dia, mas nunca de manhã, de estômago vazio ou misturando sabores. “Uma vez compulsivo, sempre compulsivo”, escreveu numa crônica.

Cortina de fumaça

Em Rita Lee — Uma Autobiografia (Globo), a cantora reflete sobre a dependência: “Não me culpo por ter entrado em muitas, eu me orgulho de ter saído de todas”. Em 2005, quando nasceu sua primeira neta, Rita disse adeus às drogas — ao álcool, à maconha e ao LSD. Mas se esqueceu do cigarro.

“Com a pandemia, aquele baixo-astral no mundo, passei a fumar o triplo de antes”, contou à imprensa. E, em maio, ela descobriu um câncer de pulmão. Largar o cigarro demanda esforço, táticas e pode exigir terapia e remédios.

Dá para escolher uma rota gradual, marcando uma data-limite e reduzindo o número aos poucos ou estabelecer um dia D e não fumar mais. “Orientamos o paciente a não fumar após as refeições, beber água quando tiver vontade e usar gomas ou pastilhas de nicotina nos momentos de fissura”, diz o médico Ciro Kirchenchtejn, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Quanto a Rita, ela está bem e finalmente parou de fumar: “Não é fácil, mas consegui”.

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Tem solução (ou soluções)

O ponto é: não importa se o que vicia é ingerido, inalado ou injetado. Se é lícito ou não. O que importa é o indivíduo reconhecer a dependência e procurar ajuda especializada. Uma máxima entre os profissionais que lidam com dependências é: “Assim como uma pessoa não se torna dependente do dia para a noite, esse problema não será resolvido em um curto espaço de tempo”.

Em outras palavras, o tratamento pode ser longo, complexo, multidisciplinar e, preferencialmente, voluntário, abrangendo atendimento médico e psicológico, terapia familiar e, em casos extremos, internação hospitalar.

“Existem várias estratégias de tratamento. Não há uma certa ou errada. E sabemos que, quando combinadas, elas aumentam as chances de recuperação”, conta Zila Sanchez, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Prevenção ao Uso de Álcool e Outras Drogas da Unifesp.

Essa é uma filosofia que pode abraçar inclusive as dependências não químicas. Afinal, o problema não é a internet, a comida ou o jogo. Mas o uso que se faz deles. Vamos mostrar quem está no controle?

A neurociência do vício

Sabe o prazer que sua música ou sorvete favorito proporcionam? Isso acontece pela descarga de um neurotransmissor, a dopamina, que tem ligação com os vícios

Biologia do prazer
Estímulos agradáveis, de um elogio a um prato de comida, ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando cargas de dopamina. Daí vem aquela sensação de bem-estar.

Fontes alternativas
As drogas também acionam o sistema bioquímico do prazer. E alguns comportamentos compulsivos (jogar, comprar…) têm efeitos semelhantes.

A tolerância
Com o estímulo contínuo, o organismo se adapta à droga ou ao hábito e começa a precisar de uma quantidade maior para manter o efeito. É a síndrome de tolerância.

A abstinência
Quando o dependente suspende o uso da droga ou reduz seu consumo, encara sintomas físicos e psicológicos. Eis a síndrome de abstinência.

A fissura
O nome é dado ao desejo intenso de usar uma droga ou repetir um comportamento. Em geral, isso vem acompanhado de ansiedade e pode levar ao desespero.

foto de mão segurando cigarro de palha/maconha
Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital

Os gatilhos da dependência

Existem situações que predispõem um indivíduo com tendência à compulsão a lançar mão de drogas ou comportamentos prejudiciais

A faísca
Gatilho é qualquer estímulo que desperta um desejo. Pode ocorrer em uma hora do dia (um cigarro depois do almoço) ou até numa estação do ano (um vinho no inverno).

A influência
Alguns gatilhos são sociais. Quem é capaz de dizer não a uma latinha de cerveja numa festa de aniversário? Imagine um contexto desses para um adolescente.

As emoções
O escritor Charles Bukowski já dizia: “Se acontece uma coisa ruim, você bebe para esquecer. Se acontece uma coisa boa, bebe para comemorar”. Tudo vira pretexto.

O período
Existem épocas mais “perigosas” para os dependentes. A taça de champanhe no Réveillon e as promoções de Black Friday e Natal pedem cautela nesse sentido.

O diário
Procure identificar e anotar seus gatilhos. Onde estava quando começou a ter o comportamento viciante? Com quem andava? Quando usava? Como se sentia antes e depois?

Afasta de mim…

Especialistas afirmam que, quanto mais cedo uma pessoa passa a beber, fumar, usar drogas ou manter outros vícios, mais difícil fica se livrar das compulsões. Mas há estratégias bem-vindas

Isca para o desejo
Evite lugares que despertam aquela vontade irresistível. Se bebe demais, fuja de bares. É jogador compulsivo? Não vá a cassinos ou bingos. E assim por diante.

Navegação ilimitada
A internet é o palco de vários vícios. Caso dos sites de compras, jogos online, apostas ou pornografia. Vai navegar? Estipule um tempo máximo para não ficar preso ali.

Rotina digital
Lembre-se: há vida fora das telas. Com o avanço da vacinação e o uso de máscaras, dê preferência a atividades presenciais (ao ar livre, se possível) e relações pessoais ao vivo.

Mãos no celular
Procure não utilizar equipamentos eletrônicos em contextos impróprios, como refeições e reuniões de trabalho. Reduza o uso em fins de semana e feriados.

Trabalho maluco
Tem gente que se vicia no trabalho ou, por causa da tensão no emprego, fica com mais dificuldade para domar outras compulsões. Trabalhe para viver e relaxe sempre que possível.

Tomando controle

São várias as linhas de tratamento, que podem ser combinadas, dependendo da compulsão e do impacto na vida da pessoa. Mas o primeiro passo é querer se tratar

Psicoterapia
A avaliação e o acompanhamento de um psicólogo, em atendimentos individuais ou em grupo, estão na base, podendo ser associados a abordagens familiares.

Remédios
O médico pode prescrever medicamentos para lidar com a dependência e a abstinência e condições paralelas como ansiedade e depressão.

Grupo de autoajuda
Existem entidades que convidam dependentes a participar de reuniões ou sessões, como Alcoólicos Anônimos, Devedores Anônimos e Comedores Compulsivos Anônimos.

Terapia de reposição
Se aplica ao tabagismo, por exemplo. Sob a forma de adesivo ou goma de mascar, a terapia de reposição de nicotina aumenta de 15 a 20 vezes a chance de largar o cigarro.

Internação
É o último recurso. Existem clínicas e hospitais habilitados a internar pacientes com dependência por drogas e nortear seu processo de reabilitação.

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