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A internet está tóxica! E isso pode mexer com a nossa saúde mental

Críticas podem virar discurso de ódio nas redes sociais, gerando problemas emocionais e sociais. Como se blindar e não cair nesse tipo de comportamento?

Por Ingrid Luisa Atualizado em 8 out 2021, 10h20 - Publicado em 7 out 2021, 18h30

De forma geral, todo mundo sabe que a internet não é lá o lugar mais saudável do mundo.

Ao longo dos anos, ela tem se mostrado uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que facilitou o acesso à informação, abriu as portas para a desorientação e as fake news. Instaurou novos hábitos e riscos, mudando a forma de realizar operações bancárias e comprar produtos, mas também dominando nossos dados pessoais e servindo como armadilha para golpes.

E, por meio das redes sociais, a internet criou espaço para comunidades e trocas incríveis, só que, em paralelo, deu vazão à intolerância e ao discurso de ódio, representados na figura dos trolls (gente que causa deliberadamente confusão no ambiente online) e dos haters (os promotores do ódio).

Claro, isso não acontece porque a internet em si é ruim. Ela é, antes de mais nada, um meio, uma plataforma. Mas as redes sociais, em particular, têm um potencial de induzir comportamentos muitas vezes desmedidos em frente às telas, sem falar no seu aspecto viciante, como acusam alguns estudos.

Uma das questões mais problemáticas — e democráticas, no sentido de que pode atingir qualquer um de nós — é a da propagação de comentários negativos e ofensas. E não é raro que eles brotem em meio a debates que inicialmente são até sérios e produtivos.

A situação está chegando a um nível tão absurdo, muito em decorrência da polarização ideológica e política no Brasil, que o Grupo Abril, capitaneado pela CLAUDIA, lançou o movimento e a hashtag #ChegaDeHate.

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Apesar de nem todo mundo ser um hater propriamente dito, ou seja, alguém que entra no Facebook, Twitter e afins só para xingar e fazer cyberbulling, pessoas comuns como você e eu podem ter a agressividade aflorada nessas mídias. Andrea Jotta, psicóloga e pesquisadora do Laboratório de Psicologia em Tecnologia, Informação e Comunicação da PUC-SP, aponta três motivos: o primeiro deles é não ver a interface do outro.

Na verdade, seja pessoalmente, seja por uma mensagem, fazer uma crítica não é essencialmente algo simples. Apontar e explicar o que há de negativo em uma atitude ou trabalho exige certo cuidado para não desmerecer ou ofender a pessoa. Quando isso é feito cara a cara, é possível adaptar o discurso dependendo das reações do ouvinte.

“Quando a gente fala, a outra pessoa emite microssinais que o nosso cérebro capta, como levantar a sobrancelha, olhar para o lado, fazer alguma expressão facial, ajudando a moldar como aquela conversa deve ser continuada”, explica o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. “Esse comportamento não verbal é responsável por 75% de todo o conteúdo de uma interação pessoal”, calcula.

Na internet, porém, esses microssinais saem de cena. “Sem o retorno do outro, as pessoas falam o que pensam sem censura, e é comum isso acontecer de forma agressiva”, observa Andrea.

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Outro fator apontado pela pesquisadora da PUC-SP é a impulsividade aliada à disponibilidade das redes sociais. “Você nem sempre está próximo da pessoa que provocou aquele estímulo ou reação, mas, com o smarthphone, as redes estão 100% disponíveis o tempo todo para você externar os sentimentos, muitas vezes sem refletir sobre o assunto ou pensar que aquilo pode ter consequências”, afirma.

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O terceiro fator é um velho conhecido: o comportamento de manada. Andrea explica que quando todo mundo está falando mal de algo ou alguém nas redes, isso serve de estímulo para mais pessoas seguirem o exemplo, validando comportamentos muitas vezes criminosos, como linchamentos virtuais.

Para Nabuco, todos esses fatores envolvem o fenômeno da desinibição, quando você faz coisas na internet que não faria socialmente na vida real. “Muitos pesquisadores chamam isso de manifestação da personalidade eletrônica, que é um outro contorno psicológico mais exagerado e insubordinado”, conta o especialista.

Acontece que esse tipo de interação é um profundo gerador de estresse. E, quando comentários negativos viram cyberbullying, os danos à saúde mental se tornam ainda mais graves.

“O grande perigo é que ele pode alcançar todos os círculos sociais. Se antes da internet seus amigos da rua não sabiam do apelido maldoso que te colocaram na escola, com as redes sociais ele vai ser conhecido por todos, e a pessoa fica sem um ambiente seguro emocionalmente e exposta ao sofrimento”, explica Andrea.

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Se conhecer para se proteger

Não se pode generalizar, mas, na maioria dos vezes, tanto quem xinga e dissemina o discurso de ódio quanto quem é vítima enfrenta problemas relativos à saúde mental.

“Pra quem recebe o ataque, o prejuízo vai depender de quanto a pessoa associa sua autoestima às respostas da internet, lembrando que quem pratica bullying constantemente já sofreu com aquilo e achou uma forma de descontar”, explica a psicóloga da PUC-SP.

Se você quer a todo custo se resguardar de comentários maldosos, algumas orientações são bem-vindas. Para começar, não poste nada no calor do momento. Claro que você pode publicar suas opiniões sobre o que quiser, mas tente embasá-las e escrever sobre elas quando tiver raciocinado melhor, evitando reações inflamadas.

Depois, reflita sobre quanto da sua vida você realmente quer compartilhar nas redes. Isso é crucial para evitar comentários invasivos. Outra dica: mantenha conexão e compartilhe seus conteúdos com pessoas que você realmente conhece — blindando-se, dessa forma, de críticas maldosas de anônimos ou estranhos.

No entanto, a forma mais eficaz de lidar com tudo isso é o autoconhecimento, muitas vezes alcançado com o apoio da psicoterapia. Isso, aliás, vale tanto para quem sofre com ofensas virtuais quanto para quem as pratica. “A partir do momento que você se conhece, sabe suas qualidades e que todo mundo é passível de críticas, você lida melhor com os comentários, e eles nos atingem menos”, afirma Andrea.

Aprender a controlar os impulsos, resolver traumas e ter uma autoestima que não dependa da validação (e das curtidas e comentários) dos outros ajuda não só a acolher a opinião alheia, ainda que você não concorde com ela, como a diminuir o ódio propagado nas mídias sociais.

É preciso ficar claro que, infelizmente, o hater nunca vai sumir do mapa. “Esses nuances de perfis psicológicos problemáticos sempre vão existir, tanto na internet quanto na sociedade”, aponta Nabuco. Mas isso não significa que cada um de nós, revendo os comportamentos, não possamos fazer a nossa parte, contribuindo para uma comunidade virtual mais saudável.

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