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Por que os espermatozoides estão em baixa

A ciência aponta que as sementes masculinas estão cada vez mais fracas, raras e defeituosas. Descubra as causas dessa derrocada e como amenizá-la

No livro O Conto da Aia (clique aqui para comprar), de 1985, a escritora canadense Margaret Atwood esboça um futuro aterrador: após uma série de atentados e golpes, os Estados Unidos acabam dominados por um grupo religioso radical, que suspende os direitos fundamentais dos cidadãos. O principal motivo que leva a essa situação terrível é a alta taxa de infertilidade da população, interpretada como um castigo divino. Na história, as mulheres não engravidam com a facilidade de tempos passados e são acusadas de serem as únicas culpadas por esse insucesso. As poucas que mantêm o poder de gerar filhos são presas e escravizadas pelos comandantes do novo regime.

Por mais estranho que pareça, a verdade é que não há um abismo entre a ficção e a realidade atual — ao menos no que se refere às dificuldades reprodutivas. Chama a atenção o número de casais que não conseguem ter um bebê após um ano de relações sexuais sem o uso de camisinha ou pílula. Porém, diferentemente do romance, no mundo real o problema que impede a fecundação pode estar tanto no corpo do homem como no da mulher.

“Sabe-se que, em 40% dos casos, a disfunção está na parcela masculina, 40% na feminina e 20% nos dois lados”, calcula a bióloga Anne Ropelle, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A cientista publicou recentemente um estudo que revela como, nesse quesito, a saúde do homem vai de mal a pior. Ela analisou dados de 18 902 espermogramas, exame que avalia a qualidade do sêmen, colhidos entre 1989 e 2016.

Os resultados surpreendem: na média, a quantidade de espermatozoides por mililitro foi de 86 milhões nos anos 1980 para 48 milhões há três anos. A porcentagem de células com boa mobilidade (capacidade de movimentação em direção ao óvulo) caiu de 47 para 35%. A proporção de gametas saudáveis e sem deformações despencou de 37 para apenas 3%. Tudo isso em menos de três décadas.

“Apesar de serem achados expressivos e estarem alinhados com outros levantamentos internacionais, precisamos levar em conta que os testes evoluíram e ficaram mais rigorosos. Além disso, os dois primeiros parâmetros ainda estão dentro do preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)“, pondera o ginecologista Luiz Francisco Baccaro, orientador do trabalho. Mas quais serão os fatores por trás desse fenômeno?

 (Ilustração: Mariana Coan/SAÚDE é Vital)

O que explica a diminuição e o enfraquecimento dos espermatozoides

A grande ameaça moderna aos espermatozoides é uma barriga proeminente: a obesidade está ligada a uma queda na fabricação das células reprodutoras. “Em excesso, o tecido adiposo, que estoca gordura, secreta enzimas que afetam a testosterona, um dos hormônios mais importantes na produção dos gametas”, ensina o médico Renato Torrini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

E olha que esse é somente um dos impactos dos quilos extras sobre os testículos. “Eles incitam a liberação de substâncias inflamatórias que desregulam toda essa cadeia”, completa. Se considerarmos que 57% dos brasileiros estão acima do peso, fica mais fácil entender essa decadência toda do sêmen.

Calma que tem mais: exagerar nas bebidas alcoólicas, fumar ou consumir drogas como os anabolizantes, a cocaína e a maconha tem um papel perigoso por aqui. “Elas não abalam só a quantidade, mas também a eficiência e a capacidade de fecundação dessas células”, afirma o urologista Claudio Telöken, da Clínica Fertilitat da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Existem ainda alguns hábitos e costumes que parecem inofensivos mas que podem causar estrago. O principal deles é ficar com o notebook no colo por muito tempo. O problema é que esses aparelhos esquentam e ficam encostados na bolsa escrotal, local em que as células reprodutoras masculinas crescem e se desenvolvem.

“Para funcionar bem, essa região está sempre com 35,5 °C, um grau a menos que o restante do corpo”, explica o ginecologista Carlos Petta, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Agora, imagine o que acontece se há muito calor ali! Os espermatozoides, coitados, não aguentam e morrem assados. O mesmo ocorre em saunas e banhos quentes feitos com grande frequência, diga-se.

Falando em tecnologia, restam muitas dúvidas sobre o efeito dos celulares na saúde sexual do homem. Há a suspeita, confirmada em estudos com animais de laboratório, de que as ondas eletromagnéticas deixariam os gametas totalmente sem rumo.

Mas esses ensaios precisam ser validados por pesquisas em seres humanos. Enquanto essas conclusões não saem, melhor não permanecer com o smartphone guardado no bolso da calça o dia todo.

Por fim, os estudiosos se preocupam com os disruptores endócrinos, substâncias químicas que imitam a estrutura dos hormônios naturais e desequilibram todo o organismo. Entre os integrantes dessa lista, encontram-se alguns tipos de plástico e os pesticidas.

“As mudanças no meio ambiente dos últimos 50 anos tiveram uma série de consequências, como a piora na qualidade do ar e o aumento do uso de agrotóxicos, que estão relacionados a danos nos testículos capazes de levar à infertilidade”, contextualiza o médico Marcelo Vieira, da Sociedade Brasileira de Urologia.

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Infelizmente, muitos dos fenômenos que listamos aqui são irreversíveis e não há muita coisa a ser feita do ponto de vista individual para combatê-los — ora, como uma pessoa sozinha vai lidar com a atmosfera poluída, por exemplo? É urgente cobrar das autoridades políticas públicas sanitárias e ambientais mais responsáveis e duradouras.

Outros fatores, na contramão, podem, sim, ser modificados com um estilo de vida equilibrado. Isso inclui a prática regular de exercícios físicos e uma dieta nutritiva e variada.

Nos casos em que a dificuldade de gerar um descendente se alonga por meses, o homem deve visitar o urologista e realizar exames como o espermograma. Esse teste ajuda a fazer uma avaliação geral e dá pistas valiosas. “É possível corrigir as causas de uma disfunção e, num primeiro momento, já prescrever remédios e vitaminas”, explica o médico Marcio Coslovsky, diretor da Clínica Primordia, no Rio de Janeiro.

Ora, ninguém quer que O Conto da Aia saia das páginas da ficção para se tornar realidade.

O que fazer quando as tentativas de engravidar dão errado repetidamente

Comprimidos: Medicamentos e vitaminas com ação antioxidante auxiliam na formação de células perfeitas. A melhora demora alguns meses para aparecer.

Sexo programado: Alguns exames indicam os dias exatos em que a mulher está no auge de seu período fértil. Eis o momento perfeito para transar com mais chances de sucesso.

Inseminação intrauterina: O sêmen coletado e preparado num procedimento é injetado nas vias uterinas da mulher um pouco antes da ovulação.

Fertilização in vitro: Óvulos e espermatozoides são colhidos e o processo de fecundação se passa no laboratório. Depois, os embriões são instalados no útero.

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1. Cuidarás do peso: A obesidade altera a disponibilidade da testosterona e estimula a inflamação pelo corpo todo.

2. Consultarás o médico: O urologista é o profissional mais indicado para acompanhar a saúde masculina.

3. Não abusarás do álcool: O excesso de bebidas (especialmente as destiladas, como uísque e vodca) faz um mal danado ao sêmen.

4. Não fumarás: O cigarro mexe com a fertilidade, assim como a maioria das drogas ilícitas.

5. Evitarás os dispositivos no colo: Mantenha notebooks apoiados na mesa e os celulares longe da calça. O calor deles não é bem-vindo ali embaixo.

6. Prevenirás infecções sexuais: Bactérias e vírus que provocam sífilis, clamídia e verrugas genitais são combatidos com camisinha e vacinas.

7. Tomarás atitudes sustentáveis: Reduzir o uso de plástico, priorizar o transporte público… O planeta e seus espermatozoides agradecem!