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O fardo da dermatite atópica e o que muda com os novos tratamentos

Poucas doenças interferem tanto no dia a dia de crianças e adultos como ela. Felizmente, há uma virada de jogo no tratamento; veja o que há de novo

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Layla Shasta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 jun 2026, 09h37 | Atualizado em 4 jun 2026, 22h17
foto mostra braço de pessoa com o braço enrolado em uma fita adesiva branca com bolinhas vermelhas. Imagem é representação artística do que seria a dermatite atópica.
Dermatite atópica afeta a pele e é causada por uma falha na barreira cutânea e um desequilíbrio imunológico. (Foto: Mirage c/ Getty Images/Getty Images)
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O fardo da dermatite atópica e o que muda com os novos tratamentos Priorizar nos meus resultados Google

Olívia Feldens tinha 7 anos quando passou pela pior crise de sua vida. A menina de Porto Alegre convivia desde pequena com reações alérgicas na pele que foram se agravando e atacando sobretudo a região das dobras dos braços e das pernas.

Até que, em 2022, as lesões, acompanhadas de coceira, se espalharam para o corpo todo, inclusive o rosto. “De noite, ao dormir, eu ficava coçando horrores, principalmente na parte atrás da perna”, recorda a guria de 11 anos.

“Mas o mais difícil era no colégio, porque tinha muita criança maldosa. Teve gente que falou que eu era um monstro“, prossegue a jovem gaúcha, que, além do dermatologista, precisou tratar a ansiedade com uma psicóloga.

Quem acompanhou a saga foi a mãe, Thaís, de 47 anos. “Quando o quadro começou a piorar, a gente foi à praia e a Olívia saía do mar chorando, chorando, por causa do contato das feridas com a água salgada”, lembra-se a professora universitária.

Olívia convive com o diagnóstico de dermatite atópica, condição que chega a afetar até 20% da população em idade escolar, podendo persistir na vida adulta — estima-se que cerca de 5% do público mais maduro tenha o problema.

Nesta reportagem, você vai ler:

  • O que é dermatite atópica, suas causas e mecanismos;
  • Os impactos da doença na rotina e o que dizem pacientes;
  • A virada de jogo no tratamento com nova geração de medicamentos;
  • Cuidados básicos importantes;
  • Ficha técnica da dermatite atópica;
  • Resumo dos tratamentos disponíveis hoje.
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O que é

“Nós a definimos como uma doença inflamatória da pele, que envolve períodos de crise e calmaria. O paciente fica com descamação e lesões avermelhadas, mas a característica principal e que mais tira a qualidade de vida dessas pessoas é a coceira“, explica o dermatologista Daniel Lorenzini, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, que hoje acompanha o caso de Olívia.

A dermatite se origina de dois desequilíbrios no organismo. O primeiro à flor da pele. “Há uma malformação da barreira cutânea. É como se estivesse faltando cimento entre os tijolos do muro que protege a pele”, descreve Lorenzini.

O segundo fator é, digamos, interno e sistêmico: um desarranjo no sistema imune. Ele é, digamos, sensível demais, podendo reagir a alérgenos e outras substâncias potencialmente irritantes, o que desencadeia o prurido, a vermelhidão e as feridas.

“Nas crianças, as lesões aparecem tipicamente no rosto, nos cotovelos e nos joelhos. Na adolescência, especialmente nas dobras do braço e atrás dos joelhos. E, no adulto, em regiões como o pescoço“, nota o médico.

E antes os machucados se restringissem à pele. A coceira intensa abre caminho a feridas que chegam até a sangrar.

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“Não só as lesões podem infectar, causando complicações, como os pacientes sofrem com o estigma devido à aparência da pele”, observa o dermatologista Anderson Costa, membro da Skin of Color Society. “O paciente coça tanto que fica com aquela sensação ‘Nossa, será que vão achar que é contagioso?‘”.

Por essas e outras, a doença impacta bastante o bem-estar e a socialização. Perturba até na calada da noite, aliás.

“O sono é muito afetado pela coceira, que acaba gerando despertares e, como o descanso não é reparador, acarreta sonolência e perda de concentração durante o dia”, conta Costa.

Para completar o pacote, não é incomum que o diagnóstico seja feito em meio a outros problemas de fundo alérgico, como rinite, asma e alergia alimentar. Sim, incômodos por fora… e por dentro.

+Leia também: Sintomas de dermatite atópica vão muito além da pele

Foto mostra pessoa segurando uma fita adesiva branca com bolinhas vermelhas. Imagem é representação artística do que seria a dermatite atópica.
(Foto: Mirage c/ Getty Images/Getty Images)
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Os impactos da doença

Felizmente, a maior parte dos casos de dermatite atópica é considerada leve, podendo entrar em remissão com a idade.

“Nesses casos, medidas básicas, como o uso de sabonetes não agressivos e de hidratantes após o banho, associadas a medicamentos tópicos [cremes e pomadas], costumam ser eficazes no controle das lesões”, afirma a dermatologista Silvia Soutto, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

O objetivo é restaurar a tal da barreira cutânea e evitar o ressecamento e o ambiente propício à coceira e às feridas.

Ocorre que uma parcela das pessoas com a condição desenvolve quadros mais graves e difíceis de domar somente com a estratégia-padrão. Olívia sabe bem do que estamos falando.

“Passávamos hidratante, hidratante, hidratante… Mas o hidratante não dava conta“, relata a mãe, Thaís. “Também usávamos o corticoide, que dava uma aliviada, só que depois vinha o efeito rebote.”

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A gaúcha de 11 anos não está sozinha nessa jornada desafiadora. Seu conterrâneo Guilherme Andrade, de 27 anos, tinha mais ou menos a idade atual de Olívia quando as lesões começaram a se manifestar.

“As piores crises, meu Deus, eram no inverno. A pele ficava rachada e saía até sangue“, lembra. “Era ruim para me mexer, para colocar roupa, para dormir e principalmente para tomar banho.”

O que acontece na pele se reflete na vida em geral. Guilherme teve de ser internado diversas vezes para conter as feridas.

A ponto de ter de parar de estudar por um tempo. “Não queria ir à escola devido ao bullying e ao preconceito e acabei me isolando dentro de casa”, conta o gaúcho. “Entrei em depressão por causa desse estresse, e o estresse contribuía para eu ter mais feridas.”

É um círculo vicioso, em que as agruras emocionais servem de gatilho para a piora da dermatite — a tensão, traduzida em moléculas dentro do corpo, pode realmente ter um efeito inflamatório.

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Os obstáculos acompanharam Guilherme mesmo depois de sair do colégio. “Cheguei a tirar a carteira de trabalho, mas nunca trabalhei. Fiz umas cinco entrevistas, o pessoal gostava de mim, mas provavelmente não me contratavam devido à minha pele.”

Na infância ou na vida adulta, o fato é que a dermatite atópica grave representa um fardo em inúmeros sentidos.

Até porque o próprio tratamento usual à base de corticoides e outros imunossupressores pode desencadear reações adversas expressivas.

Guilherme, por exemplo, chegou a desenvolver catarata precoce nos olhos de tanta medicação que precisou tomar ao longo da vida — e fez cirurgias para mitigar os danos.

Virada de jogo no tratamento

Mas a história de Guilherme e a de Olívia não terminam mal, ainda bem! Porque, graças ao avanço da medicina, os casos mais complicados de dermatite já podem ser controlados com uma nova geração de remédios.

“Há algum tempo, as opções de terapias sistêmicas para esses casos se limitavam a imunossupressores como corticoides e ciclosporina, que apresentavam muitos efeitos colaterais“, contextualiza Soutto.

Nos últimos anos, porém, outros comprimidos e injeções pediram passagem para virar o jogo.

Podemos dividir as inovações em dois grupos. Primeiro, as terapias biológicas injetáveis, representadas pelos anticorpos monoclonais. “Elas bloqueiam moléculas que, ao se conectar com nossas células, disparam a reação inflamatória típica da dermatite atópica”, explica Lorenzini.

Os principais representantes dessa classe, administrada em canetinhas de aplicação subcutânea em regime quinzenal ou mensal, são o dupilumabe, do laboratório Sanofi, autorizado a partir dos 6 meses de vida, e o lebriquizumabe, da Eli Lilly, aprovado a partir dos 12 anos.

Esse tipo de medicamento foi um divisor de águas na vida de pessoas como Olívia e Guilherme.

“Antes eu tinha dificuldade para dormir, para prestar atenção na aula, de tanta coceira. O tratamento melhorou tudo isso, meu estado físico e minha vida social”, diz a menina de Porto Alegre.

“Estamos conseguindo controlar a doença de uma forma tranquila, o que nos traz paz de espírito”, destaca a mãe.

Guilherme está de acordo: “Deu muito certo, a resposta foi positiva”. Porém, há um preço a pagar — literalmente. “São medicações caras, mas conseguimos obter pelo Estado com uma ordem judicial“, relata. Uma realidade que também está mudando.

Em abril deste ano, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aprovou a inclusão do anticorpo lebriquizumabe no rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde para o tratamento de adultos com dermatite atópica grave — o dupilumabe já estava contemplado na lista.

Em paralelo, a farmacêutica Eli Lilly apresentou dados de estudos com sua medicação para crianças e jovens de 6 meses de vida a 18 anos com a doença em nível moderado a severo.

Houve uma melhora significativa das condições da pele em mais de 60% do público avaliado, e 44% dele ficou praticamente livre de lesões. São achados que devem abrir caminho à ampliação da indicação no país e podem subsidiar a extensão da cobertura pelos convênios.

Imagem mostra dados sobre a dermatite atópica.
(lIlustração: Laura Luduvig//Veja Saúde)

E parece ser questão de tempo para que essas terapias cheguem ao Sistema Único de Saúde (SUS), com oferta gratuita aos pacientes que não respondem às intervenções mais antigas e tradicionais.

O Ministério da Saúde atualizou seu Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para a dermatite atópica no SUS, permitindo, em tese, que as novas opções de medicamentos estejam disponíveis ainda no segundo semestre deste ano.

Se levarmos em conta que ao menos sete em cada dez pessoas dependem da rede pública no país, será um golaço em termos de acesso.

Os remédios mais modernos, na verdade, não se resumem a injeções. Também há comprimidos que atuam no sistema imune modulando suas reações intempestivas que resultam nas manifestações da dermatite.

Eles são a família dos inibidores da JAK: o baricitinibe é indicado a partir dos 18 anos, enquanto o upadacitinibe e o abrocitinibe podem entrar em cena dos 12 em diante. São fármacos que também são prescritos em outros contextos, como no manejo de doenças autoimunes (artrite reumatoide, alopecia areata…).

Em comum, tanto a categoria das “pequenas moléculas” utilizadas via oral quanto dos biológicos ajudaram a reformar um paradigma no tratamento da dermatite atópica.

São mísseis teleguiados, com ação mais precisa e menos efeitos adversos, em comparação com a “bomba” representada pelos imunossupressores de longa data.

Não que corticoide e companhia tenham sido aposentados. “Nós utilizamos os novos tratamentos geralmente quando os imunossupressores falham nos adultos. E, em crianças, por vezes partimos para eles quando a terapia tópica não dá resultados“, esclarece Lorenzini.

Mas tudo indica que, com os estudos e a viabilidade do maior acesso, não só será possível ampliar o número de pessoas que se beneficiam dessas drogas como outras substâncias despontarão no horizonte, forjando um arsenal ainda maior diante de uma doença mais complexa do que se imaginava.

Autocuidado não pode faltar

Só que essa é uma das partes da história. Você se lembra de que, entre as pessoas com dermatite, também há um comprometimento da barreira cutânea?

Isso significa que é preciso cuidar da pele para evitar crises ou a piora do problema. O que depende, antes de mais nada, de orientação e, claro, do diagnóstico correto.

“A questão é que o maior desafio ainda é o diagnóstico precoce. No início do quadro, intervenções simples ajudam a recuperar a barreira cutânea”, diz Soutto. Uma vez que o médico bate o martelo para a condição, não importa se o paciente é criança ou adulto, alguns ajustes na rotina se tornam imperativos.

“O banho deve ter duração de até cinco minutos, com água morna e sabão líquido para peles sensíveis”, recomenda a dermatologista Glauce Eiko, também membro da SBD. Ora, uma ducha demorada ou pelando só irá arruinar ainda mais a camada de proteção da pele.

E é nos três minutos depois de se secar — sem esfregar a toalha em áreas irritadas, por favor — que se deve fazer um ritual diário e inescapável, a aplicação do hidratante.

Existem produtos especialmente destinados a pessoas com dermatite, sem corante e fragrância. “A hidratação é uma das principais ferramentas do tratamento para manter a integridade cutânea, aliviar os sintomas e até diminuir a necessidade do uso de cremes e pomadas com corticoide”, afirma Eiko.

É essa junção de autocuidado com o progresso da medicina que permite mudar o jogo, mudar a pele, mudar a vida. Ou, como diz Olívia para quem compartilha sua jornada: “Só não podemos desistir, porque uma hora vai dar certo”.

Foto mostra pessoa segurando uma fita adesiva branca com bolinhas vermelhas. Imagem é representação artística do que seria a dermatite atópica.
(Foto: Mirage c/ Getty Images/Getty Images)

A ficha da doença

As principais características da dermatite atópica

O que é?

Uma doença inflamatória crônica que afeta a pele e é causada por uma falha na barreira cutânea e um desequilíbrio imunológico.

O que causa?

Os especialistas explicam que há componentes genéticos e ambientais que, em conjunto, desencadeiam o quadro.

Quantos afetados?

Até 20% das crianças e adolescentes podem ter dermatite, a depender da população estudada. Entre adultos, o índice cai para cerca de 5%.

Quais os sintomas?

Pele ressecada, lesões avermelhadas e presença de coceira são os mais importantes. Eles podem aparecer em crises periódicas.

Como é o diagnóstico?

Ele depende eminentemente de um exame físico, com análise da história do paciente, feito por dermato ou pediatra.

E o tratamento?

Contempla do uso de hidratantes e cremes com corticoide a medicamentos com atuação sistêmica, que regulam a imunidade.

O que tem de tratamento hoje

Terapia depende do grau de gravidade da doença — e vai de pomada a imunobiológicos

Cremes e pomadas

O tratamento tópico costuma ser o primeiro passo no controle das lesões e demais sintomas da dermatite atópica. Pode ter componentes como corticoide.

Imunomoduladores

São as medicações de última geração, em comprimido ou canetas injetáveis, que possuem uma mira mais precisa e bom perfil de eficácia em casos mais graves.

Imunossupressores

São utilizados de forma oral para controlar quadros mais severos, mas não apresentam ação específica — daí os efeitos colaterais e a volta das lesões após a crise.

Estilo de vida

O manejo também depende dos cuidados com a pele (caso da hidratação diária), de uma dieta equilibrada, da melhora do sono e da gestão do estresse.

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