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Marcelo Gleiser: “Ciência não é uma escolha. É uma necessidade”

Em entrevista à Agência Einstein, o premiado físico e astrônomo brasileiro fala sobre o impacto da ciência na pandemia do coronavírus (e após ela)

Por Cristiane Bomfim, da Agência Einstein* - Atualizado em 19 ago 2020, 18h06 - Publicado em 19 ago 2020, 16h08

“Ciência não é uma escolha. É uma necessidade. Quem não enxerga isso está fadado a um obscurantismo que condena o futuro do país.” Foi com essa frase que o físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser, vencedor do Prêmio Templeton em 2019 — uma espécie de prêmio Nobel do diálogo entre ciência e espiritualidade — encerrou a entrevista concedida à Agência Einstein. O tema: o papel da ciência em meio à pandemia de coronavírus, que só no Brasil já matou mais de 100 mil pessoas.

O pesquisador, que é professor da Universidade Dartmouth, nos Estados Unidos, diz que uma das principais lições a serem aprendidas com a Covid-19 é a valorização da ciência. Ele também criticou a forma com a qual o governo brasileiro vem tratando a pandemia. Confira:

Agência Einstein: no início de abril, em uma conversa com alunos da Universidade de Fortaleza, o senhor afirmou que uma das maiores perversidades do novo coronavírus era o fato de ele ser assintomático em muitos casos, o que facilitaria sua propagação. Quatro meses depois, diante do avanço da doença, ainda dá para dizer isso?

Marcelo Gleiser: eu diria que, com o que sabemos hoje sobre a transmissão da doença, as pessoas que saem pelas ruas sem tomarem precauções devidas, como o uso de máscaras e o distanciamento social, estão cometendo o equivalente a um crime. Especialmente os que estão em contato direto com indivíduos com maior risco, como idosos ou portadores de diabetes, obesidade, câncer e problemas pulmonares.

Qual a sua opinião sobre a testagem em massa?

Em um mundo ideal, as empresas e empregadores deveriam testar regulamente seus funcionários para evitar que o local de trabalho se transforme numa incubadora da Covid-19.

Apesar da falta de investimentos e dos movimentos que questionam a importância da ciência, como o senhor analisa o desempenho da ciência na pandemia no mundo e particularmente no Brasil?

Confesso que não estou a par dos desenvolvimentos científicos no combate ao coronavírus no momento no Brasil. Mas em termos de mudança de perspectiva com relação à ciência, sem dúvida, uma das lições mais diretas do vírus é que, sem o conhecimento científico, o impacto da pandemia seria ainda mais devastador. Tragicamente, mesmo nessas circunstâncias, ainda vemos aqueles em posições de liderança que tentam negar a ciência como o único caminho viável para sairmos dessa crise. Isso traz resultados ainda mais terríveis para a população.

O novo coronavírus virou notícia no fim do ano passado. Chegou ao Brasil dois meses depois, quando já tínhamos alguns exemplos no mundo do que deu certo e do que deu errado no controle da doença. Por que não conseguimos fazer melhor por aqui usando estes exemplos?

Essencialmente porque a liderança política não cumpriu seu papel de liderar. Informações erradas foram e continuam sendo passadas, como no caso da cloroquina. Não se pode tratar uma crise de vida ou morte com superficialidade.

Sem uma política social alinhada com metas científicas fica impossível combater uma pandemia. E é isso que vemos tanto no Brasil como nos Estados Unidos, os dois países em que existe esse confronto claro entre a liderança política e a liderança científica.

Por que temos tanta dificuldade para seguir recomendações como o isolamento físico?

É um problema cultural e de maturidade social. Cultural porque o brasileiro é gregário e fica difícil mudar isso. Maturidade social porque, ao serem expostas aos números aterrorizantes da pandemia, as pessoas deviam se mobilizar individualmente para cumprir as metas de isolamento social e de proteção ao próximo. Mas isso não está ocorrendo como deveria.

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Infelizmente, muitos se guiam pelo exemplo da liderança política, que passa mensagens confusas e contraditórias e trata a doença com um desprezo absurdo.

A urgência na busca de soluções, entre elas as vacinas, em alguma medida pode trazer riscos?

Com certeza. As vacinas são testadas em estágios que envolvem números cada vez maiores de pessoas com históricos médicos diferentes. A pressa pode levar a problemas, como efeitos colaterais inesperados ou ineficácia. Por outro lado, a possibilidade de uma vacina que funcione é tão sedutora que fica difícil não acelerar os testes, mesmo se comprometer sua precisão. Contanto que a pressa não seja movida principalmente por motivos econômicos — a empresa ou laboratório que desenvolver a primeira vacina lucrará milhões e milhões —, é compreensível que o processo seja acelerado ao máximo, com a prudência devida.

Quais as principais lições dessa pandemia?

A nossa fragilidade como espécie. Apesar de toda nossa tecnologia e desenvolvimento, um vírus com cerca de 100 nanômetros de diâmetro pode causar o dano que estamos vendo. A lição é simples: temos que olhar para a natureza com a humildade de quem sabe que pouco sabe.

Outra lição importante é nossa codependência enquanto espécie. Ficou muito claro quanto dependemos do nosso pessoal médico, daqueles que produzem os alimentos que continuamos a comer, os que mantêm as prateleiras dos supermercados cheias, as ruas limpas, a energia fluindo. A sociedade se desestabilizaria rapidamente se não fosse assim.

Isso mostra quanto precisamos uns dos outros, justificando uma visão da humanidade como espécie única e não uma mistura de tribos em conflito constante.

Por causa do distanciamento físico, muita coisa mudou: reuniões pelo zoom, abraços sendo evitados, shows no formato drive-thru, compras pela internet com entrega em casa. Isso deve permanecer?

Acho que não. Talvez as pessoas fiquem um pouco mais cuidadosas com relação ao contato físico, mas eventualmente isso será esquecido. Supondo que tenhamos uma vacina eficaz, claro.

Penso na gripe espanhola, quando 50 milhões de pessoas morreram, muito acima do que vemos agora. E o que ficou dessa crise pandêmica que ocorreu 102 anos atrás? Muito pouco. Já se sabia das vantagens de máscaras e distanciamento social, mas não vemos essa herança em nosso comportamento atual. O sucesso apaga a memória das crises passadas.

Na sua opinião, o que precisa ser repensado a partir de agora na condução da ciência e de políticas públicas para saúde?

Muita coisa. O governo não pode abrir mão da sabedoria que vem dos cientistas. Ciência não é uma escolha. É uma necessidade. Quem não enxerga isso está fadado a um obscurantismo que condena o futuro do país.

Não só o ensino de ciência precisa ser modernizado e ampliado no país, como investimentos na formação de novos cientistas e engenheiros também. Só assim o Brasil participará de forma competitiva da economia do século 21, e com uma população saudável. É triste ver o impacto das políticas atuais em toda uma geração de jovens que aspiram a uma carreira em todas as ciências.

*Este conteúdo foi produzido pela Agência Einstein

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