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Vacinas da Covid podem provocar mal súbito ou AVC?

São apenas boatos as mensagens trocadas em redes sociais sobre a possibilidade de os imunizantes causarem infartos, mortes repentinas ou derrames

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 11 jan 2022, 20h06 - Publicado em 11 jan 2022, 19h16

Mortes repentinas de artistas e atletas por mal súbito ou acidente vascular cerebral (AVC) passaram a ser associadas às vacinas da Covid-19 nas redes sociais e grupos de mensagens.

Mas trata-se de uma campanha de desinformação: o AVC é considerado um evento adverso extremamente raro das vacinas, e não há casos de mal súbito relacionado a elas.

A Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) inclusive divulgou uma nota enfatizando a falta de evidências sobre o assunto e a segurança dos imunizantes.

Não há nenhuma evidência científica mostrando qualquer tipo de elevação no número de casos de morte súbita (MS) em atletas. Adicionalmente, não há nenhum dado que mostre uma associação entre vacinas contra o Sars-CoV-2 e MS em atletas ou em praticantes de atividades físicas intensas e/ou frequentes”, diz o texto.

Também não houve aumento de casos de AVC no país. Segundo o DataSus, em média 25 mil pessoas morrem por derrame anualmente no Brasil – e esse número se manteve estável entre 2018 e 2021.

O AVC é o rompimento ou o entupimento de um vaso sanguíneo, que pode deixar sequelas motoras, cognitivas e psicológicas.

Há uma lista de motivos por trás do problema. “Sabemos que os principais fatores de risco são tabagismo, diabetes, hipertensão arterial, sedentarismo, dislipidemia (doença relacionada ao descontrole dos níveis de colesterol), doenças cardíacas, obesidade e consumo de álcool”, lista o neurologista e neurovascular Anderson Machado Benassi, do Hospital Santa Paula, em São Paulo.

+ LEIA TAMBÉM: O coronavírus pode atacar o cérebro? Ele causa AVC?

Após as vacinas, já houveram relatos de AVC, mas esse é um evento considerado extremamente raro. Veja: um estudo publicado no British Medical Journal acompanhou 29 milhões de vacinados e 2 milhões de internados por Covid e calculou que, no caso da injeção da AstraZeneca, a incidência foi de 7 casos de um tipo específico de derrame, a trombose do seio venoso central, a cada 10 milhões de vacinados.

No caso da Pfizer, a conta é de 143 casos de AVC isquêmico a cada 10 milhões de vacinados. Se esses grupos fossem contaminados pelo coronavírus, calculam os autores, seriam 1,7 mil derrames (comparando com os imunizados pela Pfizer) e mais de 12 mil derrames (considerando o grupo que recebeu a dose da AstraZeneca).

Ou seja, é mais provável ter uma trombose ou um derrame ao contrair a própria Covid-19. O mesmo vale para outros problemas neurológicos, como polineuropatia (disfunção dolorosa nos nervos periféricos do organismo), encefalopatia (complicação de uma doença hepática que atinge o cérebro), transtornos psiquiátricos, dificuldade no raciocínio, anosmia (perda de olfato) e cefaleia crônica.

Os casos de AVC pós-vacina

Guilherme Furtado, líder de infectologia do Hospital do Coração, em São Paulo, reforça que esses poucos eventos relatados estão associados à trombocitopenia, um tipo bem específico e incomum de trombose, associada à queda no número de plaquetas no sangue.

Como a trombose clássica, o fenômeno é caracterizado pela formação de um coágulo no sangue (ou trombo) que obstrui ou dificulta a circulação de um vaso sanguíneo. Mas o mecanismo que leva ao quadro é diferente. Então, ter tido um problema circulatório no passado não necessariamente é um impeditivo para tomar essa vacina.

“Alguns tipos de vacinas, como as da AstraZeneca e da Janssen, podem ser contraindicadas a pessoas com tendência a esse tipo de trombose, o que é raro. Mesmo assim, pessoas com essa predisposição foram imunizadas, depois acompanhadas, e não se notou essa reação”, afirma o médico.

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Na Covid-19, não custa reforçar, a história é outra. Um artigo científico publicado em agosto de 2021 na British Medical Journal comparou a incidência de doenças cerebrovasculares nos que receberam essas vacinas com os pacientes infectados pelo coronavírus.

“Foram constatados eventos trombóticos arteriais e venosos em ambos os grupos. Contudo, a incidência foi muito maior entre os pacientes que tiveram infecção pela Covid”, relata o médico do Hospital Santa Paula.

+ LEIA TAMBÉM: Vacina para Covid-19 e trombose: faz sentido ter receio?

Para citar outro exemplo, um trabalho chinês publicado no Jama Neurology com 214 portadores da doença mostrou que até 36% dos infectados pelo coronavírus tiveram algum tipo de problema no cérebro. Entre eles, alterações sensoriais, derrames e confusão mental.

Essa característica não é exclusiva do Sars-CoV-2. Outras infecções facilitam o entupimento dos vasos sanguíneos, como malária e dengue. No caso do coronavírus, médicos fazem uso de anticoagulantes em alguns indivíduos internados para amenizar o risco de complicações.

E o mal súbito?

Já o mal súbito é um quadro em que a pessoa pode evoluir rapidamente para o óbito. Estão relacionados a ele, além do próprio AVC, doenças cardíacas, neurológicas, traumas e tromboembolia pulmonar.

O AVC dentro deste quadro é bem diferente daquele raro relacionado à vacina. “Nesse caso, a pessoa morre de maneira inesperada, em menos de uma hora do início dos sintomas”, esclarece Rodolfo Augusto Bacelar de Athayde, pneumologista do Complexo Hospitalar Dr. Clementino Fraga, em João Pessoa.

Supondo que alguém vacinado tenha uma trombocitopenia com potencial para causar um AVC, a situação não levará a um mal súbito. Nesse contexto, há tempo de iniciar um tratamento com medicamentos para evitar complicações mais graves. E, mais uma vez, não custa frisar: esse tipo de evento é raríssimo. 

Falando das outras causas de morte súbita, o fato é que não há relação alguma com os imunizantes. “A incidência de casos sempre foi alta, há cerca de 21 mil por ano só na cidade de São Paulo, a maioria relacionada a doenças coronarianas e arritmias. A frequência é tão grande que a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas tem um dia dedicado a estudos e campanhas de prevenção”, relata Athayde.

“E esses números se mantiveram no mesmo patamar nos últimos anos, mesmo em meio a bilhões de doses de vacinas já aplicadas, comprovando que não há uma correlação de mortes súbitas aos imunizantes“, reforça o pneumologista.

Em um universo de tantas pessoas vacinadas ao mesmo tempo, é natural que aconteçam registros de mortes pelos mais variados motivos. É aquilo: morrer depois de tomar a vacina não quer dizer que isso aconteceu por causa dela. De qualquer forma, existe uma rede vigilante para detectar rapidamente eventos adversos inesperados.

Furtado completa essa ideia lembrando que todo medicamento ou imunizante passa por uma série de testes antes de ser lançado.

“Depois da aprovação, quando esse produto chega à população, se observam outros aspectos e eventos mais raros, que só aparecem depois de milhões de pessoas receberem a substância. Hoje, no Hospital do Coração, as pessoas vacinadas que contraíram Covid não evoluíram para casos graves, o que reforça a efetividade e importância da vacina”, relata o infectologista.

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