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Quando a trombose vira embolia

Especialista explica o que é o tromboembolismo venoso, condição que pode evoluir para embolia pulmonar em 15% dos casos

Entende-se por tromboembolismo venoso uma situação em que o sangue se coagula no interior das principais veias do nosso corpo, dando origem ao que chamamos de trombose venosa. Isso ocorre principalmente nos vasos profundos das pernas e das coxas que estão localizados debaixo da musculatura. O trombo formado ali pode se deslocar em determinado momento e seguir diretamente para os pulmões, ocasionando a embolia pulmonar.

Tal complicação pode ocorrer em até 15% dos casos de trombose venosa profunda. E é um evento de repercussões dramáticas porque é capaz de colocar a vida do indivíduo em risco em função da insuficiência respiratória aguda, um quadro que gera grande dificuldade para respirar.

Sempre é importante lembrar que o sentido do sangue no interior das veias dos membros inferiores é ascendente, isto é, de baixo para cima. O fato de sermos bípedes e hoje ficarmos boa parte do tempo sentados ou em pé dificulta, pela ação da gravidade, o retorno do sangue aos pulmões.

Não é por menos que a atividade física aeróbica (caminhada, corrida, ciclismo…) é considerada essencial. Ela propicia melhor amplitude respiratória, estimula a circulação e, por meio da contração muscular nas pernas, imprime maior velocidade para o retorno do sangue. Portanto, é certo que não fomos postos nesse mundo para sermos sedentários.

Situações em que ficamos muito tempo sem andar, sentados ou deitados, podem elevar o risco de tromboembolismo venoso. Basta pensar em uma longa viagem de avião ou em pacientes acamados ou restritos no leito. O aumento da coagulação do sangue é outro fator desencadeante. Esse fenômeno é mais frequente em situações como o período imediato ao pós-operatório, sobretudo em cirurgias ortopédicas, abdominais e neurológicas de grande porte. Quanto mais idoso o paciente, maior tende a ser a incidência.

Apesar do risco ligado à idade, convém ressaltar que adolescentes e adultos jovens também podem ser acometidos, especialmente as mulheres que fazem uso de pílulas anticoncepcionais – isso porque elas podem interferir com a coagulação do sangue. A somatória desses fatores todos, incluindo aí sedentarismo e postura sentada prolongada, contribui ainda mais para o tromboembolismo.

A dor na panturrilha, não muito intensa, mas capaz de dificultar o andar é um dos sinais mais característicos de que algo não vai bem. O inchaço no pé e na perna é outro. Na maioria das vezes, ambas as manifestações aparecem ao mesmo tempo. É corriqueiro a queixa estar relacionada a uma das pernas e o paciente só procurar o médico após alguns dias da ocorrência.

O especialista poderá fazer a detecção do problema no consultório, recorrendo também a testes complementares. O ultrassom com doppler venoso é o exame de imagem mais realizado para o diagnóstico. Tomografia e ressonância também podem confirmar a presença do trombo, mas possuem maior custo e há que se pesar a exposição à radioatividade.

A suspeita de embolia pulmonar se faz quando há falta de ar, dor para respirar e, às vezes, tosse seca, sem qualquer presença de infecção respiratória.

O tratamento do tromboembolismo venoso pode se iniciar em ambiente hospitalar e ter continuidade em casa – há casos que podem ser conduzidos só em domicílio mesmo. Uma das estratégias terapêuticas mais usadas é o uso de meias graduadas de compressão elásticas. Elas começam a ser utilizadas no recinto hospitalar e são mantidas no dia a dia após a alta. É fundamental também a prescrição de medicamentos anticoagulantes, no início, injetáveis, e, após alguns dias, com o uso de comprimidos – o tempo de tratamento pode variar de três meses a um ano. Raramente há necessidade de cirurgia.

A maioria dos pacientes retoma suas atividades habituais sem sequelas, mas alguns podem apresentar com o tempo inchaço residual ou feridas na perna acometida. Isso acontece principalmente se o tratamento não for bem conduzido.

Devido aos riscos e à potencial gravidade do tromboembolismo, angiologistas e cirurgiões vasculares devem se empenhar na prevenção da doença, identificando e orientando sobretudo pacientes de alto risco, como aqueles que estão internados ou serão submetidos a intervenções cirúrgicas de maior porte. Hoje, felizmente, existem medidas fisioterápicas e medicamentosas para reduzir a probabilidade da complicação.

* Dr. Valter Castelli Júnior é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular

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