Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês
Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

O impacto da dieta vegetariana dentro do corpo

Nutricionista comenta os resultados de um estudo que revela os efeitos de se cortar a proteína animal da alimentação. Veja como a saúde pode sair ganhando

Por Dra. Késia Quintaes, professora de nutrição* Atualizado em 18 mar 2021, 15h52 - Publicado em 8 Maio 2019, 12h17

Estamos acostumados a relacionar a alimentação vegetariana apenas à ausência de carne na dieta. Mas ser vegetariano vai muito além de deixar de comer bife, frango etc. Os mais recentes estudos mostram que, ao priorizar alimentos de origem vegetal, o indivíduo tem acesso também aos principais meios de se obter naturalmente os compostos bioativos, substâncias associadas a benefícios à saúde e a uma maior longevidade. Sua ingestão explica, pelo menos em parte, por que essas pessoas tendem a viver mais e a apresentar um menor risco de câncer, diabetes e doenças cardiovasculares.

A ciência tem buscado nos últimos anos entender as diferenças para o organismo de adotar uma dieta vegetariana ou não-vegetariana — diferenças, no caso, que vão além de um estilo de vida saudável. E novas evidências vieram com um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Loma Linda, na Califórnia (EUA) e publicado na revista científica The Journal of Nutrition. Os investigadores analisaram biomarcadores (ou seja, moléculas que remetem a estados de saúde) no sangue, na urina e no tecido adiposo (gordura) de 840 adultos, de ambos os sexos, agrupados pelo seu tipo de alimentação:

  • Veganos: aqueles que seguem uma dieta vegetariana pura e nunca ou raramente comem ovos, laticínios, peixe ou carne.
  • Ovolactovegetarianos: os que comem ovos e laticínios mais de uma vez por mês, mas nunca ou raramente comem peixe ou carne.
  • Pesco-vegetarianos: comem peixe pelo menos uma vez por mês, mas nunca ou raramente comem carne.
  • Semi-vegetarianos: comem carne, pelo menos uma vez por mês, mas menos de uma vez por semana. Podem comer pescado eventualmente.
  • Não-vegetarianos: consomem carne pelo menos uma vez por semana.

A ideia dos cientistas era averiguar, por meio desses biomarcadores, a relação entre o cardápio e o maior ou menor risco de as pessoas desenvolverem com o tempo doenças. Ao final da pesquisa, os dados revelaram que os veganos obtiveram as maiores pontuações em termos de marcadores que impedem doenças. Ou seja, a dieta vegana se mostrou a mais saudável do ponto de vista da saúde.

  • Entre os achados, os estudiosos perceberam que os veganos concentram uma menor quantidade de gordura saturada no corpo e, por outro lado, apresentam maiores teores dos ácidos graxos ômega-6 e ômega-3. Também carregam maiores níveis no sangue de carotenoides, fitoquímicos de ação antioxidante e ligados à proteção do organismo, e maior excreção pela urina de isoflavonas e enterolctonas, compostos que indicam maior consumo de soja e cuja ingestão já é associada a menor risco de câncer de mama e câncer de próstata.

    De forma global, os resultados indicam ainda que as pessoas que adotam dietas ovolactovegetarianas e pesco-vegetarianas têm diferenças significativas nos biomarcadores em relação aos não-vegetarianos, embora com valores menos expressivos. Curiosamente, os ovolactovegetarianos quase empataram com os pesco-vegetarianos, ficando respectivamente com o segundo e terceiro lugar em termos de biomarcadores benéficos à saúde. Mas a surpresa maior foi ver que os resultados de biomarcadores para os semi-vegetarianos foram muito semelhantes aos dos não-vegetarianos.

    Dessa forma, em termos de biomarcadores do estado de saúde, todas as dietas vegetarianas se saíram melhor do que as dietas semi-vegetarianas e não-vegetarianas. Com base nessas novas evidências, podemos dizer que, embora comer menos carne possa dar ideia de ser saudável, os benefícios reais à saúde somente são conquistados ao adotar regularmente uma alimentação estritamente vegetariana.

    • Leia também – Diverticulite: o que é, causas, sintomas e tratamentos

    * Dra. Késia Quintaes é doutora em nutrição e alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora convidada da Universidade de Valência, na Espanha

  • Continua após a publicidade
    Publicidade