Ídolos com pés de barro, ou melhor, de proteína
Em sua nova edição, VEJA SAÚDE examina com uma lente crítica o atual culto à proteína
Alguns fenômenos extrapolam as dimensões de um modismo. Deitam raízes no mercado, na rotina e no imaginário a ponto de se transformarem numa espécie de culto. No nosso caso, um culto nutricional.
A proteína foi alçada, nos últimos anos, ao altar alimentar. A mensagem, velada ou escancarada, propagada por lançamentos e seus apóstolos, vai direto ao ponto: não há ingrediente mais importante para a dieta.
Assim fomos convidados a elevar a cota nas refeições ou, por que não, partir para um banquete carnívoro diário, e inundados de opções de produtos enriquecidos com o componente. A sensação, quando se caminha pelos corredores do supermercado, é que botaram proteína em tudo.
E não é impressão, não. Tem pão proteico, bolo proteico, água proteica e até cerveja proteica! Quanto mais, melhor, interpretamos diante dessa abundância, cujas embalagens vendem a promessa de uma vida mais saudável.
O problema é que a maioria dos ídolos no universo da nutrição não resiste a um escrutínio científico. E, como mostra a reportagem de capa deste mês, a cargo de nossa jornalista e futura nutricionista Ingrid Luisa, a veneração à proteína tampouco fica em pé quando se examinam as evidências e se colocam em perspectiva ao menos dois cenários que as propagandas e os adoradores desse culto acabam encobrindo.
Primeiro: não adianta se empanturrar do nutriente e ignorar o restante da dieta, por vezes restringindo ou até mesmo eliminando outros compostos que participam do equilíbrio fisiológico. Só a proteína não faz verão — nem a sua saúde.
Segundo: para manter o corpo firme e forte no longo prazo, não apenas a sinergia com os outros alimentos, mas também a qualidade das fontes proteicas, precisa ser levada em conta. Quem compra a ideia, ainda encorajada nas redes sociais, de abocanhar tiras e tiras de bacon todos os dias — afinal, tem proteína ali — terá provavelmente uma repercussão nada lisonjeira em seus exames e em suas artérias.
E, se você pensa que a solução está em simplesmente garantir seus shots proteicos com alguma novidade nas gôndolas, bem… Convido fortemente a ler nosso dossiê.
Veja, não queremos bater na pobre da proteína naquele estilo assassinato de reputações. Longe disso! Proteína é tudo de bom. A gente é feito dela e só se mantém em pé graças a ela.
O erro é erigir um pedestal e achar que alguns gramas a mais em seu dia a dia, apartados de outros bons hábitos (inclusive à mesa), vão esculpir e blindar seu corpo para sempre. Quando o milagre é demais, a ciência desconfia.





