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Tireoide em equilíbrio

Muitos brasileiros têm problemas na glândula e nem sabem. Outros não fazem o tratamento direito. Por que precisamos ficar de olho em seu funcionamento

Por Maurício Brum e Juliana Coin Atualizado em 30 dez 2020, 10h45 - Publicado em 30 dez 2020, 10h42

Ela está no centro de tudo. Ajuda a regular o peso, o humor, o trânsito intestinal e até os batimentos do coração. Localizada no pescoço, a tireoide produz hormônios que administram diversas engrenagens do organismo. Se trabalha lenta ou acelerada demais, podemos padecer literalmente das unhas dos pés aos fios da cabeça.

A diversidade e a inespecificidade dos sintomas não raro dificultam o diagnóstico, e mesmo acertar e seguir o tratamento não é algo tão simples. Até 40% dos brasileiros com hipotireoidismo, o distúrbio na glândula mais prevalente, não estão com um controle adequado, segundo dados apresentados no último Encontro Brasileiro de Tireoide.

Embora seu formato lembre uma borboleta, a estrutura deve seu nome à palavra grega thyreos, que quer dizer “escudo”. As metáforas e comparações não param aí. “No corpo, cada órgão funciona como um músico, mas em uma orquestra eles precisam tocar em conjunto. Quem faz os arranjos e dita o ritmo é o maestro. E é isso o que a tireoide faz”, resume o endocrinologista José Augusto Sgarbi, presidente do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

A regência é realizada por meio dos seus hormônios, que regulam a forma como o organismo usa e armazena energia: a tri-iodotironina (T3) e a tiroxina (T4). Mas a tireoide também recebe comandos de outra glândula, a hipófise, que fica no cérebro e libera o hormônio estimulador da tireoide (TSH).

É com essa ordem que começa a sintetizar o T3 e o T4 dentro do pescoço. Uma vez na circulação, “os hormônios da tireoide entram nas células e fazem com que elas funcionem bem”, explica o endocrinologista Alexei Volaco, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Essas siglas não merecem ser conhecidas à toa. Em geral, se os níveis de TSH não batem com o que é esperado para os hormônios tireoidianos, se suspeita de algo errado — são exames de sangue que apuram isso. TSH alto com T3 e T4 baixos é sinal de hipotireoidismo, desequilíbrio que, pelas estimativas, afeta um em cada dez brasileiros. No hipertireoidismo, presente em 2% da população, acontece o contrário: há tanto T3 e T4 no sangue que o TSH, que instiga a tireoide a trabalhar, é menos necessário e acaba diminuindo.

As projeções sobre o número de pessoas acometidas por esses problemas não são superprecisas, pois os critérios utilizados nos estudos e as características do grupo examinado podem variar — pessoas com uma dieta deficiente em iodo, por exemplo, correm maior risco, tanto é que o mineral é adicionado ao sal de cozinha.

De todo modo, nas duas situações, o maestro não está na melhor forma e a orquestra pode tocar fora de ritmo. No dia a dia, devido aos sintomas pouco específicos, o hipotireoidismo em particular acaba sendo confundido com outras doenças e menos detectado.

Um exame de sangue tira a dúvida, mas, antes dos 40 anos, idade a partir da qual a encrenca se torna mais comum, é difícil fazer um check-up da tireoide. A solução passa por uma boa investigação médica, em que o paciente deve informar, entre outras coisas, se tem histórico familiar de disfunções e procedimentos na glândula.

O que destrambelha a tireoide

As principais situações que afetam a glândula (e o resto do corpo):

Hipotireoidismo

A glândula produz menos hormônio do que deveria. Como a tireoide regula o metabolismo, quando isso ocorre o organismo tende a ficar mais devagar. O tratamento é a reposição hormonal pelo resto da vida.

Hipertireoidismo

É o oposto: a tireoide libera hormônios demais, acelerando o metabolismo. A detecção é um pouco mais fácil, uma vez que os sintomas são mais específicos (caso da perda de peso). Remédios e outras terapias equilibram as coisas por aqui.

Nódulos

Costumam aparecer com o envelhecimento e, em geral, são benignos e pequenos, sem gerar risco nem exigir remoção. Pode ser necessário fazer acompanhamento caso aumentem de tamanho ou passem por transformações.

Câncer

Quando o nódulo é maligno, o caminho normalmente é extrair a tireoide. A maioria dos tumores ali é pouco agressiva e tem alta taxa de cura. Após a retirada da glândula, é preciso fazer reposição hormonal pela vida inteira também.

À caça do hipotireoidismo

Um dos sinais mais visíveis do hipotireoidismo é o ganho de peso, resultado de um metabolismo mais lento e da retenção de líquidos. Esse aumento, porém, não costuma ser tão acentuado. “É preciso deixar claro que o hipotireoidismo não é causa de obesidade”, ressalta Sgarbi. “Mas ele pode, sim, piorar a situação e dificultar a perda de peso”, complementa.

Quando há um décifit na produção de T3 e T4, ainda que o indivíduo coma menos, o corpo gasta menos energia. E os efeitos desse ritmo mais devagar são sentidos por vezes nos outros instrumentos da orquestra. A alteração nos hormônios é capaz de causar constipação, baixar a pressão e reduzir os batimentos cardíacos e a função renal. “Pacientes com a doença não controlada também relatam cansaço, desânimo, indisposição e sonolência excessiva”, conta o médico da Sbem.

Uma das principais causas do hipotireoidismo é a chamada tireoidite de Hashimoto, distúrbio autoimune que induz a produção de anticorpos contra as células da glândula. No geral, a carência dos hormônios é até dez vezes mais frequente nas mulheres.

A ciência ainda não conseguiu determinar 100% o motivo, mas se acredita que outras mudanças hormonais relacionadas ao ciclo reprodutivo estejam envolvidas. Os desarranjos podem aparecer com a gestação ou principalmente com a menopausa — e, aí, sintomas parecidos podem embolar as coisas e retardar o diagnóstico. Por falar nelas, cabe acrescentar que problemas tireoidianos também atrapalham a fertilidade.

  • Embora as pessoas tenham pavor de radiação por relacioná-la a danos na tireoide, o fato é que ela não é um dos elementos mais decisivos na maioria das situações. “Quando falamos de radiação como fator de risco, isso se refere geralmente a casos em que houve uma grande exposição, sobretudo na infância”, elucida a radiologista Ana Christina Melichar, coordenadora de ultrassonografia do Laboratório Richet, no Rio de Janeiro.

    Pelas pesquisas, fatores como idade, gênero e genética têm uma influência bem maior. O DNA, aliás, mexe tanto com o risco de desenvolver uma disfunção ou tumor ao longo da vida quanto com o aparecimento de uma doença específica de bebês, o hipotireoidismo congênito, detectado já no nascimento. Ele afeta uma em cada 3 mil crianças e é uma das condições identificadas (e tratadas) graças ao teste do pezinho, feito na maternidade.

    Em busca do ritmo perdido

    Uma vez diagnosticado, o hipotireoidismo tem tratamento relativamente simples e inclusive disponível na rede básica de saúde: basta repor os hormônios, em especial o T4, também conhecido pelo nome genérico de levotiroxina. Por que ele é o preferido? “O T4 é mais seguro e mais estável, e vai sendo convertido em T3 pelo corpo conforme a necessidade”, esclarece Sgarbi.

    É uma forma de resguardar o organismo, fazendo com que a versão ativa em si (o T3) só entre na equação quando for realmente preciso. Mas o “relativamente simples” pode ser mais complicado na prática.

    O índice de adesão ao tratamento e controle do quadro, como mostram novos levantamentos, está longe do ideal. Para começo de conversa, a recomendação é fazer o acompanhamento com um endocrinologista. Já o acesso à levotiroxina em si é fácil e o desafio não é tanto iniciar o tratamento, mas garantir sua manutenção anos a fio.

  • Além de ser algo para a vida toda, a dosagem varia não só de pessoa para pessoa mas ao longo do tempo. O monitoramento com exames deve ocorrer periodicamente e os níveis hormonais precisam ser ajustados no mínimo a cada seis meses com o médico. Tais cuidados evitam que o concerto todo desafine e afastam incômodos típicos do hipotireoidismo, como a fadiga e a retenção de líquido.

    Convém aproveitar o momento para soar um alerta dos próprios profissionais de saúde: tem gente que, mesmo sem problemas na tireoide, vai atrás de comprimidos de T3 para emagrecer ou até ficar “mais ligado”. O fenômeno é corriqueiro nas redes sociais e em outros sites. Além dos riscos para o corpo de um uso fora de contexto, a procedência do produto é questionável: esses remédios costumam ser manipulados e nem sempre passam por controle de qualidade.

    “Quem toma até pode se sentir mais ativo e ter a impressão de um bem-estar momentâneo, mas, no futuro, isso vai cobrar uma fatura”, avisa o endocrinologista da Sbem. A conta inclui problemas cardíacos graves, que podem levar à morte.

    Para tratar direito

    Como não tropeçar no tratamento do hipotireoidismo:

    Uso em jejum

    A reposição do hormônio deve ser feita de estômago vazio para que o remédio seja mais bem aproveitado pelo organismo.

    Melhor horário

    Médicos recomendam tomar pela manhã logo ao acordar, no mínimo 30 minutos antes de se alimentar.

    Ingestão isolada

    Se tomados em conjunto, alguns fármacos, como amiodarona e lítio, podem interferir no funcionamento da glândula.

    Prefira o pronto

    Especialistas não orientam o uso de hormônios manipulados. Equívocos na dosagem comprometem o tratamento.

    Exames de rotina

    A avaliação médica e os exames de sangue de tempos em tempos conferem se a terapia está surtindo efeito.

    No rastro do hipertireoidismo

    Embora seja menos frequente que o distúrbio por trás da queda nos hormônios, o hipertireoidismo também demanda atenção e cuidado. Como o nome sugere, suas características são opostas às do hipotireoidismo: a glândula fica ativa demais e, como consequência da explosão hormonal, o metabolismo pisa no acelerador.

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    “Quando isso acontece, a pessoa fica ligada no 220. Pode ter palpitações, irritabilidade, insônia, tremor e sentir muito calor”, descreve Volaco. Com o motor a todo vapor e a temperatura interna lá no alto, vem a transpiração excessiva. Tudo isso ainda leva a um dos sintomas mais evidentes do hipertireoidismo, a perda de peso.

    Para quem convive com a condição, o apetite até aumenta, e com frequência se come mais do que antes, mas a alimentação não parece suficiente para compensar a velocidade com que o metabolismo começou a operar. Até o peito sente. “O gasto energético é maior. O coração começa a trabalhar muito e vai sofrendo um desgaste que, com os anos, pode resultar em uma insuficiência cardíaca”, diz Sgarbi, que também é professor da Faculdade de Medicina de Marília, no interior paulista.

    Aliás, em meio às tantas consequências do hipo e do hipertireoidismo, os problemas relacionados ao coração são um dos grandes pontos em comum: por razões distintas, tanto um quanto o outro podem levar a um descompasso no músculo cardíaco. Com a enxurrada de hormônios, porém, os perigos tendem a ser mais imediatos e graves, com o surgimento de arritmias potencialmente fatais.

    Menos mal que, no comparativo com o seu contrário, o hipertireoidismo costuma ser mais fácil de diagnosticar. “Os sintomas geralmente são aparentes. Não é como no hipotireoidismo, que acaba sendo uma doença mais mascarada”, afirma o endocrinologista.

    Além disso, em torno de sete a cada dez casos são decorrentes da doença de Graves, uma enfermidade autoimune que faz a tireoide trabalhar mais e normalmente aparece em outros membros da mesma família — ou seja, se algum parente foi diagnosticado, vale ficar de olho.

    O tratamento varia de acordo com a causa e a gravidade do quadro, mas existem três caminhos principais: medicamentos para frear a tireoide acelerada, iodoterapia (uso de iodo radioativo, que é absorvido pela tireoide e a destrói) ou remoção da glândula por meio de cirurgia.

    Como a ideia é inibir o funcionamento exagerado da tireoide, com frequência o resultado será o oposto do problema inicial: o hipotireoidismo. “Mas é muito melhor ter hipotireoidismo do que continuar com hipertireoidismo não tratado”, argumenta Sgarbi, lembrando que tanto o tratamento quanto as consequências, nesse cenário, são mais simples de lidar.

    Nos quatro cantos do corpo

    Se a tireoide produz hormônios de mais ou de menos, vários órgãos sentem o baque:

    Pele e cabelo

    Enquanto o hipotireoidismo causa queda de cabelo, pele ressecada e unhas quebradiças, o hiper causa o efeito oposto, aumentando a transpiração e deixando a pele mais oleosa.

    Coração

    Os opostos também acontecem aqui: o hipo baixa a frequência cardíaca, reduz a resistência ao esforço e eleva o risco de infarto. No hiper, os batimentos aceleram e pode haver arritmia e palpitação.

    Intestino

    Um dos indícios da queda nos hormônios em decorrência do hipotireoidismo é a constipação. O intestino costuma ficar mais preso, diminuindo a frequência de evacuação.

    Gordura 

    Por causa da desaceleração do metabolismo e da retenção líquida, o hipotireoidismo leva a ganho de peso. No hiper, é usual perder peso mesmo comendo bastante, já que o organismo fica acelerado.

    Olhos

    O hipertireoidismo é mais associado a encrencas ali, como na doença de Graves: os globos oculares se dilatam e se deslocam para a frente, causando dores, vista dupla e redução na visão.

    Cérebro

    Nem os neurônios escapam da influência da tireoide. No hipo, a concentração pode ficar comprometida. Enquanto
    isso, no hiper, a pessoa tende a ficar mais agitada, irritada e com insônia.

    Tem algo estranho aqui

    Outra preocupação envolvendo essa estrutura alojada no pescoço são os nódulos, massas que aparecem na região e, em alguns casos, podem ser apalpadas. O médico vai examinar a área e, se necessário, pedir um ultrassom. A maioria não representa nenhum susto. “Só 5 a 10% dos nódulos são malignos. E mesmo o câncer de tireoide tem uma taxa de cura muito alta”, tranquiliza Ana Christina.

  • Para saber se essa formação significa algo mais sério, os médicos pedem uma biópsia: é realizada uma punção com agulha fina na tireoide para analisar o material extraído de lá.

    Se o nódulo for benigno, muitas vezes nenhuma intervenção será necessária. É só acompanhar. Mas, mesmo sem risco de virar um câncer, a massa pode ser volumosa e causar desconforto para engolir ou respirar. E aí vale a pena removê-la ou restringi-la.

    Uma técnica pouco invasiva disponível hoje é a ablação térmica percutânea, em que uma agulha é introduzida com anestesia local e queima os nódulos. O procedimento nem sequer deixa cicatriz e é alternativa para alguns casos de câncer, quando um paciente de alto risco não pode fazer a operação de remoção da tireoide, a mais recomendada.

    Por terem uma evolução lenta e serem detectáveis precocemente, os tipos mais comuns de câncer de tireoide apresentam taxas de sobrevivência superiores a 95%. “O diagnóstico tem aumentado nas últimas décadas, mas isso não significa que a mortalidade está mais alta”, diz a radiologista.

    “Ao ouvir falar em câncer, pensamos que se trata de uma doença agressiva, só que, neste caso, não é assim”, afirma Ana Christina. A glândula costuma ser retirada e a reposição hormonal é convocada para a rotina. Mais um exemplo de que, com ou sem tireoide, o acompanhamento médico coloca o corpo em equilíbrio de novo.

    Quem deve ficar mais atento

    Embora problemas na tireoide não dependam de sexo nem idade, alguns grupos são mais suscetíveis:

    Mulheres

    São dez vezes mais reféns de disfunções na glândula — o que pode prejudicar o sonho de ser mãe. As alterações costumam pintar na gestação e aumentam em incidência com a menopausa.

    Idosos

    Pessoas a partir de 65 anos devem ficar atentas, mas nem todos os casos de hipotireoidismo necessitam de tratamento, uma vez que o organismo tende a ficar mais lento com o envelhecimento.

    Bebês

    O teste do pezinho, feito em recém-nascidos, detecta o hipotireoidismo congênito. Se confirmada, a disfunção deve ser tratada o mais rápido possível para evitar sequelas e impactos no desenvolvimento.

    Casos na família

    Quem tem histórico familiar de problemas na tireoide e outras doenças autoimunes (psoríase, artrite reumatoide, diabetes tipo 1 etc.) precisa acompanhar mais de perto a situação da glândula.

    Expostos à radiação

    Ela eleva o risco de câncer e distúrbios na tireoide caso o indivíduo sofra muita exposição durante a infância. Os raios ionizantes utilizados em diagnósticos de imagem não são nocivos.

    Profissões de risco

    A preocupação rondaria pessoas que trabalham expostas cronicamente à radiação. Mas, com os devidos cuidados, médicos apontam que isso representa menos perigo que outros fatores.

    Alerta: se não tem problema, para que tomar?

    O uso indevido de hormônios da tireoide, visando à perda de peso ou a um suposto ganho de energia, pode desregular o funcionamento do corpo todo. Uma das maiores preocupações dos especialistas é a utilização de cápsulas de T3 para se livrar dos quilos extras.

    O excesso do hormônio acelera o metabolismo a ponto de beirar os efeitos de um hipertireoidismo. Como todo medicamento usado sem orientação, há sérios riscos envolvidos: picos de pressão alta, arritmia cardíaca e até morte.

    “Nossa mensagem é: não utilize hormônio tireoidiano para tentar emagrecer ou melhorar o bem-estar e o cansaço sem passar por um médico antes”, reforça o endocrinologista José Augusto Sgarbi.

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