Morte do lutador Allan “Puro Osso”: é possível ter um infarto dormindo?
Segundo o UFC, o atleta, de 34 anos, pode ter sofrido um ataque cardíaco durante o sono; entenda causas, riscos e sinais de alerta
O lutador brasileiro do Ultimate Fighting Championship (UFC) Allan Nascimento, conhecido como Puro Osso, faleceu nesta segunda-feira, 3, aos 34 anos.
A notícia foi divulgada pelo perfil oficial do campeonato no Instagram. Segundo a página, o atleta foi encontrado irresponsivo após sofrer um “aparente ataque cardíaco enquanto dormia“.
“Apesar dos esforços da equipe médica que prestou o atendimento, ele foi declarado morto no local. Nossos pensamentos e mais profundas condolências estão com a família de Allan, amigos, companheiros de equipe e entes queridos durante este momento incrivelmente difícil”, lamentou o UFC, em nota.
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É possível ter um infarto dormindo?
O médico Thiago Marinho, cardiologista e membro da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, explica que sim.
“E não é um evento raro“, diz o especialista. Para ter ideia, estudos apontam que até 20% dos infartos podem ocorrer durante o sono.
Segundo o médico, essas ocorrências podem ser explicadas por alterações hormonais e do sistema nervoso autônomo (aquele que controla as funções involuntárias do corpo) que ocorrem enquanto dormimos.
Tais mudanças podem causar variações na pressão arterial, na frequência cardíaca e na coagulação sanguínea. O cenário favorece a ruptura de placas de aterosclerose, o acúmulo de gordura, colesterol e células inflamatórias na parede das artérias, cujo rompimento é a principal causa de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
“Além disso, distúrbios como a apneia do sono aumentam o risco de eventos cardiovasculares durante a noite”, destaca o médico.
A apneia é uma doença grave que tem como principais sintomas são o ronco e a pausa na respiração diversas vezes ao longo da noite.
“Com esse quadro, o corpo recebe menos oxigênio, ocorre uma ativação intensa da adrenalina, a pressão arterial aumenta e o coração passa por um esforço maior”, explica o cardiologista Luciano Drager, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP).
Esse conjunto de fatores pode favorecer a baixa oxigenação do músculo cardíaco e desencadear um infarto. Pacientes com a condição que apresentam quedas acentuadas dos níveis de oxigênio durante a noite têm um risco cerca de duas vezes maior de morte súbita.
Inclusive, uma revisão publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) concluiu que, entre mais de 5 mil pacientes diagnosticados com a condição, 12,7% sofreram infarto.
Há horários em que o coração fica mais vulnerável?
Sim. Embora um infarto possa acontecer em qualquer horário, o nosso organismo é influenciando por um relógio biológico, chamado de ritmo circadiano, que influencia o funcionamento do coração ao longo das 24 horas do dia.
Assim, Drager explica que, na população em geral, os infartos são mais frequentes entre seis horas da manhã e meio-dia.
“Porque esse é o período em que ocorre um aumento natural de hormônios do estresse e uma maior tendência de formação de coágulos”, diz.
Já para quem tem apneia, análises sugerem que aproximadamente 27% dos infartos acontecem na madrugada, entre meia-noite e seis da manhã.
O que explica esse quadro em um atleta?
Até o momento, a causa da morte de Allan não foi completamente confirmada. Marinho ressalta, portanto, que é importante evitar conclusões antes da investigação médica.
Ainda assim, o médico explica que, em pessoas jovens, especialmente entre aquelas com uma rotina aparentemente saudável, a morte súbita costuma estar relacionada algumas condições pré-existentes.
As mais comuns são doenças cardíacas hereditárias, anomalias nos vasos que irrigam o coração, inflamação do músculo cardíaco e cardiomiopatias (doenças que alteram a estrutura ou o funcionamento do músculo do coração).
Com menos frequência, também pode ocorrer doença arterial coronariana precoce, caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias que levam sangue ao coração.
O uso de substâncias que podem causar danos ao coração, como drogas ilícitas e esteroides anabolizantes, também está entre as possíveis causas desse tipo de ocorrência. Mas confirmação do que levou à morte depende da necropsia e de uma avaliação clínica detalhada.
Sinais de alerta
Os sintomas mais conhecidos do infarto são dor ou pressão no peito, que pode se espalhar para a mandíbula, braço, ombro ou costas.
Também podem surgir falta de ar, suor intenso, náuseas e tontura.
“Mas é importante lembrar que o infarto nem sempre se manifesta da forma clássica”, alerta Drager.
Algumas pessoas podem sentir apenas palpitações, cansaço intenso ou falta de ar.
Em alguns casos, principalmente entre mulheres e pessoas com diabetes, o infarto pode até ocorrer sem sintomas evidentes.





