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A jornada do paciente com câncer de pulmão

O tumor que mais mata no Brasil apresenta vários desafios, desde o diagnóstico até o tratamento. Saiba mais sobre essas etapas

Por Maria Tereza Santos Atualizado em 15 mar 2021, 12h58 - Publicado em 3 dez 2020, 18h18

O câncer de pulmão é o tumor mais incidente e que provoca mais mortes no mundo. No Brasil, ele só perde para o de pele não-melanoma em número de casos, mas também é o mais mortal, segundo informações do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

O que agrava a situação é que ele normalmente só é diagnosticado quando já está em fase avançada. De acordo com o Radar do Câncer, levantamento encomendado pelo Instituto Oncoguia, 86,2% dos pacientes tiveram o tumor detectado nos estágios III e IV em 2016.

As dificuldades para realizar o diagnóstico precoce e o início imediato do tratamento foram temas discutido por vários especialistas no 3º Fórum de Câncer de Pulmão, evento online organizado pelo Oncoguia.

A seguir, saiba mais sobre cada etapa, desde o aparecimento dos sintomas até o início do tratamento.

Quais os sintomas do câncer de pulmão

Os sinais clássicos desse tumor podem se manifestar juntos ou isoladamente. São eles:

● Rouquidão sem melhora
● Tosse persistente seca ou acompanhada de escarro ou de hemoptise (escarro com sangue)
● Falta de ar
● Dor torácica ou nas costelas
● Pneumonias de repetição
Fadiga crônica
● Falta de apetite e emagrecimento

A dificuldade: quando os sintomas aparecem, a doença já se encontra avançada. “Por isso dizemos que ela é silenciosa em seu início”, informa o oncologista clínico Fernando Moura, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e membro do comitê científico do Oncoguia.

  • Como é feito o diagnóstico

    Independentemente do estágio do câncer, é necessária a ação em conjunto de várias especialidades médicas para detectá-lo. “Em geral, após os médicos suspeitarem da doença, seja por uma evidência clínica durante uma consulta ou por um exame de imagem alterado, é preciso fazer uma biópsia”, informa Moura.

    A biópsia pode ser guiada por uma tomografia, que irá orientar o percurso da agulha até a lesão suspeita, por broncoscopia — uma espécie de “endoscopia” das vias aéreas — ou por cirurgia.

    Em seguida, o material coletado é analisado por um médico patologista. Essa verificação é chamada de exame anatomopatológico e acontece em laboratório. É a única forma de confirmar o diagnóstico.

    “Quando o teste de imagem é muito suspeito para malignidade, às vezes o cirurgião torácico indica a cirurgia imediata, dispensando a realização de uma biópsia”, acrescenta o oncologista.

    As pessoas com a doença em fase metastática (o termo significa que ela se espalhou para outros órgãos) também têm que fazer o exame molecular com o material da biópsia.

    “Ele avalia mutações, rearranjos de genes, entre outros, bem como a expressão de uma proteína denominada PD-L1”, explica o profissional. Dessa forma, é possível definir o tipo do tratamento e o medicamento que será utilizado com mais precisão.

    A dificuldade: o problema começa pela demora em fechar o diagnóstico. Uma pesquisa do Oncoguia, de 2019, mostrou que 39% dos 202 respondentes precisaram consultar dois especialistas e 37%, mais de três.

    “No âmbito do Sistema Único de Saúde, o SUS, há dificuldades de acesso fora dos grandes centros aos profissionais especializados, a exemplo de cirurgiões torácicos, patologistas focados em câncer de pulmão, pneumologistas e radio-oncologistas”, pontua a psico-oncologista Luciana Holtz, presidente do Oncoguia. Além disso, o teste molecular não está disponível na rede pública.

  • A escolha do tratamento

    Moura conta que, para definir a terapia, os tumores de pulmão são classificados em três grupos: inicial, localmente avançado e metastático.

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    Os tumores iniciais em geral são tratados com cirurgia. Dependendo de tamanho, fragilidade e comprometimento dos gânglios linfáticos, também é necessário recorrer à quimio ou à radioterapia pós-operatória.

    Já os localmente avançados podem ser cuidados com duas abordagens. Uma é a quimioterapia pré-operatória seguida de cirurgia. A outra é uma combinação de radio e quimioterapia associada à imunoterapia durante um ano. “A decisão entre uma ou outra estratégia depende de condições do paciente”, relata o especialista.

    Por fim, para os metastáticos, quando há mutação ou rearranjo de genes detectados no exame molecular, recomenda-se terapia-alvo, que mira em moléculas específicas do câncer – em geral são utilizados comprimidos.

    A dificuldade: as limitações atingem os três grupos. No caso dos tumores iniciais, o problema mora na falta de vagas para fazer a cirurgia no SUS. “E há concentração desse serviço nos grandes centros urbanos, limitando o acesso nas áreas remotas do país”, lamenta Moura. Para os localmente avançados, a adversidade é a falta de cobertura da imunoterapia pela rede pública.

    E, em relação aos metastáticos, a situação é ainda pior. Primeiro porque nem todas as mutações têm tratamento. “Além disso, tanto o SUS como a saúde suplementar não cobrem todos os que são conhecidos”, complementa o expert.

    Em algumas mutações, a imunoterapia consegue substituir a terapia-alvo — de forma isolada ou associada à quimio. Porém, voltamos ao problema inicial da indisponibilidade na rede pública.

    “Com isso, há uma desproporção inaceitável entre o que é coberto pelos planos de saúde e pela rede pública. E essas limitações impactam no tempo de sobrevivência”, comenta Luciana.

    As pessoas atendidas na rede pública sofrem ainda com o eventual descumprimento da Lei dos 60 dias — ela define um prazo de até 60 dias, contados a partir do diagnóstico, para que o tratamento seja iniciado. Em 2019, 27% dos pacientes iniciaram a terapia após esse período.

    O que é necessário para diminuir a mortalidade

    Uma das medidas defendidas pelos especialistas no Fórum é a criação de um programa nacional de rastreamento, como existe hoje para os cânceres de próstata e mama.

    A ideia é que se recomende a realização de tomografias de tórax de baixa intensidade de dose para a população considerada de alto risco (fumantes e ex-fumantes com idade entre 55 e 75 anos).

    “Essa estratégia, que requer alta eficiência administrativa e adesão dos indivíduos, reduz a mortalidade por câncer de pulmão, de acordo com vários estudos”, aponta a psico-oncologista.

    Um deles saiu no The New England Journal of Medicine. A pesquisa foi feita com 13 195 homens e 2 594 mulheres de 50 a 74 anos. Eles se dividiram em dois grupos: um passou avaliações durante uma década, sendo que se submeteu a tomografias no primeiro, terceiro e quinto ano. O outro não foi examinado.

    No fim da análise, os cientistas constataram que, entre os homens, o grupo rastreado teve uma taxa de mortalidade por tumor de pulmão 24% menor. Nas mulheres, houve redução, mas não tão significativa.

    Outros pontos também são importantes para diminuir os óbitos, como melhorar o protocolo de registro de casos. No Fórum, Moura explicou que a notificação obrigatória só começou em junho de 2018 no Brasil.

    “Em um cenário onde temos um diagnóstico já tardio, muitos casos nem são notificados. Isso nos impede de entender a realidade, isto é, qual a fotografia do momento no nosso país”, explica Moura. “A partir de dados mais precisos, teremos capacidade de planejar melhor os programas de rastreamento, prevenção e tratamento”, completa.

    Por último, mas não menos importante, deve-se continuar prevenindo e combatendo o tabagismo — principal causa do câncer de pulmão. Apesar de as taxas terem diminuído nos últimos anos, a popularidade de cigarros eletrônicos e vapers preocupa os profissionais da saúde.

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