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Sextou com a doutora

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De médica para paciente (e vice-versa). Neste espaço, a mastologista e cirurgiã oncológica Fabiana Makdissi, uma das maiores autoridades em câncer de mama no país, compartilha seus conhecimentos, vivências e reflexões sobre a saúde da mulher.

O valioso papel do exercício contra o câncer de mama

Estudos mostram que ele ajuda a prevenir o câncer de mama, reduz o risco de recidiva e é importante durante e após o tratamento

Por Fabiana Makdissi 16 out 2026, 08h00
Quatro silhuetas de pessoas correndo em um fundo verde-oliva. Duas figuras escuras e duas claras se alternam, com flores brancas e vermelhas no peito e espalhadas pelo chão. As figuras estão em movimento, com os braços flexionados e as pernas estendidas, sugerindo uma corrida dinâmica
Exercícios são aliados da prevenção e do tratamento do câncer de mama. (Ilustração: Ana Cossermelli/Veja Saúde)
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O valioso papel do exercício contra o câncer de mama Priorizar nos meus resultados Google

Já tem um tempo que assisti na TV a um programa que fazia entrevistas com pessoas que caminhavam, em uma manhã qualquer, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Naquele momento, havia acabado de ser publicado um estudo relacionando a atividade física à redução na incidência de câncer de mama. De olho nisso, a jornalista perguntava a cada um dos passantes o que os motivava a se exercitar.

Emagrecer, desestressar, cuidar da saúde eram as principais respostas. A repórter insistia, talvez tentando encontrar alguém que dissesse: “Faço para evitar um câncer”.

Isso não aconteceu, como comprovei — e até achei óbvio — ao acompanhar as entrevistas. De fato, pouco se falava sobre atividade física e câncer há alguns anos. O assunto mal chegava ao consultório médico. Fico pensando em quanto evoluímos nesse sentido desde então.

Como a atividade física ajuda a prevenir o câncer

Hoje, a ciência assina embaixo da prescrição de exercícios na prevenção e até no tratamento do câncer.

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Um estudo relaciona a prática à redução no risco de ao menos 13 tipos de tumores: esôfago, fígado, pulmão, rim, estômago, endométrio, intestino, reto, bexiga, cabeça e pescoço, leucemia mieloide, mieloma… e, claro, o câncer de mama.

A primeira vez que essa associação protetora foi levantada veio à tona com um trabalho publicado em 1985 que avaliou a ocorrência da doença ao longo da vida entre 5 398 ex-alunas universitárias, das quais 2 622 haviam sido atletas amadoras e 2 776 não haviam praticado esportes na universidade.

A análise descobriu que o grupo das não atletas teve, em média, duas vezes e meia mais tumores ginecológicos e duas vezes mais câncer de mama que aquelas mulheres com uma rotina de exercícios.

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Os efeitos positivos, vale dizer, provavelmente não se devem apenas ao período em que praticaram esportes na faculdade: 82% das atletas universitárias já haviam praticado alguma modalidade antes do ensino superior, comparadas a somente 25% das não atletas.

A hipótese que o estudo lançou é que haveria um “efeito atlético”, que reflete os benefícios da exposição de longo prazo ao exercício, frequentemente iniciado na adolescência.

+Leia Também: Músculo é vida: agora ele é considerado um órgão decisivo para a longevidade

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Exercícios físicos podem reduzir o risco de câncer de mama e melhorar o tratamento

A partir desses achados, outras pesquisas começaram a ampliar o olhar sobre a conexão entre atividade física e câncer de mama.

Doze anos depois, um trabalho científico mostrou uma redução de risco de 37% entre mulheres que se exercitavam regularmente. Não dava para deixar de prestar atenção ao tema.

O que eu considero incrível é que, atualmente, munidos de inúmeros novos dados — ainda que boa parte dos estudos seja observacional —, temos um quadro muito claro: os exercícios diminuem as chances de ter câncer de mama, reduzem o risco de a doença voltar depois de tratada, limitam a mortalidade pelo problema, minimizam os efeitos colaterais dos medicamentos usados no tratamento e, por fim, ajudam muito na recuperação e na reabilitação das pacientes.

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Posso falar a respeito inclusive em primeira pessoa. Como médica que também encarou um câncer de mama, eu digo que os exercícios foram responsáveis por me salvar das piores dores físicas que tive na vida.

Sim, já vivi os dois lados na mesa do consultório. E, após as cirurgias a que tive de me submeter, devo contar que os dias no centro cirúrgico se tornaram muito difíceis para mim.

Longas horas de pé, com bisturi na mão, a responsabilidade de cuidar de alguém, a força física para executar movimentos com precisão… Fazer cirurgia, parte da minha carreira, se tornou extremamente desafiador.

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+Leia também: Médica ou paciente? Minha vivência nos dois lados do consultório 

Musculação após o câncer de mama: a importância do fortalecimento muscular

No final desses dias, a minha fisioterapeuta, Cristiane Ribeiro, tinha uma única missão: massagear os músculos cansados e doloridos para que eu pudesse começar uma nova semana com menos desconfortos.

No entanto, parecia um ciclo sem fim, como naquele filme Feitiço do Tempo, em que tudo se repete. E aí que redescobri o poder dos exercícios.

Sempre fiz bastante atividade física, só que fui perceber que quase nunca trabalhava os membros superiores.

Mais jovem, toquei piano e fazia balé. E, terminada a faculdade, logo me tornei cirurgiã. Nada do que eu vinha fazendo, assim pensava, combinava com braços fortes.

Imaginava: uma cirurgiã tem de ser delicada. Assim, minha musculatura superior era como se fosse de papel.

Algo que acabou agravado com a instalação das próteses de silicone depois da retirada das mamas — nesse caso, a musculatura local perde seu vigor. No entanto, eu não percebia nada disso. Era realmente uma catástrofe anunciada.

Foi aí que a minha físio, a Cris, decidiu: “Chega! Não vou mais tratar músculos frágeis e cansados. Vamos fortalecê-los”. Acatei o plano e assim o treino de força e resistência para membros superiores entrou em minha vida.

Exercícios que, lá no passado, chegaram a ser contraindicados após a mastectomia, foram a salvação desta médica que hoje opera completamente livre de dores.

Aliás, estudos inclusive recomendam que exercícios progressivos e supervisionados de amplitude de movimento e fortalecimento muscular sejam precocemente introduzidos após a mastectomia. Olha que mudança completa de cultura! Cultura baseada em evidências.

+Leia Também: Treino com barra: 4 exercícios para membros superiores e inferiores

Benefícios da atividade física para mulheres com câncer de mama

Pelo que a gente sabe hoje, há razões de sobra, devidamente comprovadas, para uma mulher praticar atividade física — não só para prevenir o câncer de mama como melhorar o tratamento da doença.

Afinal, o exercício reduz a probabilidade de um tumor aparecer; está ligado a mais anos de vida após o diagnóstico; mitiga as reações adversas do próprio tratamento; diminui a fadiga, combate a depressão e levanta a autoestima; e eleva a capacidade cardiorrespiratória para encarar os desafios do tratamento e além dele.

Não é preciso ser atleta para começar ou tirar proveito desses benefícios. Nem se deve esperar a motivação chegar.

Prepare-se — conversando com o médico, se necessário — e comece! Quanto mais você se exercitar, mesmo sem vontade, mais energia terá. Comigo foi assim. E hoje não quero parar mais.

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