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Em primeira pessoa

Numa parceria com o CDD (Crônicos do Dia a Dia), esse espaço dá voz a pessoas que vivem ou viveram, na própria pele, desafios e vitórias diante de uma doença crônica, das mais prevalentes às mais raras
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Você não precisa passar por isso sozinho

Leia um trecho do livro O Trem tá Feio, que aborda a saúde mental de um influenciador digital

Por Gustavo Tubarão, influenciador digital*
1 abr 2024, 12h49

O Trem tá Feio (Editora Citadel – clique para comprar) é um livro que escrevi a partir de minhas experiências e de minha relação com a saúde mental. Eu já fiquei trancado em um quarto por quatro anos, pelo medo de ir na padaria e ser esfaqueado. 

Já usei drogas e tive depressão. Já sofri com crises de síndrome do pânico e lidei com o transtorno de borderline. E sou um influenciador digital sem medo de me abrir sobre essas questões. Como prova disso, deixo abaixo para você um trecho do sétimo capítulo do livro. Tomara que goste!

Trecho do livro O Trem tá Feio

Não sabia que era compulsivo até o psiquiatra me mostrar. O primeiro indício eram as tatuagens – já cheguei a contar aqui que sou viciado nelas. Disse a ele que algumas tinham significado, outras, não. Daí quando contei que não fazia apenas uma, mas gostava de fazer umas cinco de uma vez, o diagnóstico era mesmo de compulsão, que se reflete também, por exemplo, nas coisas que eu compro.

Se você chegar na minha casa em BH, vai ficar besta com as coisas que eu simplesmente entrei na internet e comprei. Não que eu ame exatamente o produto em si, mas o prazer mesmo está na sensação de abrir a caixa. Nossa, como eu amo isso! A sensação de prazer é tanta que comecei a me presentear. Tempos atrás, por exemplo, comprei uma BMW. Fiquei com ela dois dias e já enjoei, já não queria mais. Puro impulso. Daí bate a bad.

Apesar das minhas compulsões, nem tudo está perdido, pois, como o psiquiatra me explicou, pelo menos eu usava minha doença para uma coisa produtiva, que é a internet. Ele tratava várias pessoas com borderline, e chegou à conclusão de que não existe remédio para isso, porque são simplesmente estados emocionais. Tem dias que eu fico ansioso, tem dias que fico depressivo. Então, hoje ele me passa um ansiolítico e um antidepressivo. E deixou claro que tudo isso me ajudaria somente uns 20%.

+Leia também: Transtorno borderline: a cabeça entre o céu e o inferno

Transtornos psiquiátricos na maioria das vezes causam um combate da pessoa contra ela mesma. Por isso a recomendação é sempre fazer o acompanhamento psicológico (e se você reparar bem, estou falando sobre isso neste livro inteirinho, então, já é mais que uma recomendação, é um apelo mesmo!). No início, eu ia às sessões de terapia todos os dias, então fui reduzindo aos poucos: quatro vezes na semana, três vezes, duas, uma vez a cada quinze dias… Evoluí bastante conhecendo a minha cabeça. Hoje eu só converso com a psicóloga quando sinto que preciso – por exemplo, agora, enquanto escrevo o meu primeiro livro, e me senti num estado em que não aguentava mais de ansiedade.

Recorrer à terapia não é motivo de se sentir incapaz ou inferior a ninguém. Ela simplesmente é um suporte, assim como um dentista está para os nossos dentes, que volta e meia precisam de uma limpeza, porque senão serão comidos pelo tártaro. Então assim vou seguindo, recorrendo muito mais à psicóloga do que ao dentista. E se meus impasses comigo mesmo duram mais de dois dias, já sei que fodeu, então lá vou eu para a terapia, e está tudo certo. Sabe que, de tanto que já a vi falando, até sei como ela vai trabalhar comigo, e já a imagino falando comigo, simulando o que ela diria.

Imagina só se não entrei em desespero quando o psiquiatra me deu o laudo concluindo que eu tinha transtorno borderline? Assim, só para constar, qualquer nova informação na mente de um ansioso pode representar um perigo letal, daí você calcula quando é algo ruim, ou pelo menos aparentemente negativo. Apesar do choque, o desespero só não foi maior porque eu sabia que poderia contar com a Maria, que foi a primeira pessoa que procurei para conversar e me acalmar.

De novo vou repetir isto, e você pode me achar chato pra caralho, mas fod@-se, vou repetir do mesmo jeito: aceitar ajuda médica e psicológica para o tratamento da depressão, ansiedade ou qualquer outro transtorno mental é obrigatório. E não dê ouvidos para aquela pessoa que vai chamar isso de luxo, porque na verdade é um tratamento que salva vidas.

Foi conversando com a minha psicóloga que descobri que já tinha isso do borderline desde criança; a única diferença era que agora eu sabia o nome. Tendo conhecimento, a gente se torna consciente de que o que sentimos são apenas estados emocionais, e eles passam. Por isso, nada de entrar em desespero!

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Não passar sozinho no processo de tratar uma depressão significa aprender com um guia como lidar com a gente mesmo quando estamos deprimidos. À medida que vamos evoluindo na terapia, vamos aprendendo a refrear nossos impulsos, e até mesmo a dar nome a sentimentos terríveis que antes não tínhamos ideia de como expressar. E é assim mesmo, primeiro a gente se assusta, não quer aceitar, mas depois que a gente aceita, fica menos difícil de resolver alguma situação, por mais complexa que seja.

*Gustavo Tubarão é um criador de conteúdo que teve sucesso mostrando nas redes sociais o seu dia a dia na roça, na cidade de Cana Verde, no interior de Minas Gerais. Tornou-se uma referência quando o assunto é saúde mental, visto que nunca escondeu sua depressão e seus problemas psicológicos

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