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Protetor causa queda de cabelo? Conheça a alopecia frontal fibrosante

Existe a suspeita de que o protetor solar seja um dos causadores da alopecia frontal fibrosante – um tipo de calvície. Investigamos essa história

Por Maria Tereza Santos - Atualizado em 8 mar 2019, 19h05 - Publicado em 26 out 2018, 17h55

Entre os diversos tipos de queda de cabelo, existe a alopecia frontal fibrosante, uma doença que acomete a parte da frente do couro cabeludo, dando a impressão de que a testa está crescendo. E há uma enorme discussão entre os dermatologistas sobre ela, porque a verdade é: não se sabe a sua causa. Agora, uma das suspeitas recai sobre o protetor solar. Será que ele tem culpa no cartório?

Antes de mais nada, precisamos entender o que é a tal da alopecia frontal fibrosante. “Trata-se de um processo inflamatório, lento e assintomático que destrói a raiz do cabelo, acometendo a borda anterior do couro cabeludo”, explica a dermatologista Aline Donati, que atende na clínica DermaHair, em São Paulo. Mas veja que curioso: apenas 15% dos pacientes têm sintomas.

A médica conta que essa é uma doença descoberta recentemente. Ela foi descrita pela primeira vez em 1994, na Austrália. Até hoje, as mulheres são bem mais acometidas, especialmente depois da menopausa. “Só que estamos percebendo que cada vez mais jovens vêm ao consultório com essa queixa”, aponta Aline.

Pois é: ainda há muito mistério com relação à alopecia frontal fibrosante. E o filtro solar não foge à regra, como você verá agora.

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A relação entre o protetor solar e a calvície

Em 2016, pesquisadores do Hospital Royal Hallamshire, na Inglaterra, publicaram um estudo no periódico British Journal of Dermatology, no qual se concluiu que talvez haja uma associação entre a doença e o protetor solar.

Os cientistas criaram um questionário sobre hábitos que foi respondido por 105 mulheres com alopecia frontal fibrosante. Um grupo de controle formado por 100 homens e mulheres de diferentes idades também passou pelo teste. Com os resultados em mãos, eles observaram que o uso de filtro solar pela turma com o problema era significativamente maior.

Há ainda outro fato que fortalece essa hipótese. Como foi dito no início do texto, a alopecia frontal fibrosante foi diagnosticada pela primeira vez na Austrália. Coincidência ou não, esses primeiros episódios surgiram numa época em que a população australiana passou a aplicar mais protetor devido a uma intensa campanha contra o câncer de pele feita pelo governo.

De acordo com Aline Donati, uma das características da doença que corrobora a teoria é o fato de que, além da cabeleira, ela atinge os pelos das sobrancelhas, das pernas e dos braços. Porém, as axilas e a virilha, áreas em que normalmente não se passa cremes, permanecem intactas.

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Outro trabalho feito por várias universidades sul africanas, publicado em 2013, mostrou que, em 35% das 20 voluntárias negras com alopecia frontal fibrosante, surgiram manchas na pele que ardiam e coçavam antes da queda dos fios se tornar evidente.

Aline explica que, na pele negra, a probabilidade de identificar anormalidade em estágios precoces é maior, pois a derme mancha com facilidade. Já na cútis branca, pode ser confundida com outros problemas, como a rosácea. Acontece que, nas duas situações, as mulheres começam a usar protetor com mais frequência justamente para evitar essas chateações.

“Fica a dúvida: será que o filtro solar provoca a doença ou, na verdade, quando ela surge na pele, a pessoa passa a aplicar o produto na tentativa de controlar os danos?”, questiona a dermatologista. Se esse segundo cenário for verdadeiro, o cosmético estaria sendo injustamente acusado.

Para complicar ainda mais o enredo, aquele estudo inglês também fez testes para tentar descobrir qual substância do protetor deflagraria a queda dos fios. Mas os resultados não deram em nada. “Se existe uma relação de causa e efeito, a gente não sabe qual é o componente por trás dela”, informa Aline.

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Resumindo: a causa da alopecia frontal fibrosante ainda é desconhecida. Portanto, o medo de desenvolvê-la não deve ser motivo para deixar de usar protetor solar, ainda considerado a melhor maneira de se proteger do excesso de raios ultravioleta.

O importante é, ao notar uma perda acentuada de cabelo, conversar com o dermatologista quanto antes.

Como é feito o diagnóstico e o tratamento

O ideal é descobrir a doença nos estágios iniciais. “Os dermatologistas precisam ficar mais atentos às mulheres que vão ao consultório por problemas na pele, como manchas vermelhas e bolinhas”, orienta Aline.

O instrumento clínico utilizado para fazer essa verificação é o dermatoscópio (uma espécie de lupa de aumento para analisar toda a borda do couro cabeludo). “Observamos se houve a perda da penugem, que são pelos bem fininhos no rosto. Se tiver ocorrido, pedimos uma biópsia para confirmar o diagnóstico”, arremata a especialista.

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Infelizmente, não há cura nem forma de prevenção conhecida. Mas existem tratamentos. Eles consistem em impedir que a calvície continue avançando, já que não há como recuperar os fios caídos.

Podem ser indicados anti-inflamatórios, tratamento hormonal (acredita-se que a doença possa estar ligada a uma alteração nos hormônios por atingir mulheres em sua grande maioria) e produtos retinóides devido às manchas. “Cremes tópicos vão ser adicionados se a pessoa sentir ardor, coceira ou odor”, acrescenta Aline.

As próteses – similares à perucas, mas que cobrem apenas uma parte da cabeça – são uma opção para amenizar a situação. “Atualmente, não há motivo para usar o transplante capilar. Nos testes realizados, o pelo transplantado inflama e cai”, completa.

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