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Dermatite em cães: ela não para de crescer, mas há nova solução à vista

Coceira, vermelhidão e lesões na pele... Pesquisadora esmiúça o que está por trás da dermatite atópica em animais de estimação e os avanços no tratamento

É um coça-coça constante que, não raro, termina em descamação e feridas. Alguns cachorros, tadinhos, ficam até com desfalques no pelo. Se o seu bicho de estimação sofre com um quadro parecido, atenção: pode ser dermatite atópica. Cada vez mais diagnosticada nos consultórios veterinários, a condição não tem cura e requer controle para não abalar a pele e a qualidade de vida do bicho.

Uma pesquisa da farmacêutica Zoetis realizada com veterinários brasileiros indica que uma em cada seis consultas no país hoje são motivadas por coceira. Nem sempre o prurido é sinal de dermatite, mas não dá pra perder a doença de vista, sobretudo em algumas raças, como shih tzu, lhasa apso, buldogue francês, shiba inu…

Felizmente, a encrenca tem tratamento. Existem desde pomadas e sprays que aliviam a pele até comprimidos que modulam a imunidade, alterada nos bichos com a condição. E tem novidade no horizonte: já aprovado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, deve chegar em breve por aqui o primeiro remédio imunobiológico contra a doença. Injetável, ele bloqueia especificamente a substância que desata a coceira e as manifestações na pele. Nos estudos, sua eficácia chega a 85%.

Diante desse cenário de aumento no diagnóstico e evolução no tratamento, aproveitamos a passagem da veterinária italiana Chiara Noli pelo Brasil para entender melhor os fatores que incentivam a dermatite e o que os donos e os profissionais podem fazer para minimizar o impacto da doença. Chiara foi a primeira presidente da Sociedade Italiana de Dermatologia Veterinária e hoje é membro do Colégio Europeu de Dermatologia Veterinária. Ela esteve no país para participar do Congresso Medvep Internacional de Dermatologia Veterinária, recém-ocorrido em Foz do Iguaçu, no Paraná. 

Confira a entrevista com ela:

SAÚDE: Por que se observa esse crescimento no número de cães com dermatite atópica?

Chiara Noli: Duas situações podem contribuir para o aumento na incidência da doença. Da mesma forma como acontece com seres humanos, a higiene nos animais vem aumentando. Quando se retira do organismo o contato com parasitas e bactérias, o sistema imunológico fica mais ocupado com alérgenos do ambiente, como o pólen e os ácaros. Isso é o que se chama de “hipótese da higiene” para os seres humanos e há evidências de que também se aplica aos animais. Quanto mais limpo vive o animal, maiores as chances de aparecerem alergias.

O segundo fator é genético. A população canina deriva de um grupo genético restrito. O cão surgiu do lobo e, a partir de uma pequena linhagem desses animais, nasceram todas as raças de cães. Essas raças são criadas de forma a manter certo padrão genético, de pelagem e tamanho da orelha, por exemplo, e, assim, não há mistura com cães de outras populações, com outros perfis genéticos. Isso faz com que a quantidade de genes seja pequena e selecione os animais alérgicos. Tanto é que na dermatite atópica existe predisposição racial muito nítida. Algumas raças têm mais alergias que outras.

Por falar nisso, quais as raças mais acometidas?

Isso depende de quais estão mais na moda. Hoje em dia, na Itália, temos visto muitos casos de dermatite atópica em cães das raças buldogue francês, shih tzu, shiba inu, labrador e pitt bull terrier.

Existem gatilhos para a manifestação dos sintomas da dermatite?

Em relação à alergia alimentar, um grande estudo de 2016 coletou todas as publicações científicas sobre dermatite e mostrou que um terço dos cachorros é alérgico à carne bovina. Também estão nessa lista produtos à base de leite e frango, seguidos por itens com trigo e arroz.

No caso da dermatite atópica em si, o primeiro agente por trás do problema é a poeira doméstica, especificamente quando contém o ácaro Dermatophagoides farinae. Em segundo lugar, temos o pólen. Há ainda fungos que causam alergias e casos em que os cachorros são alérgicos a gatos.

A dermatite atópica canina guarda semelhanças com a humana?

A dermatite atópica canina é muito parecida com a humana. Tanto é que uma serve de modelo para a outra. Isso é bom porque existe mais investimento para estudar a doença em cães. É possível mencionar também o fato de os cães viverem menos tempo que as pessoas. Isso torna mais fácil acompanhar e estudar a doença para se ter resultados mais rápidos em matéria de diagnóstico e tratamento.

Como se define o tratamento hoje?

A dermatite atópica é uma doença multifacetada. Os animais podem ter mais ou menos lesões, coceira, otite etc. Cada situação é diferente. Também é muito importante considerar a parceria entre dono e animal. A dermatite é uma doença que se estende pela vida. Por isso, é preciso pensar em uma terapia boa para o animal e o seu tutor, o que inclui avaliar fatores financeiros e tempo disponível para se dedicar ao tratamento.

O que muda com a chegada do primeiro remédio imunobiológico?

O medicamento chamado Cytopoint é inovador nesse contexto porque age no alvo da coceira, bloqueando a interleucina 31, substância inflamatória responsável por causar a complicação. O remédio é injetado mensalmente e apresenta várias vantagens porque não é tóxico ao organismo do animal, uma vez que se utilizam anticorpos praticamente iguais aos produzidos pelo cachorro.

Portanto, dá pra dizer que ele é mais natural. Em estudos clínicos, a medicação está funcionando muito bem, com eficácia em cerca de 85% dos cães. Outra vantagem é o fato de poder ser administrado quando outros medicamentos para dermatite atópica, à base de corticoides ou ciclosporina, por exemplo, não podem ser usados. Essa contraindicação existe em caso de problemas no fígado ou de leishmaniose [doença causada por um parasita], comum na Itália e no Brasil.

Que ajustes na rotina o dono pode fazer para minimizar as manifestações da dermatite canina?

Animais que passam muito tempo dentro de casa têm mais contato com alérgenos presentes em tapetes, carpetes e objetos onde o pó e os ácaros se acumulam. Sem contar o tédio de permanecer ali dentro. Isso faz com que eles sintam mais o prurido e se cocem. Quando se coça e se sente melhor, o animal cria um hábito. É como um círculo vicioso. Por isso, é importante levar os pets para passear e não deixá-los em locais onde ocorre acúmulo de poeira.

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