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TDAH decodificado: por dentro do déficit de atenção

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade preocupa pais e educadores ao mesmo tempo que continua despertando controvérsias

Por André Bernardo Atualizado em 5 dez 2020, 12h24 - Publicado em 5 dez 2020, 12h17

Um garoto abre a torneira do banheiro. Para não levantar suspeita, entope a pia de toalhas. Quando o pai descobre o plano do Menino Aquático, é tarde demais: a água já tinha invadido a área, atravessado a cozinha e ameaçava inundar a sala. Contando assim, até parece tirinha de Calvin & Haroldo, a HQ sobre um guri irrequieto e seu tigre de pelúcia escrita e ilustrada pelo cartunista americano Bill Watterson.

Mas não! A história é real, aconteceu com o jornalista mineiro Eduardo Ferrari e está contada no livro Elétrico (clique para comprar). Eduardo tem seu próprio Calvin em casa. Ele se chama Gabriel, está com 12 anos e foi diagnosticado com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Falamos de um distúrbio que atinge de 3 a 5% da população entre 6 e 12 anos. “No livro, o personagem alaga o primeiro andar da casa porque queria ouvir o ‘splash’ da água quando pisava nela. A história pode ser engraçada, mas, do ponto de vista das crianças, é um desafio e tanto viver sendo o diferente”, afirma Eduardo, que reconheceu traços de TDAH em travessos famosos como o Menino Maluquinho, de Ziraldo, e o Pequeno Nicolau, de René Goscinny.

Gabriel tinha 6 anos quando seu pai recebeu o primeiro telefonema da escola. A professora dizia que, apesar dos esforços, o filho não estava conseguindo aprender a ler. No início, desconfiou-se que o uso de óculos resolveria tudo. Só que não. “Gabriel sempre foi uma criança agitada. Nunca houve hora ou lugar para fazer travessuras. Em casa, numa festa ou na escola, não parava quieto”, conta Eduardo.

Para facilitar a compreensão do problema, a psicóloga Iane Kestelman, presidente da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), gosta de comparar o TDAH ao diabetes. Todo mundo, em maior ou menor grau, tem açúcar no sangue. Uns, mais. Outros, menos. Apenas um grupo, porém, tem diabetes. Com o TDAH, acontece algo parecido. “É normal que toda criança seja um pouco desatenta, agitada e impulsiva. Mas as que têm o transtorno demonstram essas características num grau de intensidade infinitamente superior em comparação com as demais”, diferencia Iane.

Autor do livro No Mundo da Lua (clique para comprar), o psiquiatra Paulo Mattos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que são justamente três os sintomas clássicos. “Há a desatenção, essa dificuldade de se manter concentrado numa tarefa; a hiperatividade, uma agitação constante que tende a melhorar com a idade; e a impulsividade, que é a tendência a agir antes de pensar”, descreve.

As pistas do TDAH

Veja os principais sintomas e como os profissionais de saúde realizam o diagnóstico:

Desatenção e hiperatividade

A pessoa tem dificuldade constante em se concentrar e se organizar. Esquece tarefas, comete erros ou se distrai facilmente onde está.

Impulsividade

É o famoso age ou responde antes de pensar, o que inclui interromper e não ouvir ou obedecer os outros — e receber recriminações por isso.

Diagnóstico

Em crianças e jovens, os profissionais observam a presença de pelo menos seis sintomas de desatenção e seis de hiperatividade e impulsividade.

Início dos sintomas

É obrigatório que esses sintomas já estejam presentes antes dos 12 anos e causem problemas em dois contextos diferentes, como casa e escola.

As fronteiras para a detecção

E aí, você ou seu filho se identificaram? Calma que não é tão simples assim. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria listou 18 sintomas e manifestações (nove de desatenção e nove de hiperatividade e impulsividade) do distúrbio na quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), referência mundial em psiquiatria.

Para uma criança ou um adolescente serem diagnosticados com TDAH, precisam apresentar pelo menos seis sintomas específicos de desatenção e seis de hiperatividade ou impulsividade identificados por um profissional. No caso dos adultos, são pelo menos cinco de cada um.

Não acabou: é obrigatório que esses sintomas apareçam (ou tenham aparecido) antes dos 12 anos, causem problemas em dois contextos diferentes (casa e escola, por exemplo) por no mínimo seis meses e tragam prejuízos à vida pessoal e familiar da criança.

“Em geral, meninas têm mais TDAH com predomínio de desatenção que os meninos. Isso faz com que elas incomodem menos os adultos e, por essa razão, sejam menos levadas ao médico. Ainda não está clara a razão biológica para esse fenômeno”, conta o psiquiatra Luís Augusto Rohde, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Tal filho, tal pai?

Diante do que a professora falou sobre o pequeno Gabriel, Eduardo Ferrari se apressou em levar o filho a uma série de especialistas. Ao ouvir o que diziam sobre o garoto, descobriu que estavam falando dele também. “Ei, também tenho isso!”, pensou. E tinha mesmo. Ao chegar em casa, constatou, consultando a internet, que devia fazer parte dos cerca de 2 milhões de adultos que, só no Brasil, não foram diagnosticados corretamente na infância. “Algumas das características mais marcantes de um adulto com TDAH são a impaciência e a irritabilidade”, relata.

Adulto ou criança, não é fácil cravar que uma pessoa tenha TDAH. E por várias razões. A primeira: outros transtornos, como ansiedade e depressão, podem ter sintomas parecidos. Mais uma: não há nenhum tipo de exame de sangue ou de imagem capaz de detectar objetivamente o distúrbio. Estranho? Nem um pouco. Outras doenças, como autismo, esquizofrenia e TOC, também têm de ser rastreadas em consultório sem esses testes. Tudo depende de uma entrevista e da avaliação clínica com o especialista.

Mas, então, como distinguir uma criança naturalmente distraída, agitada ou impulsiva de outra com TDAH? “O que norteia o diagnóstico é o prejuízo”, elucida o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Se a criança é agitada mas não tem prejuízo social ou escolar, é simplesmente peralta, não tem TDAH. Diante de uma criança distraída ou introspectiva, o risco de não fazer o diagnóstico é maior. Como não incomoda ninguém, pode passar despercebida”, completa.

No caso de Gabriel, os prejuízos foram incontáveis — não só acadêmicos mas também sociais. O menino, recorda o pai, chegou a ser chamado de “maluco” pelos colegas da escola e de “mal-educado” por membros da família. Foi quando Eduardo teve a ideia de transformar o filho em personagem de livro infantil.

“Certo dia, meu filho me perguntou o que significava ‘maluco’. Peguei o dicionário e li uma das definições: aquele que não se enquadra em padrões. Meu filho não gostou de ser chamado de maluco pelos colegas, mas gostou de ser diferente da maioria das pessoas”, lembra o jornalista.

Feito o diagnóstico do TDAH, o passo seguinte é buscar e estruturar o tratamento. “O transtorno não é curável, mas tratável. Há propostas terapêuticas eficazes que, em mais de 70% dos casos, trazem alívio dos sintomas”, afirma o neuropediatra Giuseppe Pastura, da Faculdade de Medicina da UFRJ. São três as frentes de ação: a psicoterapia, os medicamentos e a psicoeducação.

Enquanto a terapia cognitivo-comportamental ajuda a administrar e minimizar as manifestações, dificuldades e tensões, o trabalho de psicoeducação vai orientar paciente e familiares a lidar melhor com a situação. Os remédios, por sua vez, vão atuar numa região chamada córtex pré-frontal — afinal, o TDAH é fruto de alterações biológicas no cérebro. “A psicoterapia não é, de maneira nenhuma, uma alternativa ao tratamento medicamentoso”, salienta Iane Kestelman. É o combo todo, sem negligenciar os comprimidos, que assegura os benefícios.

Cérebro peculiar

Veja as diferenças anatômicas e fisiológicas já associadas ao TDAH:

cérebro desenhado com mãos ao redor
Ilustração: Pedro Hamdan/SAÚDE é Vital

Na anatomia

Existem algumas alterações anatômicas no cérebro de crianças e adolescentes com TDAH. Nos adultos, não há diferenças significativas — o que indica que podem reduzir com o tempo.

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Na superfície

Exames de neuroimagem que analisam o cérebro ao vivo apontam que o volume cerebral e a espessura do córtex, a camada mais externa do órgão, são menores em quem tem TDAH.

Nas profundezas

As alterações anatômicas também ocorrem em estruturas como a amígdala, responsável por regular nossas emoções, e o hipocampo, ligado às motivações e à formação da memória.

Na função

Exames que apuram o funcionamento do cérebro sugerem que, quando precisa manter a atenção em algo por muito tempo, uma pessoa com TDAH ativa circuitos cerebrais diferentes dos demais.

No bem-estar

Um estudo com 3 mil voluntários (com e sem TDAH) concluiu que o transtorno também afeta áreas do cérebro responsáveis pelo sistema de recompensa, que nos deixa satisfeitos após alguma atividade.

Prescrições e controvérsias

Desde que foi diagnosticado com TDAH, Gabriel tem acompanhamento mensal com um psiquiatra, que ajuda a verificar o progresso do tratamento e a ajustar as medicações, e semanal com uma psicoterapeuta, que também desenvolve atividades educativas e lúdicas. Eduardo se consulta, uma vez por mês, com um psiquiatra. E também toma remédios. “Eles me dão, digamos, um estopim maior para ter mais tolerância. Isso acaba ajudando com a família e o próprio Gabriel”, avalia.

Apesar de comum na prática clínica, o uso de remédios — o mais receitado é o cloridrato de metilfenidato, mais conhecido pelo nome comercial Ritalina — ainda suscita polêmicas. O psicanalista francês Patrick Landman, autor de Todos Hiperativos?, é um dos que questionam a medicalização do transtorno. Fundador do movimento “Stop DSM!”, que põe em dúvida o documento referência na psiquiatria americana, ele alerta para o excesso de diagnósticos e tratamentos desnecessários. Segundo Landman, o TDAH é um sintoma a ser investigado, não uma doença a ser combatida.

Ele não está sozinho nessa. O psiquiatra americano Allen Frances, autor de Voltando ao Normal (Editora Versal), é um dos principais nomes a condenar os abusos da indústria farmacêutica, que transformaria problemas cotidianos em distúrbios mentais. “À medida que somos levados mais e mais em direção à medicalização da normalidade, esquecemos que a maioria dos problemas não são doenças e que apenas raramente a melhor solução para eles está nas pílulas”, escreve em um trecho da obra.

Outra voz dissonante é a do jornalista americano Robert Whitaker, que assina Anatomia de uma Epidemia (Editora Fiocruz) e postula que o TDAH não é um distúrbio, mas um problema comportamental. “Mais do que de comprimidos, crianças desatentas precisam de um ambiente escolar interessante e de mais tempo para brincar”, ele pondera. Muitos médicos, porém, discordam dessa visão.

O psiquiatra Paulo Mattos está tão acostumado a críticas do tipo que nem se incomoda mais. Ele prefere dividi-las em dois grupos: as que negam a existência do TDAH e as que criticam a necessidade de medicá-lo. “Em relação ao primeiro grupo, existem estudos demonstrando alterações tanto na estrutura quanto no funcionamento de áreas cerebrais específicas. Quanto ao segundo, a argumentação é frágil: o TDAH está associado desde à maior frequência de reprovações, expulsões e evasão escolar até à maior incidência de abuso de álcool e drogas”, contrapõe.

Mais compreensão, menos preconceito

O que já é difícil para uma criança que vai à escola e sofre bullying por ser desatenta ou impulsiva pode se complicar quando se é adulto, casado, com filhos e emprego. “Até algumas décadas atrás, o TDAH era visto como um distúrbio infantil que desaparecia com o tempo. Mas não é nada disso. É um transtorno que, em 50% dos casos, acompanha o indivíduo pela vida”, nota o psiquiatra Mário Louzã, coordenador do Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade no Adulto do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Nos mais maduros, as consequências de um TDAH não identificado e tratado chegam a ser mais desastrosas e não se resumem aos desafios extras com o estudo. “Sem tratamento, os portadores de TDAH podem sofrer até com a redução da expectativa de vida”, adverte o psicólogo Russell Barkley, autor do manual TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (clique para comprar).

Com o tratamento em dia, o pai do Menino Aquático avisa que não vai parar em Elétrico. Este ano já publicou Distraído e, ano que vem, planeja o lançamento do terceiro volume da trilogia, Falante. “Não sou médico nem terapeuta. Meu único objetivo é usar a literatura para combater o preconceito. Espero estar conseguindo”, diz Eduardo.

TDAH no devido lugar

O que contempla o tratamento do distúrbio para minimizar os sintomas e maximizar a qualidade de vida:

Psicoterapia

A terapia cognitivo-comportamental é a linha mais indicada, principalmente em casos leves, crianças menores de 6 anos ou quando também há presença de ansiedade ou depressão.

Remédios

A maioria dos estudos diz que o uso de medicamentos, tanto psicoestimulantes quanto antidepressivos, é a forma mais eficaz de tratamento. Devem ser utilizados sob acompanhamento médico.

Coadjuvantes

A terapia ocupacional e a fonoaudiológica podem ser convocadas havendo dificuldades com leitura e aprendizado. Faltam evidências sobre o papel de dietas e suplementos.

Em casa

Nada de comparar seu filho com outras crianças e cobrar resultados. Melhor incentivá-lo a ter empenho, reforçar o que há de melhor nele e reservar um espaço da casa para as lições e uma agenda de atividades.

Na escola

Listas de tarefas no quadro e na agenda ajudam, assim como intervalos regulares entre as tarefas e matérias. Evitar instruções longas e checar se o aluno compreendeu as questões também facilitam.

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