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Descubra por que é tão difícil dizer não no trabalho e como isso pode te adoecer

Embora pareça simples, dar uma negativa pode ser um desafio para muitos, impactando diretamente saúde mental e o equilíbrio nas relações de trabalho

Por Miryam Cristina Mazieiro Vergueiro da Silva, psicóloga, via Brazil Health*
26 ago 2025, 14h01 •
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Livro ajuda a identificar e solucionar problemas de saúde mental e autoestima relacionados ao trabalho (alvarez/Getty Images)
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  • Quantas vezes você disse sim nos últimos dias querendo dizer não? Algumas pessoas, devido a características de personalidade, têm dificuldade em recusar demandas, o que pode estar relacionado a:

    • Cultura e criação: fomos ensinados a agradar os outros e evitar conflitos;
    • Medo de rejeição: receio de desapontar o outro ou perder oportunidades, criando “mitos” sobre exclusão ou desafeto ao desapontar alguém;
    • Acreditar que ser prestativo é sempre uma virtude a ser cultivada;
    • Perfeccionismo: a crença de que só elas podem executar determinada tarefa com excelência.

    Para essas pessoas, o impacto de sempre dizer sim pode gerar sobrecarga e consequências emocionais como estresse, ansiedade, ressentimento; físicas, como cansaço crônico e adoecimento por excesso de trabalho; relacionais, com desgaste e perda de autenticidade; e profissionais, como queda na produtividade e qualidade do trabalho.

    A ameaça do burnout

    Essa sobrecarga física e emocional pode desencadear um diagnóstico cada vez mais comum: a síndrome de burnout. Essa condição se caracteriza pela exaustão física, mental e emocional, levando a um afastamento das pessoas, que passam a ser vistas como fontes de estresse, afetando a empatia e o relacionamento com colegas e clientes.

    Outra manifestação do burnout é a falta de realização profissional, quando o trabalhador sente que seu trabalho não faz diferença ou não consegue lidar com eficiência com os problemas do dia a dia.

    +Leia também: Quando o estresse vira burnout? Aprenda a diferenciar

    Para que essa síndrome seja caracterizada, a fonte de estresse deve necessariamente estar relacionada ao trabalho. O Código Internacional de Doenças (CID-11) define o burnout como um “fenômeno ocupacional”.

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    Assim, a síndrome, descrita como “resultante do estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi bem administrado”, evidencia dois fatores essenciais. As características individuais e as condições da organização do trabalho, com seus fatores de risco psicossociais — os principais condicionantes do burnout.

    Fatores de risco

    Esses fatores de risco podem incluir:

    • Sobrecarga;
    • Ritmo intenso de trabalho: múltiplas tarefas sem tempo suficiente para realizá-las dentro da jornada;
    • Falta de controle sobre as próprias funções;
    • Recompensas insuficientes;
    • Ausência de apoio social de colegas e liderança;
    • Desequilíbrio entre vida pessoal e profissional, sem acordos claros para atender outras demandas da vida.

    Para as empresas, esse diagnóstico traz implicações na legislação trabalhista, invertendo o ônus da prova: cabe ao empregador demonstrar que o adoecimento não decorre do ambiente profissional.

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    Em caso de afastamento, o benefício do trabalhador pode ser convertido de B31 (adoecimento comum) para B91 (acidente de trabalho), concedendo direitos como a estabilidade por um ano, entre outros.

    O que fazer?

    Diante desse cenário, a intervenção para um colaborador acometido pelo burnout deve ser em duas frentes:

    • Tratar o indivíduo: afastamento do trabalho, se necessário, uso de medicação, psicoterapia e prática de exercícios;
    • Melhorar o ambiente, eliminando ou minimizando fatores de estresse e promovendo fatores de proteção (autonomia, apoio social, equilíbrio entre casa e trabalho, etc.).

    Para o indivíduo, o autoconhecimento e o autocuidado são fundamentais para evitar a necessidade de assistência especializada. Uma estratégia importante é aprender a recusar demandas excessivas, o que depende também de estar inserido em um ambiente que ofereça segurança psicológica, oportunidades de escuta e acordos claros entre liderança e equipe.

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    Quando o trabalhador tem clareza de suas prioridades e de seu papel no contexto profissional, a negociação com a empresa é mais fácil. Dessa forma, ele conquista mais tempo e energia para aquilo que realmente importa, mantém relações mais saudáveis e transparentes e aumenta sua autoestima e autoconfiança.

    +Leia também: Saúde mental no trabalho agora será garantida por lei

    Como dizer mais não?

    Em situações onde características pessoais dificultam a negativa, é preciso praticar o “não” em situações cotidianas. Exemplos de estratégias incluem:

    • Pausar antes de responder: “Posso te responder depois?”
    • Ser claro e objetivo, evitando justificativas longas;
    • Oferecer alternativas: “Não posso agora, mas posso na próxima semana”;
    • Usar o “não” positivo: reconhecer o pedido, mas manter seus limites;
    • Dizer, por exemplo: “Eu entendo que isso seja importante, mas no momento preciso focar em X.;
    • Treinar em situações pequenas para ganhar confiança aos poucos.

    Cuidar do ambiente, reforçando fatores de proteção, contribui para prevenir recaídas e novos afastamentos por burnout. Se o ambiente de trabalho não for modificado, o retorno do trabalhador pode levá-lo ao contato com os mesmos fatores adoecedores, aumentando o risco de novo afastamento.

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    *Miryam Cristina Mazieiro Vergueiro da Silva é psicóloga, mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da USP, diretora de Psicologia da empresa Gattaz Health & Results (GHR) e coordenadora do curso de Especialização em Saúde Mental nas Empresas da Faculdade de Medicina da USP.

    (Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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