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Burnout: problema é reconhecido pela OMS e faz cada vez mais vítimas

A síndrome do esgotamento profissional entra na lista oficial da OMS em meio a uma alta de diagnósticos. Como identificar seus sinais e reverter esse fluxo?

Por André Bernardo Atualizado em 23 mar 2022, 14h37 - Publicado em 23 fev 2022, 15h24

Ainda hoje, três anos e sete meses depois, a jornalista Izabella Camargo, de 41 anos, se emociona ao falar do burnout que sofreu em 14 de agosto de 2018. Naquela manhã, quando fazia a previsão do tempo em um telejornal, ela sofreu um “apagão” ao vivo.

Dependendo da função que exercia, Izabella dormia às 5 da tarde para acordar à meia-noite e começar a trabalhar às 3 da manhã. Ainda fazia plantões de até 12 horas aos sábados pelo menos duas vezes por mês. Diagnosticada com a condição, foi demitida da emissora de TV onde trabalhava depois de dois meses e 15 dias de licença médica.

“O burnout me ensinou a importância do autocuidado”, avalia a autora do livro Dá um Tempo!, da Editora Principium (clique aqui para comprar), uma das pioneiras em levar a causa ao debate público no Brasil.

“Hoje, apesar de amar o que faço, cuido mais de mim. Tenho consciência dos meus limites e procuro respeitá-los”, diz a jornalista, que se tornou mãe recentemente.

Histórias como a de Izabella continuam se repetindo pelo país. Em 2019, uma pesquisa da International Stress Management Association (Isma-BR) estimou que 32% da população economicamente ativa sofria de sintomas de burnout.

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Em outro levantamento, feito já na pandemia, 44% dos brasileiros ouvidos disseram que o período de convívio com a Covid-19 amplificou a sensação de esgotamento profissional.

Se formos transpor para números absolutos, daria algo em torno de 39,6 milhões de trabalhadores afetados. Em um ranking de oito países sondados, o Brasil ocupa a primeira colocação, à frente de Singapura (37%), Estados Unidos (31%) e Índia (29%).

“Não há salário, promoção ou carreira que justifique o adoecimento. A saúde é o único bem do trabalhador”, afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma-BR. “Muitas vezes, a única saída é pedir as contas. Ou pede para sair ou cai doente. Não há mágica”, ressalta.

O assunto não passou batido pela 72ª Assembleia Mundial de Saúde, realizada em maio de 2019, em Genebra, na Suíça, com a participação dos 194 países-membros da Organização Mundial da Saúde (OMS), quando se decidiu revisar a definição do burnout na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID).

Antes, ele era descrito apenas como um “estado de exaustão vital”. Podia ser interpretado até como resultado de um infortúnio em casa ou na família.

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Na CID-11, que passou a vigorar em janeiro de 2022, ele ganha oficialmente o entendimento mais aceito pelos especialistas, o de um esgotamento que é fruto do “estresse crônico no local de trabalho”.

“O trabalho não deveria ser visto como um problema. Ele é uma solução. Ou pelo menos deveria ser. Se você adoece por causa disso, há algo errado”, alerta Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

“Nosso corpo é uma ponte. Foi construído para suportar determinado peso. Acima daquele limite, apresenta rachaduras e pode ruir”, compara o psiquiatra.

Embora conste na nova CID, o burnout ainda não tem status de doença. A OMS prefere situá-lo como “fenômeno ocupacional”. Ou uma síndrome, palavra que, na terminologia médica, se refere a um conjunto de sintomas, sejam eles físicos, psíquicos ou emocionais.

Entenda os termos (e as diferenças)

Burnout não é um mero cansaço. Saiba o que os profissionais entendem pelas palavras abaixo:

  • Cansaço: estado de fraqueza ou indisposição depois de um esforço físico ou mental. É algo normal, e tende a passar depois de uma boa noite de sono ou um fim de semana.
  • Fadiga: é uma sensação de cansaço persistente que costuma indicar uma doença — anemia, fibromialgia, depressão… a lista é extensa. Some após o tratamento.
  • Burnout: é a exaustão física e mental provocada pelo trabalho — seja pela carga em si, seja pelo clima ou pressão do ambiente. Agora é tida como síndrome ocupacional pela própria OMS.
  • Depressão: foi comparada pelo físico Stephen Hawking a um buraco negro. Gera angústia e prostração incontrolável. Sem tratamento, pode ser fatal.

+ FAÇA O TESTE: Será que você está com burnout?

Sintomas, controvérsias e vítimas

Dor de cabeça, perda do sono, déficit de concentração, baixa autoestima, pessimismo e sensação de desesperança. Tudo isso pode compor um quadro de burnout.

Apesar de não ser uma doença ocupacional, como a lesão por esforço repetitivo (LER) ou a perda auditiva induzida por ruído, a síndrome do esgotamento profissional exige o mesmo nível de cuidados.

A vítima pode ficar prostrada e cair em depressão. “O que você faz quando seu local de trabalho está esfumaçado ou em chamas? Sai correndo, não é?”, pergunta o professor americano Jeffrey Pfeffer, autor de Morrendo por um Salário, da Editora Alta Books (clique para comprar). “Em ambos os casos, temos um ambiente tóxico com consequências perigosas”, dispara.

Burnout, na verdade, é um nome recente para um mal antigo. Em 1869, a sensação de cansaço extremo e apatia generalizada foi chamada de neurastenia pelo médico americano George Beard (1839-1883). Escritores famosos, como Oscar Wilde, Franz Kafka e Virginia Woolf, receberam o diagnóstico.

Em 1974, a “fraqueza dos nervos” foi rebatizada de burnout (do inglês “queimar-se por completo”) pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger (1926-1999). Ele próprio, reza a lenda, sofreu dois episódios. Pudera! De dia, trabalhava 12 horas em um hospital; à noite, atendia dependentes químicos em uma clínica de reabilitação.

Quase meio século depois, o burnout ainda causa polêmica. Há quem não acredite sequer em sua existência como um problema de saúde específico e concreto.

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É o caso do psiquiatra Estevam Vaz de Lima, autor de Burnout — A Doença Que Não Existe, da Editora Appris (clique aqui para comprar). “Não questiono o sofrimento de quem adoece devido a condições insalubres de trabalho. Questiono a terminologia. As pessoas tendem a confundir burnout com assédio moral, a principal causa de adoecimento no trabalho”, argumenta.

Para facilitar a compreensão do que considera burnout, a OMS lista três características. A primeira é a exaustão em si: cansaço e estafa tendem a passar depois de alguns dias de descanso ou férias; exaustão, não! Pode ficar tão intensa que o sujeito nem consegue sair da cama.

A segunda característica é o ceticismo. Cético é quem duvida de tudo e de todos — a começar por si mesmo e do seu potencial. A terceira e última dimensão é a ineficácia, o famoso “trabalha muito, rende pouco”.

“O burnout não atinge apenas quem está insatisfeito com o trabalho, mas também quem ama o que faz. É o canto da sereia que, se não tomar cuidado, pode arrastar o trabalhador para o fundo do mar”, reflete o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, autor de A Exaustão no Topo da Montanha, da Editora Paidós (clique aqui para comprar).

Por ser um desgaste físico e mental relacionado a um emprego, estudantes, donas de casa e aposentados, pelo menos em teoria, estão livres dele.

Mas será que a preparação para o vestibular ou os afazeres domésticos não poderiam nos deixar literalmente exaustos? Discussões à parte, de fato parece haver ocupações mais vulneráveis ao burnout.

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“As profissões que prestam serviço ao público e sofrem com a chamada ‘cobrança transversal’, como profissionais da saúde, da educação e da segurança pública, estão entre as mais afetadas”, observa o médico do trabalho João Silvestre Silva Júnior, doutor em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP).

Uma pesquisa online realizada com 3,6 mil profissionais da saúde em setembro de 2020 revelou que 83% daqueles que estavam na linha de frente contra a Covid-19 declararam sintomas de burnout.

gráfico das profissões e países m,ais afetados pelo burnout
Ilustração: Daniel Almeida/SAÚDE é Vital
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Para apagar o incêndio

Em caso de suspeita de burnout, o que o trabalhador deve fazer?

Quem responde é a advogada Luciana Chamone, especialista em direito à saúde mental: o primeiro passo é o empregado consultar um psiquiatra para confirmar o diagnóstico e receber um tratamento; o segundo é o empregador emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e posteriormente corrigir problemas na rotina e no ambiente.

“Após o diagnóstico, a providência a tomar é afastar o trabalhador do seu local de trabalho. E depois melhorar suas condições para trabalhar”, resume Silva Júnior.

A comprovação do burnout pode envolver laudo médico, perícia e testemunhas, e a empresa pode ser responsabilizada tanto na esfera material (despesas com tratamento) quanto na moral (indenização).

“Precisamos lembrar que um trabalhador mentalmente saudável vive e produz mais e melhor. Isso é bom para o empregado, para o empregador e para a sociedade”, reforça Luciana. E olha que não é difícil identificar uma ocupação tóxica. Prazos e metas irreais, cobranças descabidas, falta de respeito…

Criar um espaço saudável, com equipe em número suficiente para não sobrecarregar ninguém e tempo de descanso respeitado sem mensagens pelo celular ou ligações fora do expediente, deveria ser prioridade nas companhias.

“Cuidar da saúde do trabalhador, além de ser um compromisso ético, é um investimento que reduz o absenteísmo e aumenta a produtividade”, afirma a médica do trabalho Rosylane Rocha, presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt).

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Empresas contra o burnout

A psicóloga Veruska Galvão, do Instituto Internacional em Segurança Psicológica (IISP), pontua que um ambiente equilibrado está longe de se resumir a um escritório que ofereça sala de massagem, mesa de pingue-pongue e sessões de mindfulness.

“Ele tem de ser um lugar em que os funcionários se sentem à vontade para discordar abertamente uns dos outros, falar dos problemas dos quais ninguém fala e aprender com os próprios erros”, destaca.

Para avaliar o grau de satisfação de empregados e empregadores nas empresas onde trabalham, o psicólogo Rui Brandão, CEO do Zenklub, criou o Índice de Bem-Estar Corporativo (IBC). O burnout é um dos cinco critérios. Os outros quatro são: ambiente de trabalho, adição (compulsão) de trabalho, relacionamento com colegas e líderes e volume e controle de demanda.

Numa escala de 0 a 100, o IBC do mercado brasileiro, medido com 1,6 mil profissionais de 335 empresas, é 49,25. “O índice ideal é de, no mínimo, 78”, aponta Brandão, que criou o Zenklub em 2016, depois que a mãe, juíza em Portugal, sofreu um episódio de burnout.

“Medir a quantas anda a saúde mental do seu ambiente de trabalho é o primeiro passo para criar estratégias efetivas de prevenção”, defende.

Outra iniciativa do Zenklub é a criação de um curso online e gratuito: A Síndrome de Burnout e a Relação com o Trabalho. Com carga horária de duas horas e dividido em quatro módulos, é ministrado pela escritora Carol Milters, de 33 anos.

Autora de Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout (clique aqui para comprar), ela expõe causas e sintomas, busca por tratamento e o dilema do “Você trabalha para viver ou vive para trabalhar?”.

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Carol sabe do que está falando. Passou por duas crises: a primeira no Brasil, em 2015, e outra na Holanda, em 2017, onde vive atualmente.

“Cheguei a tomar banho sentada porque não tinha ânimo para ficar em pé”, recorda. Entre outras iniciativas, a instrutora criou o grupo Burnoutados Anônimos, que faz encontros toda última sexta-feira do mês, e idealizou a Semana Mundial de Conscientização do Burnout, de 28 de novembro a 2 de dezembro de 2022.

“Não me sinto curada. Prefiro dizer que estou buscando a prevenção. Quando vejo que começo a cansar, piso no freio”, explica Carol, que, entre seus hobbies, pratica meditação, pinta e toca ukelele.

O publicitário Lucas Schuch, de 31 anos, postou recentemente em suas redes sociais: “Não se cura burnout com meros dias de folga. São mudanças complexas que devem surgir da empresa”.

Será que o autor do podcast Propaganda Não É Só Isso Aí é mais um sobrevivente? Sim, sofreu dois episódios, ambos em agências de publicidade. Padeceu de dificuldade para se concentrar, alterações de humor e falta de motivação.

“Cheguei a questionar se o problema era meu ou estava na profissão errada”, relata. Hoje ele faz um doutorado em comunicação e procura tomar precauções, como não extrapolar oito horas de labuta por dia, manter distância das telas em seu horário de almoço e não responder a mensagens de trabalho fora do expediente. “Seria pretensão minha dizer que estou curado. Sigo em tratamento”, declara.

Os sinais de fumaça e as interpretações do burnout podem até diferir, mas há uma mensagem unânime a gravar: trabalhar cansa, mas não deve adoecer.

Como o mundo precisa encarar o burnout

O que cada um de nós e os setores da sociedade devemos fazer para o problema não ficar fora de controle:

  • Trabalhadores: todos temos uma parcela de responsabilidade. Precisamos criar limites entre a vida pessoal e a profissional e, no emprego, estabelecer prioridades, dialogar com a chefia e respeitar pausas e descanso.
  • Empresas: devem estruturar ambientes mais acolhedores e menos estressantes. Em tempos de home office, muitas adotaram regras como não agendar reuniões no horário de almoço ou depois das 18h.
  • Legislação: o indivíduo com burnout tem direito à licença médica remunerada por até 15 dias. Em afastamento por mais tempo, há cobertura pelo INSS. Após a alta, não pode ser dispensado sem justa causa por um ano.
  • Tecnologia: pessoas e companhias têm recorrido aos aplicativos de saúde mental, como Zenklub, Vitalk e BenCorp, que oferecem de sessões de terapia online a seminários virtuais de bem-estar corporativo.
  • Setor de saúde: psicólogos e médicos devem receber treinamento para lidar com o burnout — seja para atender dentro da empresa, seja em consultórios privados ou nos postos do SUS.

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Burnout tem tratamento

Depois do diagnóstico por um médico, há ferramentas para subverter o problema:

  • Psicoterapia: é essencial para o indivíduo entender e superar os desafios e fazer mudanças. Não há uma linha principal: pode ser terapia cognitivo-comportamental, psicanálise, Gestalt…
  • Medicamentos: o médico pode prescrever ansiolíticos ou antidepressivos para tirar o paciente do estado mais difícil — o uso de remédios dura meses ou a vida toda.
  • Mudança organizacional: tão importante quanto o tratamento é investigar o que provocou o adoecimento. O ideal é o trabalhador trocar de função, horário e/ou ambiente.
  • Estilo de vida: não dá pra viver para trabalhar! Limite as horas de expediente — não mais que oito por dia. Tenha tempo para descanso, lazer, família, hobbies e planos pessoais.
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