Vitamina B12 é melhor em comprimido ou injeção? Consenso define indicações
Documento inédito, feito por especialistas brasileiros, avalia as formas de suplementação e alerta que tomar sem necessidade pode fazer mal
Quando alguém apresenta deficiência de vitamina B12, qual é a melhor estratégia para repor o nutriente? Suplementação oral, sublingual ou por via intramuscular?
Para ajudar a responder a essa pergunta, especialistas brasileiros lançaram, na última semana, o primeiro consenso nacional sobre o assunto. O documento foi publicado na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet.
O material foi elaborado por 20 especialistas das áreas de hematologia, gastroenterologia, endocrinologia, cirurgia bariátrica, geriatria e neurologia.
Entre as conclusões, o documento aponta que, em geral, dá no mesmo. Todas as estratégias de reposição conseguem normalizar os níveis de vitamina B12 no sangue e nenhuma delas demonstrou superioridade em estudos quando o objetivo é melhorar sintomas ou aumentar a qualidade de vida.
Há apenas algumas situações específicas, a serem avaliadas caso a caso, em que a via de reposição parece fazer alguma diferença, explica o principal autor do documento, o médico Ricardo Cohen, diretor do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
“Se o paciente não tem dificuldade para absorver nutrientes, podemos usar qualquer via. Mas, se ele tem doenças no intestino delgado, doenças inflamatórias intestinais ou está no pós-operatório de cirurgias bariátricas — situações que podem comprometer essa absorção —, a via intramuscular ou sublingual pode ser melhor do que a oral”, exemplifica.
O resultado chega em um bom momento, já que a recomendação de injeções de vitaminas tem ganhado as redes sociais.
Por exemplo, impulsionada por influenciadores, a chamada soroterapia — aplicação de um coquetel de nutrientes diretamente na veia — é oferecida até a pessoas saudáveis com a promessa de uma absorção mais rápida e, claro, de benefícios mais potentes.
“Hoje há um boom de pessoas vendendo qualquer coisa injetável para todo mundo. É preciso dizer que, embora existam pacientes que precisem de medicações por via parenteral, eles são exceção, não regra”, destaca o endocrinologista Fábio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e um dos envolvidos no consenso.
Além da discussão sobre a via de administração, o documento também elucida quem deve repor a vitamina B12 e quando ela deve ser dosada por exames.
A deficiência de vitamina B12: quem está em risco e quais os sintomas
A deficiência de vitamina B12 é comum em diversos públicos, mas alguns requerem mais atenção. Estudos estimam que o quadro afeta entre 6% e 30% dos idosos, 10% e 30% dos indivíduos com gastrite atrófica (inflamação crônica do revestimento interno do estômago) e 5% e 40% dos pacientes após cirurgia bariátrica.
Isso acontece porque a absorção da B12 depende do ácido estomacal e da proteína que permite sua absorção no intestino, mas, entre essas populações, essa segunda etapa costuma estar prejudicada — aliás, esse é um dos motivos pelos quais, por muito tempo, acreditou-se que o uso de injeções poderia ser a melhor opção para todos.
Os sintomas da carência podem variar bastante e, em alguns casos, deixar sequelas permanentes. Entre eles estão anemia, danos nos nervos, alterações na medula espinhal, problemas de memória e raciocínio e sintomas semelhantes aos da demência.
Olhando para essas particularidades, o consenso foi feito a partir de uma revisão sistemática de evidências seguida pela aplicação do método Delphi, no qual 20 especialistas brasileiros avaliaram anonimamente 30 afirmações sobre a reposição da vitamina em rodadas sucessivas.
Ao fim das rodadas, os resultados foram avaliados com a atribuição de notas para indicar o grau de concordância em cada uma das afirmações. Abaixo, confira os principais pontos e a visão dos profissionais:
A via de aplicação ideal
O consenso confirma que todas as três vias de reposição de vitamina B12 (oral, sublingual e intramuscular) podem normalizar de forma confiável os níveis de vitamina B12. Além disso, o conteúdo destaca que não há evidências de que qualquer uma das vias seja superior às outras.
Como escolher
O documento considera que a decisão pelo método do tratamento deve levar em conta a causa da deficiência, a preferência e as condições do paciente, além de avaliar qual técnica é mais acessível para cada pessoa.
Quando repor?
A reposição de vitamina B12 é indicada principalmente em duas situações: quando os níveis da vitamina no sangue estão abaixo do valor de referência do laboratório, com ou sem alterações em outros exames, e em casos em que a suplementação é necessária independentemente dos sinais e sintomas, como em pessoas com anemia perniciosa ou que passaram por cirurgia bariátrica.
“Todos os especialistas concluíram que, para tratar a deficiência de vitamina B12 nos pacientes de risco, nós não esperamos a manifestação clínica. Tratamos quando os níveis estão baixos”, diz Cohen.
Como saber se a reposição está funcionando?
O consenso orienta que a conduta terapêutica não seja guiada apenas pelos níveis séricos de B12, mas sim complementada pela avaliação clínica dos sintomas e, quando apropriado, por biomarcadores funcionais.
É que a dosagem de B12 sérica mede a quantidade da vitamina que está flutuando na corrente sanguínea, mas isso não garante que ela esteja entrando adequadamente nas células e desempenhando suas funções.
Além disso, ao iniciar a reposição, os níveis costumam subir rapidamente, mas o aumento no sangue não prova por si só que houve recuperação. Por isso, 95% dos especialistas consideraram que o nível de B12 na circulação sozinho possui significado clínico incerto.
Portanto, para saber se as células realmente estão “passando fome” de B12, deve-se avaliar o ácido metilmalônico (MMA) e a homocisteína, substâncias que não conseguem ser metabolizadas quando a vitamina está em falta e se acumulam no sangue.
“Para os grupos de risco, mesmo que a B12 esteja normal, mas outros exames indicam deficiência funcional, é preciso tratar”, explica Cohen. “Mas isso não vale para a população em geral“, reforça.
+Leia também: Qual o melhor exame para detectar o seu nível de B12?
Nem todo mundo precisa de suplemento
Os médicos destacam que a maior parte das recomendações do consenso é destinada a pessoas dos grupos de risco ou com diagnóstico confirmado de deficiência de vitamina B12.
Já o restante da população não precisa se preocupar em suplementar o nutriente. “A população em geral, que não tem nenhum fator de risco para deficiência de B12, não deve tomar, porque vai perder tempo”, alerta Cohen.
Isso porque apesar da ideia popular de que quanto mais vitamina, melhor, quem já tem níveis normais pode acabar alcançando níveis suprafisiológicos se suplementar.
“Excesso de vitamina não traz nenhum benefício comprovado para a saúde. É provável, na verdade, que tenha malefícios“, diz Moura.
Os especialistas destacam ainda que, embora a falta de B12 possa causar cansaço constante, formigamento nas mãos e nos pés, falhas de memória e neuropatias, nem todo mundo com esses sinais tem, necessariamente, a deficiência.
Condições como a deficiência de ácido fólico ou mesmo o diabetes podem provocar os mesmos sintomas e, por isso, o diagnóstico deve descartar outras causas.
“Portanto, para ser enquadrado como alguém com deficiência de B12, é preciso ter um conjunto de sintomas e exames”, explica Cohen.
No mais, vale dizer as principais fontes de B12 estão na nossa alimentação. Ela pode ser encontrada, por exemplo, nos alimentos de origem animal, como fígado, mariscos, atum e salmão. Além disso, ovos, leite, queijos, iogurtes e aves também fornecem B12, embora em menor quantidade.
Leites vegetais, cereais matinais e alguns substitutos de carne costumam ser enriquecidos com a vitamina, mas nem todos, então vale conferir o rótulo. Por isso, para veganos e vegetarianos estritos, que não têm uma fonte natural de B12 na dieta, o ideal é consultar um médico ou nutricionista para avaliar as melhores estratégias de consumo.







