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Quase metade das pessoas com câncer teve tratamento afetado pela Covid-19

Levantamento do Instituto Oncoguia mostra que muitos brasileiros com um tumor foram afetados de alguma maneira pela pandemia de coronavírus

Por Theo Ruprecht - 30 jun 2020, 16h55

Uma das preocupações apresentadas por oncologistas é a de que o novo coronavírus (Sars-CoV-2), causador da Covid-19, levasse à interrupção do tratamento de câncer e a dificuldades no seu acompanhamento. Infelizmente, foi o que aconteceu com parte dos pacientes no Brasil, segundo uma pesquisa do Instituto Oncoguia.

No levantamento, 566 pessoas foram entrevistadas. Entre as 429 na fase ativa da terapia, 43% (184) contaram que seus tratamentos foram impactados pela pandemia. Isso vai desde o adiamento de consultas e exames até o cancelamento de cirurgias.

Também chama atenção o fato de que, dos pacientes com o tratamento afetado, 43% disseram que a decisão foi exclusiva do hospital ou da clínica. Em 12% das vezes, quem optou foi o paciente e em apenas 3% houve uma escolha compartilhada.

Presidente do Instituto Oncoguia, a psico-oncologista Luciana Holtz defende que o melhor cenário é o de decisão em conjunto. “O paciente deve entender que o risco de pegar o coronavírus existe, mas dá para ser minimizado. E que eventuais mudanças no tratamento não podem significar um agravamento da sua própria enfermidade. A melhor pessoa para falar sobre isso é o médico”, recomenda Luciana.

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Se qualquer mudança na estratégia de combate ao tumor precisa ser muito bem pensada, em indivíduos com cânceres avançados então, nem se fala. O tratamento não deveria ser interrompido sob hipótese alguma nesse contexto, segundo Luciana. “Estamos falando da possibilidade de diminuição de controle adequado de uma doença da qual não se fala mais em cura. Isso não pode acontecer”, alerta a especialista.

A pesquisa também revela que a região Norte foi a que mais sentiu as consequências da pandemia — 63% dos pacientes tiveram o tratamento comprometido. A região Sul foi a menos abalada (32%).

“Nós temos diferentes ‘Brasis’ dentro do nosso país. Sabemos das diferenças existentes na oncologia dentro do próprio Sistema Único de Saúde, o SUS”, comenta Luciana.

Os brasileiros com câncer atendidos pelo SUS, aliás, sofreram mais com a Covid-19. De acordo com o estudo, 60% deles se queixaram de problemas no tratamento, ante 33% da turma que recorre à rede privada.

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Existe luz no fim do túnel?

Luciana conta que, atualmente, as clínicas oncológicas e hospitais estão conseguindo se organizar para oferecer atendimento.

“Começamos a ver pacientes dizendo que estão sendo chamados para retornar. Outros estão sendo assistidos por telemedicina. E há lugares oferecendo horários alternativos para fazer radioterapia”, exemplifica.

Ela acredita que, além de tirar as dúvidas do paciente e garantir que seu trajeto até o hospital seja feito com cautela, as instituições devem informar de forma clara seus próprios protocolos de segurança.

Repercussão em outras esferas

A vida de uma pessoa acometida pelo câncer não se resume ao tratamento. Na pesquisa, 52% dos respondentes reportaram um desgaste no bem-estar emocional por causa da Covid-19. Já 46% reclamaram da vida social e 32%, da própria situação financeira.

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“Estamos falando de pessoas impactadas em diferentes pontos. Elas necessitam de mais cuidados com a saúde mental nesse momento”, finaliza Luciana.

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