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Morte no Ironman em Curitiba: entenda o que acontece com o corpo durante o esforço extremo

Atleta faleceu por parada cardiorrespiratória durante prova; especialistas explicam risco da sobrecarga física e como conhecer seus limites

Por Layla Shasta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
10 mar 2026, 14h08 •
Morte durante evento em Curitiba teria acontecido na etapa de ciclismo da competição.
Morte durante evento em Curitiba teria acontecido na etapa de ciclismo da competição. (Isabella Mayer/Prefeitura de Curitiba/Reprodução)
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  • Um atleta morreu neste domingo (8), em Curitiba, após sofrer uma parada cardiorrespiratória durante a competição de triatlo Ironman 70.3, uma das disputas de longa distância mais difíceis e famosas do mundo.

    Na capital paranaense, o percurso da competição contou com 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21,1 km de corrida, realizados de forma consecutiva e sem intervalos.

    Segundo a organização, o participante que não teve a identidade divulgada passou mal durante a etapa de ciclismo. Ainda de acordo com a equipe do evento, médicos prestaram atendimento ainda no percurso, mas ele não resistiu.

    O risco do esforço extremo para o coração

    Casos como esse, embora não sejam comuns, têm crescido com a popularização de esportes como as ultramaratonas. E levantam dúvidas sobre o que acontece com o corpo quando ele é levado ao extremo esforço.

    Para responder à questão, o cardiologista Agnaldo Piscopo adianta que atletas de alta performance, ao contrário do que muitos imaginam, estão mais vulneráveis a eventos cardíacos.

    “A preparação física extrema aumenta o risco cardiovascular. Isso já é algo bem estabelecido pela ciência”, explica médico, que é diretor do Centro de Treinamento em Emergências Cardiovasculares da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

    Estudos mostram que a incidência de morte súbita cardíaca em atletas é baixa, mas varia conforme a idade e o nível de competição. Uma pesquisa conduzida na Dinamarca, por exemplo, estimou que, entre esportistas amadores de 12 a 35 anos do país, ocorrem cerca de 0,43 caso por 100 mil atletas por ano. Entre 36 e 49 anos, a taxa sobe para 2,95 por 100 mil.

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    Já entre atletas competitivos — aqueles que treinam e disputam provas de alta intensidade ou que exige alta performance — o risco é maior. A incidência chega a 6,64 casos por 100 mil pessoas por ano entre 36 e 49 anos. Nos mais jovens, de 12 a 35 anos, a taxa cresce pouco, com cerca de 0,47 caso por 100 mil.

    Mesmo assim, episódios como o registrado em Curitiba continuam sendo considerados raros. Por outro lado, permitem questionar: como saber se o corpo está sendo levado além do limite seguro? A seguir, veja o que dizem especialistas da área de cardiologia e medicina do esporte.

    +Leia também: Morte súbita: o que está por trás das fatalidades em jovens atletas?

    O que acontece quando o corpo é exigido ao máximo

    Antes de entrar nesta seara, é preciso destacar que o corpo humano foi feito para se movimentar. Não à toa, a ciência mostra há décadas que a prática regular de exercícios reduz o risco de morte por todas as causas, o que inclui doenças cardiovasculares, câncer e problemas metabólicos. Portanto, os exercícios jamais devem ser desencorajados.

    Apesar dessas premissas, a morte súbita cardíaca pode ocorrer em indivíduos aparentemente saudáveis e os atletas não estão isentos dos riscos.

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    Entre esportistas com menos de 35 anos, a morte súbita costuma estar ligada à estrutura do coração, isto é, doenças cardíacas presentes desde o nascimento, como a cardiomiopatia hipertrófica.

    Já em atletas acima de 35 anos, a causa mais comum é a aterosclerose, caracterizada por placas de gordura nas artérias do coração. Essas placas podem bloquear a passagem do sangue e provocar um infarto.

     Além disso, entram os riscos ligados ao que acontece com o corpo quando ele passa a operar um nível fisiológico próximo do limite.

    “Durante provas de longa duração e grande exigência física, o corpo passa por adaptações fisiológicas importantes”, explica o médico do esporte Gustavo Starling Torres, coordenador do setor de atendimento a urgências em eventos esportivos da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE).

    Pense no organismo como um motor que subitamente é acelerado ao máximo. O coração dispara para bombear mais sangue e entregar oxigênio aos músculos. E o débito cardíaco — a quantidade de sangue que o coração precisa enviar para o corpo a cada minuto — pode se multiplicar em várias vezes em relação ao repouso.

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    Resumindo: “durante o exercício intenso, a pessoa pode desidratar, além de ocorrer inflamação e poder haver diminuição do fluxo de oxigênio para o coração por causa da grande demanda do esforço. Isso é o que chamamos de injúria miocárdica [estresse no músculo do coração]”, explica Piscopo.

    Para atender a essa alta demanda, o órgão precisa bater mais vezes e, com o passar do tempo, como todo músculo que trabalha demais, ele vai aumentando a espessura.

    “Esse processo pode favorecer o surgimento de arritmias [distúrbios no ritmo dos batimentos cardíacos]“, diz Piscopo.

    Ao mesmo tempo, exigir o máximo do organismo também provoca aumento da temperatura corporal. E o suor causa a perda não só de líquidos, mas também eletrólitos – minerais que regulam a hidratação do corpo – pelo suor e ativação intensa do sistema metabólico, segundo Starling.

    “Esse conjunto de respostas é normal para atletas treinados, mas em situações extremas pode gerar sobrecarga cardiovascular e alterações hidroeletrolíticas“, diz o médico do Esporte.

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    +Leia também: Entenda o problema cardíaco do jogador Oscar, do São Paulo

    Como praticar esportes com segurança e saber seus limites

    “Embora pessoas ativas tenham muito menos chance de apresentar fatores de risco ou ter doenças cardíacas já instaladas, isso não significa que estejam “imunes” a serem portadoras dessas condições desfavoráveis”, destaca Starling.

    Portanto, a prática de exercícios apesar de reconhecidamente benéfica pode ser um risco especial quando o esportista possui uma doença não diagnosticada, especialmente aquelas ligadas ao coração e à circulação.

    “Assim, obviamente, a prática esportiva, expondo o atleta a situações de estresse físico e alta demanda fisiológica, inclusive cardiovascular, pode ser o estopim para que problemas de saúde preexistentes compliquem, por vezes levando à morte“, atesta o médico.

    Karina Hatano, médica do Esporte no Einstein Hospital Israelita, reforça que mesmo atletas experientes não estão livres de riscos, ainda mais porque algumas doenças cardíacas podem passar muito tempo assintomáticas e sem diagnóstico.

    Por isso para a segurança, ela resume que a chave é a prevenção: “check-ups regulares, testes ergométricos e respeitar os sinais do corpo, como fadiga ou dor atípica”, orienta.

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    Piscopo também ressalta que cada indivíduo tem os seus próprios limites e o que é confortável ou não para o seu corpo. Por isso, o acompanhamento médico é tão importante antes da prática de qualquer tipo de esporte ou atividade física, mesmo entre os amadores.

    O cardiologista lembra que esportes intensos como triatlo e maratonas são considerados de maior risco cardiovascular. Mas não se deve esquecer que algumas pessoas podem ter um problema cardíaco mesmo com um esforço menor.

    Para o time dos atletas que participam de competições, Starling destaca que é importante fazer avaliações médica antes das participações em eventos.

    Essa avaliação, diz o médico, geralmente inclui uma análise detalhada da história clínica do paciente, exames físico e complementares, como o eletrocardiograma. Quando necessário, pode ser complementada por testes cardiológicos de esforço ou outros exames.

    Além disso, é importante prestar atenção a sinais de alerta, que incluem:

    • dor no peito
    • falta de ar desproporcional
    • tontura
    • desmaios
    • palpitações durante o exercício.

    +Leia também: Check-up de saúde anual: como fazer?

    Sedentarismo também cobra seu preço

    Os médicos alertam que, apesar dos riscos do extremo esforço, ficar parado não é uma opção mais segura para a saúde.

    Isso porque pessoas sedentárias têm probabilidade bem maior de desenvolver diversos problemas quando comparadas àquelas que se mantêm fisicamente ativas.

    Como consequência, elas também apresentam taxas mais altas de mortalidade geral – mesmo sem se expor aos esforços extremos de provas ou treinos intensos.

    Por isso, quem leva uma vida com pouca ou nenhuma atividade física também precisa ficar atento à própria saúde e manter acompanhamento médico regular.

    “O exame médico pré-participação pode trazer mais segurança aos praticantes de atividades esportivas, por ser capaz de detectar doenças ocultas e assintomáticas. Portanto, a inatividade física pode ser ainda mais perigosa“, avalia Starling.

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