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Entrevista: ‘Destruição na Amazônia ameaça a saúde de todos’

Marcia Castro, que lidera a faculdade de saúde pública em Harvard, reflete sobre como conviver com vírus que ficam e como nos preparar para os que virão

Por Fabiana Schiavon 27 abr 2022, 15h26

Há três anos, a cientista carioca Marcia Castro, doutora em demografia, tornou-se a primeira mulher latina a assumir o posto de professora titular na Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Hoje, ela é chefe do Departamento de Saúde Global e População da instituição, uma das mais tradicionais do país.

A cientista, de 57 anos, conversou com Veja Saúde sobre a ameaça das doenças vetoriais frente às mudanças climáticas e os desafios impostos pela pandemia de coronavírus.

Marcia falou sobre as consequências do fim da emergência sanitária, decretado no Brasil, entre elas uma possível redução de verbas e isenção de responsabilidades. Isso já ocorreu com o surto de Zika, que deixou de herança as crianças com microcefalia sem auxílio ou orientação formal.

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Por fim, baseada na experiências adquirida em suas décadas de estudos sobre malária, que ocorrem principalmente na região amazônica, Marcia lembra que o desmatamento e sua contribuição para as mudanças climáticas não terão consequências apenas locais, mas globais. Entre elas, o surgimento de novas pandemias.

O garimpo ilegal que tem explodido na região, colabora para o aumento dos casos de malária e intensifica o processo de destruição da floresta. É preciso agir agora para evitar uma próxima catástrofe sanitária mundial. Confira a conversa:

Veja Saúde: A senhora tem formação em estatística. Como começou o seu trabalho com saúde, especialmente com as doenças vetoriais como a malária?

Marcia Castro: Depois de um mestrado em demografia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) fiz um pós-doutorado na Universidade de Princeton. Lá tomei a decisão de voltar para a saúde, a área que sempre gostei. Foi quando descobri que havia uma pesquisa sobre malária no Amazonas conduzida pela minha orientadora no mestrado.

Eles estavam meio empacados e precisavam de ajuda. Resolvi tomar isso como desafio e comecei a analisar os dados utilizando imagens de satélite. Tudo começou a fazer sentido, encontramos o que estávamos deixando de fora, e o resultado foi minha tese, que abriu portas para continuar a estudar a malária.

De lá, voltei para o Brasil e me envolvi em projetos sobre dengue, zika e chikungunya. Tudo começa a ficar muito bacana porque quando trabalhamos com doenças vetoriais como essa entram as questões ambientais, sociais, econômicas, comportamentais e políticas.

O desmatamento e a exploração por garimpeiros só sobe. De que forma tudo isso têm impactado a região amazônica?

As regulações que tínhamos foram removidas, o garimpo ilegal está rampante e quebramos recordes de desmatamento mês após mês. Até em janeiro, que é tempo de chuva, os números subiram.

A Amazônia virou terra sem lei, o discurso de ‘passar a boiada’ aconteceu. Todas as áreas de garimpo tem aumento de malária. Além da destruição ambiental em si, começam a subir os números de mortes violentas, casos de HIV. Entre o triângulo Venezuela, Brasil e Guiana Francesa foi encontrado um marcador de resistência a medicamento.

Sem auxílio, as pessoas param de tomar o remédio quando a febre passa, há circulação de pílulas falsas…

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Não à toa, ocorre uma expansão da dengue na Amazônia também. Fora a possibilidade de ter outras coisas emergindo disso tudo. O trabalho do professor Pedro Fernando da Costa Vasconcelos é fantástico. Ele monitora a presença de vírus em animais e pássaros, e a lista é enorme.

Alguns desses micróbios já fizeram a transposição para os humanos, e há a probabilidade de ter um novo patógeno surgindo exatamente dali, por causa dessa destruição do habitat. Esses animais vivem perfeitamente com esses vírus lá, mas começa a ter aproximação do ser humano com essas áreas em função da destruição.

A situação na Amazônia é muito preocupante e esse é um dos anos mais importantes para o futuro do Brasil.

Quais as reais consequências das mudanças climáticas em relação às doenças vetoriais?

É uma coisa de longo prazo, se pensarmos apenas naqueles dois graus a mais de temperatura que podemos atingir em 2050. No caminho disso, contudo, já ocorrem coisas, como os eventos extremos, que têm impacto e estão se tornando mais frequentes e intensos, isso é fato. E eles são mais um fator a favor das doenças vetoriais, aliado às questões de comportamentais, econômicas e sociais.

O aumento de temperatura e a mudança no padrão de chuvas favorecem a expansão do território do mosquito. Ele vai viver mais meses nessas regiões e isso favorece a transmissão de outras doenças.

Nos eventos extremos você tem aumento de epidemias por muita chuva ou até muita seca – isso porque as pessoas passam a acumular água dentro de casa. A maior epidemia de dengue em São Paulo foi no início dos anos 1910, em tempo de seca.

Como esses danos regionais podem afetar o Brasil e o mundo?

O que acontece na Amazônia não fica na Amazônia, e muita gente não consegue ver isso. Grande parte da chuva que recebemos no sudeste vem de lá, dos chamados rios voadores.

Quantos mais árvores são cortadas, menos elas transpiram e nuvens deixam de ser formadas. Toda essa discussão sobre a savanização da região é sobre isso: outras localidades secam junto com ela. Há uma interligação entre o regime climático da região com o do mundo.

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Só a OMS pode decretar o fim da pandemia, mas o Brasil já planeja dar essa notícia [a entrevista foi feita antes do anúncio do Ministério da Saúde]. O quanto isso pode ser preocupante?

Quando algo deixa de ser uma emergência, deixam de existir os fundos emergenciais também. Tem tanta gente ainda desassistida. Já existe um programa nacional para saber o que esta ocorrendo em termos de Covid longa? Há novos doentes que nem consegue fazer essa conexão (de outras doenças que têm relação com a Covid).

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E o órfãos da pandemia? As crianças que perderam pai, mãe, avós e não tem cuidador. O que vai acontecer com essas crianças em termos de desenvolvimento social e infantil? Se você não tem uma assistência imediata, você pode comprometer o desenvolvimento e vai sentir lá na frente em relação ao capital humano, ou seja, na capacidade produtiva de uma nação.

No momento em que vira endemia fica parecendo que tudo está normal, esses fundos somem e com eles as necessidades de dar essas respostas.

Isso ocorreu com a Zika. O problema deixou de ser discutido, mas as crianças cresceram com má formação. Quem é o presidente depois de todo esse histórico, para dizer que estamos em uma endemia? O que isso significa isso em termos concretos? Ainda não temos medicamentos para tratar a Covid, e tem estados com baixa cobertura vacinal.

Por que? Fica essa ilusão de tirar a máscara, relaxar e a mensagem não pode ser essa.

A população precisa combater a dengue, a Covid e outras doenças ao mesmo tempo. De quem é a responsabilidade de evitar isso?

O Brasil costumava ter campanhas ótimas contra a dengue, com espaços em horário nobre nas principais emissoras. Nos anos 1990, as pessoas que o aedes aegypti era aquele mosquito com perninha listrada.

Tínhamos também o dia D, que todo mundo se reunia para limpar o parque, tirar bromélias, você era lembrado o tempo todo. E a prevenção da doença vetorial precisa de participação comunitária. Os criadouros de mosquito estão na casa das pessoas.

Ainda há uma grande diferença entre dar informação e levar à mudança de comportamento, o que é difícil, todos fazemos coisas erradas todos os dias. Por isso essas campanhas precisam ser constantes.

Além disso, você entrava no posto de saúde e encontrava cartazes sobre sífilis, tuberculose, Aids… Hoje, nem campanha para a própria Covid existe.

O esquecimento vem também porque as doenças desaparecem. Antes todo mundo conhecia alguém que tinha contraído HIV e morrido. A nova geração não conhece ninguém que morreu, porque existe tratamento. Lembro de estudar com um menino com ferros na perna, e minha mãe disse que ele teve pólio. Isso também não existe mais, e como consequência a cobertura vacinal está caindo.

Além disso, temos o crescente problema da desinformação sobre as vacinas. É preciso criar confiança na população e isso acontece quando a informação é homogênea.

Foi aprovada uma vacina para a malária. Por que ela não vai chegar no Brasil ainda?

A aprovação da vacina, em outubro do ano passado, foi um momento histórico. Ela só será ministrada na África, de crianças de 5 a 17 meses. A recomendação foi feita pelo epidemiológico do continente – o vírus que circula é da malária falciparum, e no Brasil a maioria é a vivax, que mata menos (são cinco tipos de parasitas diferentes).

Ela não é de alta eficácia, reduz mais ou menos 30% dos casos severos. Porém, se essa vacina conseguir reduzir a morte de crianças na África em um terço, já será um resultado fantástico porque 95% das mortes de malária do mundo estão lá.

O que ainda precisamos aprender com a pandemia do coronavírus?

As pessoas ainda estão preocupadas porque o que ocorre na Europa, na Ásia vem para cá. A BA.2 será complicada para nós? Ainda não temos resposta. Aqui, em Harvard, já foi dito que é opção usar máscara, mas eu vou continuar usando a minha.

Não vamos ficar usando máscara a vida toda, mas precisa ter mecanismo para detectar as coisas mais rápido e para contê-las também. Então precisamos pensar: O que vamos mudar para poder conviver com o coronavírus? Porque ele não vai embora.

Talvez seja como conseguimos fazer com a gripe. Mas todos estamos ainda bem perdidos, não chegamos a um consenso e ficamos que nem mola: aperta e solta, aperta e solta.

O que é preciso fazer para evitar as próximas pandemias?

Publicamos um estudo em que estimamos o custo financeiro da prevenção comparado com o custo estimado de epidemias ou pandemias.

São três coisas: vigilância viral em animais, melhor regulação do comércio de animais, que é uma loucura, e a redução do desmatamento pela metade.

Há muitos documentos sobre como reagir quando acontece, mas poucos com diretrizes para prevenção primária de eventos do tipo.

Uma das dificuldades, apesar de todo mundo saber que prevenir é melhor do que remediar, até economicamente, é o que chamamos em saúde pública de paradoxo do sucesso.

Se você fizer a coisa certinha, bem-sucedida, não acontece nada, não há mortes, não há manchete no jornal. Isso se torna um paradoxo porque para um político isso não tem efeito. Não causa comoção dizer que “salvamos dez mil vidas hoje”.

* a jornalista fez o curso “Inovação pós-pandemia: Gestão da Saúde no Século 21” e viajou a convite da Roche.

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