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Dor de dente: a verdade sobre o tratamento de canal

Pesquisadores cariocas mapeiam o jeito mais certeiro de acabar com a dor de dente tratando o canal

Foi-se o tempo em que resolver um canal demandava três, quatro peregrinações, às vezes dolorosas, até o dentista. E é no sentido de aprimorar ainda mais os procedimentos e seus resultados que um grupo da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, tem pesquisado as melhores formas de arrematar o suplício. “Queríamos saber qual o tratamento mais eficiente para eliminar a infecção que ataca a polpa do dente”, conta o dentista José Freitas Siqueira Júnior, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da instituição.

O senso comum prega que o canal é a morte do dente ou a ruína do nervo que mora ali. Mas “o termo se refere, na verdade, a um processo de inflamação e infecção na polpa dentro do dente e que, quando progride, pode levar à morte dessa estrutura e chegar até a raiz“, explica endodontista Giulio Gavini, de São Paulo. “As duas principais causas de canal são a cárie e traumas nos dentes”, conta o endodontista Mario Zuolo, da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas. Ou seja, a corrosão gradual ou a destruição das suas camadas externas abrem a brecha para os micróbios tomarem a polpa, cheia de vasinhos e terminações nervosas. “Por causa da inflamação, aumenta a pressão ali dentro, o que comprime o nervo e causa dor”, descreve Siqueira. Se o indivíduo demora para ir ao dentista – e não é à toa que até alguns prontos-socorros já dispõem de especialistas -, a contaminação leva à necrose, estágio em que a infecção avança dente abaixo e não raro gera abscessos. Daí os inchaços no rosto.

“Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 40 milhões de tratamentos de canal sejam feitos anualmente. Embora não tenhamos estatísticas precisas no Brasil, o número também deve ser expressivo por aqui”, acredita o endodontista Caio Ferraz. “Um trabalho recente na Região Norte do país mostra que uma em cada cinco pessoas já se submeteu ao procedimento”, completa.

Apaga o fogo e reforma a casa

Quando alguém chega ao dentista com o canal em crise, o tratamento se divide basicamente em abrir o dente e aliviar a dor infernal, desalojar as bactérias invasoras dali e, por fim, remendar sua área interna. No estudo da Universidade Estácio de Sá, conduzido com 80 pessoas, os especialistas buscavam identificar técnicas e medicamentos mais eficazes para que o tratamento ocorresse numa boa e não cobrasse complicações mais tarde. “Descobrimos que, após remover a polpa doente, quanto mais largos forem os espaços para introduzir depois o material de obturação, maior a chance de eliminar as bactérias”, relata Siqueira. Ele e seus colegas também notaram que é melhor tratar o canal em duas sessões quando a infecção toma conta da polpa – na primeira faz-se a faxina extraindo a área contaminada e, uma semana depois, instala-se a obturação definitiva -, embora existam casos em que uma única ida ao dentista seja suficiente. E ainda identificaram a substância antimicrobiana e o material de vedação mais duros na queda.

Dados como esses ajudam a nortear as operações e minimizar falhas que culminam na reincidência do problema. “Muita gente ainda teme que o tratamento de canal siga a regra dos três Ds: demorado, difícil e dolorido, o que é um engano”, garante Zuolo. “Hoje, com um profissional capacitado, em pouco mais de uma hora tratamos o dente”, pontua Siqueira. Ter esse cenário mais tranquilizador em mente é importante para que ninguém negligencie a invasão da polpa dentária. “O canal não tratado pode virar um foco de infecção capaz de causar abscessos até nas regiões das vias aéreas. E ainda há a possibilidade de as bactérias ganharem a corrente sanguínea e afetarem órgãos como o coração”, alerta Ferraz.

Prevenção

Toda informação é útil para deixar as técnicas odontológicas mais apuradas. O que, no caso da endodontia, significa salvar, sempre que possível, o arcabouço dentário – é claro que, às vezes, o dano é tão grande que pede a implantação de uma coroa. “Nosso objetivo é prevenir a extração do dente, e hoje, felizmente, as taxas de sucesso no tratamento de canal chegam a 95%”, diz Gavini. Quem não deseja enfrentar a dor violenta do canal nem ter de apelar ao dentista para apagar o incêndio e reformar o dente precisa aderir às regras básicas da higiene bucal: escovar e passar o fio depois das refeições e visitar o consultório odontológico pelo menos uma vez por ano. Afinal, apesar de tantos avanços, prevenir ainda é melhor que consertar.
Canal em dente de leite?

Pois é, o problema também pode afetar crianças pequenas e merece ser tratado. Por isso, os pais devem procurar um odontopediatra se o filho reclamar de dores na cavidade bucal, o que nem sempre é fácil de identificar. “Além de poder levar à perda do dente de leite, a infecção ali é capaz de comprometer a formação do dente permanente que está por vir”, alerta o dentista Caio Ferraz.
Viagem às profundezas do dente

O nome “canal” faz referência ao canal radicular, estrutura a partir da qual se estende a polpa, a parte viva do dente. Em função das camadas superiores (a dentina e o esmalte), essa área se mantém isolada. O problema acontece quando, devido à degradação desse escudo natural, bactérias atingem a polpa. É isso que cobra o tratamento de canal.

Veja também

O que é o problema de canal

1. Abriu-se a brecha

A cárie destrói aos poucos o esmalte e a dentina, as camadas externas do dente, permitindo que bactérias da boca invadam a polpa dentária, local repleto de vasos sanguíneos e terminações nervosas. Isso pode acontecer também com um trauma que quebra o dente.

2. Invasões bárbaras

Os micro-organismos desatam na polpa um processo inflamatório, que faz a pressão lá dentro aumentar a ponto de oprimir as terminações nervosas – eis a dor. Se nada é feito, a infecção evolui e leva à morte da polpa. Sitiando os meandros do dente, as bactérias ainda podem chegar à raiz.
Como funciona o tratamento
1. Bactérias caiam fora!

No tratamento, que pode ocorrer em duas ou mais sessões, o dentista usa equipamentos específicos para abrir o dente e fazer uma limpeza ali dentro, extraindo a polpa comprometida. Em seguida, aplica uma substância para matar de vez as bactérias.

2. A hora do restauro

Em um segundo momento, o especialista usa um material de obturação para rechear o espaço ocupado pela polpa, mantendo, assim, a carapaça do dente. Se a estrutura toda estiver muito danificada, é preciso instalar uma coroa para fazer as vezes do dente.

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