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Ioga para tod@s

Muitos brasileiros descobriram a prática milenar na quarentena. Ao equilibrar corpo e mente, ela melhora a imunidade, algo bem-vindo agora e lá adiante

Por Paula Desgualdo - 16 out 2020, 14h42

Em uma manhã fria de segunda-feira em São Paulo, a sala de aula virtual do professor Marcos Rojo, cofundador do Instituto de Ensino e Pesquisa em Yoga, estava cheia. Se fosse presencialmente, nas mesmas condições, ele calcula que talvez contasse com um terço do número de alunos, que ainda não estão saindo de casa para praticar. Nos últimos meses, Rojo tem reunido semanalmente cinco turmas de 80 estudantes, entre eles alguns que haviam se mudado para outros países.

“Nunca havíamos chegado à metade disso na academia”, conta. No início da pandemia de Covid-19 no Brasil, em março de 2020, ele não acreditava que seria possível garantir um nível de qualidade nos encontros diante da tela. Como muitos instrutores, no entanto, acabou se adaptando e já não pretende mais largar a modalidade remota, que permite alcançar um número maior de praticantes. “Acredito que existem prós e contras. Pode ser mais desafiador para quem está na própria casa manter a concentração com cachorro, criança e às vezes até televisão ligada”, analisa o professor.

Os tempos de confinamento parecem não só ter ampliado a rede de conexões de quem já estava familiarizado com o universo da ioga mas fez crescer o interesse de muitos brasileiros à procura de mais saúde física e mental, impactados tanto pela impossibilidade de manter uma rotina de atividade física como pela carga de ansiedade desse período. Dados do Google Trends mostram que, depois da segunda quinzena de março, houve um aumento médio de 25 pontos, em uma escala de 0 a 100, nas buscas relacionadas a ioga. Já a procura por “ioga online” no site foi 25 vezes maior no primeiro semestre deste ano do que no mesmo período de 2019.

Para Márcia Micheli, professora de hatha ioga há 21 anos, os números não surpreendem. “Ioga é uma porta de entrada para o encontro de você com você mesmo, e a pandemia mexeu com isso de uma maneira muito forte. As pessoas estão buscando recursos para lidar com o novo, com o medo, com as dificuldades em seus relacionamentos”, avalia. Na ioga, corpo, mente e espírito não estão separados e se refletem mutuamente. Entende-se, assim, que um estado de bem-estar não envolve só o aspecto físico nem exclusivamente o emocional.

O propósito original das posturas é garantir um fluxo de energia em camadas mais sutis da nossa fisiologia. “Buscar a saúde física por meio da ioga é uma coisa muito boa. Ela pode oferecer isso, mas também pode dar muito mais, abrindo o indivíduo para outras dimensões do seu ser”, defende a professora Micheli.

Roberto de Almeida Martins, tradutor para o português de um dos textos antigos mais famosos sobre técnicas de ioga, o Hatha-Yoga-Pradipika (Editora Mantra), lembra que as práticas indianas tradicionais descritas na obra há cerca de 500 anos têm pouca semelhança com aquilo que se costuma ensinar atualmente nas academias — o que alguns veem como um distanciamento da fonte e outros apenas como uma adaptação natural às necessidades dos novos tempos. As escolas do Ocidente concentram-se principalmente na prática de posturas físicas (asanas), com ou sem movimentos, exercícios de respiração (pranayamas), relaxamento e meditação, que é o objetivo central do conjunto de técnicas.

Independentemente do foco do praticante, com a constância os benefícios vão se revelando, em formas e ritmos variados para cada um. Aos poucos o corpo pode se mover com mais fluidez e flexibilidade, a qualidade do sono melhora, e a mente, que até então estava afogada em pensamentos, encontra algum descanso. Não quer dizer que incômodos, limitações, impaciências ou mesmo doenças desaparecerão de uma hora para a outra. Mas você ganha ferramentas para lidar com eles sem perder o apreço por si mesmo. Tudo isso a partir da sua própria experiência.

Dos textos sagrados às aulas online

O conhecimento da ioga foi transformado e adaptado por teóricos e praticantes ao longo da história.

Em busca das origens

Sem data de nascimento precisa e anterior aos primeiros registros de que se tem notícia, a filosofia da ioga remonta à Índia antiga e é explorada em textos clássicos como o Baghavad Gita, escrito em cerca de 400 a.C.

Disciplina espiritual

Mais que uma teoria, ela surge como um método para atingir a libertação espiritual. Outro texto importante, reunido nos Yoga Sutras de Patanjali, menciona oito práticas para isso, incluindo condutas éticas e morais.

Corpo, mente, respiração

As posturas físicas, mais conhecidas no Ocidente, vêm da hatha ioga indiana desenvolvida há cerca de mil anos. Executadas em sintonia com a respiração, elas preparam o corpo para meditar.

Descendentes remotos

As diversas correntes ensinadas no Brasil e em outros países foram criadas há menos de um século. Elas se baseiam em posturas da hatha ioga tradicional e, em alguns casos, da ginástica e dos exercícios de luta.

Cada vez mais pop

Nas últimas décadas, além de conquistar milhões de adeptos ao redor do mundo, a ioga passou a ser mais explorada no Ocidente pelo uso terapêutico, a partir das evidências científicas de seus efeitos no organismo.

A ioga e a imunidade

A propagação do novo coronavírus despertou a preocupação com o bom funcionamento do sistema imune, que nos defende desse e de outros patógenos. E até a ioga entrou nessa história. Em junho deste ano, o primeiro-ministro indiano, Nerendra Modi, deu uma declaração polêmica sugerindo que a prática ajuda a criar um escudo protetor contra o vírus. Em que pese o fato de que Modi faz uso político da ioga inclusive para suavizar as condutas autoritárias de seu governo, a associação da técnica com a melhora das defesas não está equivocada.

É o que indica uma revisão de 15 experimentos com hatha ioga publicada no Journal of Behavioral Medicine. Ao examinar amostras de sangue e de saliva dos praticantes, os cientistas observaram uma resposta imunológica à ioga, com destaque para a redução no nível de inflamação do corpo. Os programas avaliados duravam de oito a 12 semanas e a frequência dos alunos variava de semanal a diária, por 30 até 90 minutos.

Isso indica que a prática regular modula a imunidade, reforçando uma ação inteligente das células de defesa e atenuando processos inflamatórios, o que vem a calhar diante da Covid-19 ou qualquer outra infecção.

Deni Galdeano, professor de anatomia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e coordenador do Instituto de Yoga Gurukula, na capital paulista, explica que, quando existem muitos fatores estressantes na rotina, o organismo entra em um estado de autoproteção, como se estivesse constantemente em alerta, mesmo sem nenhum perigo à vista. “É como se a gente ficasse com o motor do carro ligado, acelerando em ponto morto. Faz gastar óleo e hiperaquecer, assim como o corpo, que vai gastar mais energia”, compara. Dessa forma, pode faltar combustível para o sistema imune atuar direito.

Pesquisas mundo afora apontam que a ioga, por outro lado, estimula o sistema nervoso parassimpático, aquele ativado em estados de tranquilidade e que ajuda a restabelecer nossas forças de defesa. “Não é que a ioga reduza o estresse, mas ela aprimora a nossa capacidade de administrá-lo”, diferencia Galdeano.

Com essa noção em mente, fica fácil entender por que outros estudos associam a prática ao controle dos níveis de cortisol (o hormônio do estresse) e à melhora de sintomas de ansiedade e depressão. Não à toa, o método é sugerido como terapia complementar nesses distúrbios psicológicos — sem nenhum efeito colateral, diga-se.

Para que a imunidade trabalhe da melhor forma, o organismo precisa estar em equilíbrio. E é isso o que a ioga procura. Veja: não é que quem pratica não pega o vírus (nem há pesquisas comprovando isso), mas o corpo estará mais bem preparado para enfrentá-lo.

O equilíbrio das posturas também vale ouro para os músculos e o esqueleto, recrutando braços, pernas, coluna, quadril… “Uma prática boa e eficiente é aquela que respeita a amplitude das articulações”, ressalta Galdeano. Sim, não precisa ter um corpo atlético ou superflexível para fazer ioga. Respeitando as limitações de cada indivíduo, a prática é também inclusiva e democrática.

Para começar e seguir em frente

Tudo o que é novo demanda abertura e empenho para ser inserido na rotina. Veja o que ajuda nesse caminho:

Conte com orientação

É fundamental buscar um instrutor e receber informação de alguém que vivenciou a prática. Condições prévias precisam ser levadas em conta. Os autodidatas correm o risco de se machucar.

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Escolha o que combina com você

Existem linhas, tipos de aula e professores para os mais variados perfis. Procure um lugar em que você possa ser você e uma metodologia de que goste. Hoje há mais opções de programas e aulas online.

Esqueça a performance

Não há um lugar a ser alcançado nem um modelo de execução. Está tudo bem se você não encosta o dedão do pé na orelha. A ioga trabalha com aquilo que encontramos no momento da prática.

Dentro do real, faça o possível

Escolher um espaço mais silencioso dentro de casa e manter disciplina diária, mesmo que de curta duração, facilita bastante a introdução da ioga na rotina. O mais importante é adequar à sua realidade.

Troque experiências

Os encontros com o mestre ou outros praticantes estão contemplados na tradição. Compartilhar dúvidas e desafios com os colegas é um estímulo para continuar evoluindo. A família pode se engajar também.

Atividade democrática

Artista do corpo, atriz, cantora e ioguer, como ela mesma se apresenta, Mônica Augusto se empenha justamente na desconstrução de imagens ainda disseminadas como a do “ideal” de um corpo iogue escultural e contorcionista. “Ioga é como a gente preenche o corpo de dentro para fora. A forma é consequência”, defende.

Em suas aulas, agora online, ela trabalha na perspectiva de acolher todos os públicos, como pessoas trans, obesos, negros e gestantes, a preços acessíveis, porque acredita que viver em comunidade faz parte dessa sabedoria ancestral. Mônica, que também é parceira do projeto Yoga para Todes, idealizado por Vanessa Joda, tem um olhar realista e sincero para as possibilidades de incluir a prática na vida. “Às vezes as pessoas perguntam: tenho que fazer todo dia? Você não tem que fazer nada. Mas a frequência é o que vai trazendo uma continuidade da conexão”, explica.

Marcia De Luca, estudiosa de ioga, meditação e ayurveda há mais de 40 anos, também notou que as pessoas estavam mais desequilibradas por causa da pandemia e buscando formas de balancear o bem-estar físico e mental. Na quarentena, ela havia oferecido quatro cursos, e seus alunos pediram para a instrutora dar continuidade ao grupo de interações após o encerramento da jornada. A partir de então, decidiu criar a Comunidade do Despertar, que oferece aulas de ioga e encontros com conteúdos sobre os temas que estuda. Para participar, basta se inscrever pelas redes sociais.

Saber de tantos benefícios, e que eles estão disponíveis para qualquer pessoa, talvez crie a ilusão de que a ioga é uma solução milagrosa para todos os problemas — o que, não custa dizer, está longe de ser realidade. Por trás daquelas imagens de posturas complexas sendo executadas em paisagens meditativas, saiba que sempre há um indivíduo se encontrando com os próprios desafios, limitações e outros dilemas internos.

“Eu sempre digo aos meus alunos que a gente tem que seguir o trio maravilha: intenção, pois sem ela não vamos a lugar nenhum; disciplina, porque é preciso repetir para construir um novo hábito; e paciência, porque as coisas não acontecem de um dia para o outro. Acho que sozinho fica mais difícil, por isso abri essa comunidade”, relata a professora Marcia De Luca.

“Todo mundo pode fazer ioga. Não existe contraindicação para relaxamento, respiração ou posturas. Só é preciso fazer adaptações orientadas”, complementa o professor Rojo. Para quem está começando, uma das maiores dificuldades, segundo Galdeano, é manter a concentração. E é justamente ela que diferencia a ioga de atividades e modalidades apenas corporais, já que a prática física é considerada um caminho para chegar a um estado concentrado da mente.

Não menos importante, a respiração é o veículo que nos conduz por esse caminho. Na hora de escolher o melhor tipo de ioga para você entre as muitas opções oferecidas, vale contemplar esses pilares e buscar uma escola ou instrutor que leve em conta todo esse sistema de conhecimento que, entre outras coisas, trabalha com posturas. E confiar na sua percepção. O resto virá com a prática.

O que a ciência também diz

Conheça outros efeitos da prática de ioga na saúde que vêm sendo estudados no Ocidente nos últimos anos.

No cérebro

Muitas pesquisas publicadas atualmente se debruçam sobre técnicas de meditação da ioga, que aparecem associadas desde ao bem-estar psicológico até a formação de novas conexões entre os neurônios.

Nas emoções

A prática de meditação, assim como a de posturas e exercícios respiratórios, tem sido defendida como tratamento complementar para ansiedade, depressão e dores crônicas.

Na coluna

A ioga já foi comparada por cientistas americanos à fisioterapia e a exercícios de alongamento e força, e se mostrou eficaz no alívio de dores nas costas, sobretudo na lombar.

No coração

Uma revisão do Instituto Cochrane aponta que a ioga pode reduzir a pressão e os níveis de triglicérides, tornando-se uma prática cardioprotetora.

No sono

Na última reunião anual da Associação Americana de Oncologia Clínica (Asco), um experimento com 740 pacientes em tratamento contra o câncer coloca uma prática de hatha ioga como aliada no controle da insônia.

Para todas as idades

Cada vez mais expostos aos estímulos da vida on e offline, crianças e adolescentes também podem se beneficiar do contato com a ioga. As práticas ajudam a perceber a conexão entre pensamento e respiração e a observar as sensações que surgem ao fechar os olhos e se colocar em posturas diferentes. Sempre, claro, respeitando os interesses individuais, a faixa etária e as habilidades motoras.

Alguns livros podem servir de inspiração e apoio para a prática, reunindo histórias e ensinamentos filosóficos ou propondo experimentar algumas posturas, sem deixar de lado a brincadeira. É o caso do recém-lançado O Pequeno Yogue (Editora Caminho Suave), voltado a crianças pequenas. Tem também O Dente de Leite de Ganesha (Caramelo), As 14 Pérolas da Índia (Brinque-Book) e Vamos Brincar de Estátua? (Companhia das Letrinhas). Outra boa referência é o projeto Yoga com Bichos, uma proposta pedagógica voltada para a consciência corporal e o autoconhecimento, que conta com belos materiais gráficos, como baralho, máscaras e também um livro.

 

 

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