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Como anda sua saúde mental? O psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira, membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e cocriador da consultoria Relações Simplificadas, reflete sobre as questões da mente humana para lidarmos melhor com os desafios do mundo de hoje

Entre prazer e bem-estar, o que você escolhe?

Se você está em busca de uma vida mais equilibrada e saudável, é importante refletir sobre essa questão

Por Francisco Nogueira 27 jun 2026, 07h00
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Prazer e bem-estar não são equivalentes (akinbostanci/Getty Images)
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Entre prazer e bem-estar, o que você escolhe? Priorizar nos meus resultados Google

Prazer e bem-estar parecem, muitas vezes, caminhar lado a lado em nosso imaginário e no senso comum. Nada mais enganoso.

O mundo de hoje, que tenta vender saúde e equilíbrio a partir de soluções simplórias e “inovadoras” vem tentando gourmetizar o bem-estar dando-lhe uma roupagem de prazer, o que desconsidera todo ensinamento freudiano. Na busca por resultados, as pessoas acabam comprando gato por lebre.

É compreensível que muitos procurem saídas rápidas ou até milagrosas, uma vez que conquistar bem-estar é um processo de longo prazo pouco atraente para os indivíduos apressados, ansiosos e impacientes que somos nos dias de hoje.

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Mas buscar o bem-estar pela via do prazer muitas vezes produz mal-estar e frustração, além de uma confusão que não ajuda as pessoas a sustentarem todo o trabalho necessário para a conquista de uma vida saudável.

Para desfazer essa confusão de consequências tão frustrantes, vale o exercício de revisão das diferenças entre uma coisa e outra.

O que Freud tem a dizer sobre o prazer

Freud sustentou que o prazer é um princípio de funcionamento do nosso psiquismo, mecanismo em grande medida inconsciente e que não obedece necessariamente às necessidades adaptativas do organismo.

É comum, por exemplo, que seres humanos extraiam prazer de vivências antagônicas ao bem-estar, à segurança e à preservação da vida. Por exemplo: quem nunca comeu e bebeu além do necessário porque a refeição estava uma delícia, ou ficou até tarde em uma festa divertida e depois teve que se haver com as consequências do dia seguinte?

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Poderíamos dizer, em forma de certa generalização, que a lógica da vida cotidiana que sustenta o bem-estar é, muitas vezes, inversa à lógica que busca o prazer.

Imediatismo do prazer versus conquista do bem-estar

O prazer possui um apelo de maior imediatismo do que o bem-estar, posto que pode ser alcançado por via de estímulos intensos e breves, com efeitos passageiros e de alta magnitude. O consumo de certas substâncias como o açúcar, por exemplo, é seguido de sensações prazerosas, agudas e fugazes, mas com consequências potencialmente nocivas para o nosso bem-estar.

Por sua vez, a conquista do bem-estar se dá na extensão do tempo. Requer constância de comportamentos e a capacidade de sustentar escolhas muitas vezes desprazerosas, como manter uma dieta saudável ou uma rotina de exercícios físicos. Neste sentido, o bem-estar é uma conquista; o prazer, um mimo.

Sustentar um bom relacionamento é uma prática de bem-estar, pois exige investimentos afetivos de longo prazo e a superação de diferenças e desavenças entre pares. Já as relações líquidas (como diria o sociólogo Zygmunt Bauman) não demandam dos sujeitos tais investimentos.

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Os encontros fugazes, passageiros, não fazem apelo à construção de um ambiente de bem-estar para todos os envolvidos, pois atendem apenas à lógica do prazer.

Freud ensina que o prazer pode estar a serviço da pulsão de morte. Por outro lado, podemos pensar o quanto o bem-estar pode representar uma expressão da pulsão de vida. Neste sentido, quando excedem limites ou estão associados a comportamentos nocivos, os prazeres podem resultar em vícios, fragmentação psíquica e afastamento da realidade, prejudicando a saúde física e mental.

O bem-estar pode oferecer um desconforto inicial, como uma escolha saudável na hora da alimentação ao invés de uma escolha prazerosa, a prática de exercícios físicos ao invés do sedentarismo, a busca por terapia ou a decisão de ir dormir sem passar qualquer tempo diante das telas antes do sono.

Mas costuma ser acompanhado de benefícios, podendo ter efeitos terapêuticos, gerando maior autocuidado e integração psíquica. A disciplina do bem-estar tende a fortalecer a saúde física e mental, ainda que não seja fácil ou óbvia.

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Prazer e bem-estar podem — e devem — coexistir

As lógicas do prazer e do bem-estar não são necessariamente excludentes. Relacionamentos de bem-estar, por exemplo, possuem muitos momentos de prazer e dependem desses momentos para se tornarem sustentáveis.

Prazer e bem-estar são estados imprescindíveis para uma vida saudável e não devemos renunciar a nenhum dos dois tipos de experiências. O que não podemos é comprar a ilusão neoliberal de que podemos alcançar o bem-estar apenas com escolhas prazerosas e fáceis.

O bem-estar é um direito de todos, mas também uma conquista árdua e muitas vezes coletiva que, infelizmente, muita gente prefere abrir mão se houver um quinhão de prazer em jogo.

Portanto, se você busca uma vida de bem-estar e vive esbarrando nas dificuldades deste caminho, lembre-se que uma solução para enfrentar esse desafio pode estar em equilibrar o trabalho em busca do bem-estar com momentos de prazer, sem idealizações ou confusões entre uma coisa e outra.

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