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O psiquiatra Alexandre Valverde tem diagnóstico de autismo e um mestrado em filosofia na bagagem. Neste espaço, conversa sobre neurodivergência e assuntos em alta no universo da saúde mental

Superdotação: quantos talentos ainda estão fora do jogo?

Novo projeto de lei pode transformar a identificação de superdotados no Brasil, mas a invisibilidade dessa condição ainda deixa milhões fora do jogo

Por Alexandre Valverde 23 jun 2026, 17h20
superdotados
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 5% da população tenha altas habilidades em algumas áreas (Deagreez/Getty Images; Ilustrações: Estúdio Tigre/Veja Saúde)
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Superdotação: quantos talentos ainda estão fora do jogo? Priorizar nos meus resultados Google

A bola gira sob os pés do jogador antes de ser rapidamente reconduzida num drible e dirigida ao gol por um chute preciso que a faz subir pelo alto das cabeças dos jogadores que tentavam formar barreira. O balanço da rede revela o ponto conquistado. Festa geral.

Essa cena deve ser repetida nas próximas semanas enquanto o mundo estará com os olhos voltados para os estádios do México, Canadá e Estados Unidos para a Copa do Mundo de Futebol.

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Habilidades como tempo de reação mais rápido, grande capacidade de visão periférica e grande precisão para tomada de decisão são diferenciais importantes para atletas de elite como jogadores de seleções.

Essas características também são observadas em pessoas com altas habilidades e superdotação e revelam que as grandes capacidades do cérebro não se expressam somente por meio de aptidões intelectuais, mas também por destreza motora excepcional, profusa criatividade e grande excitabilidade sensorial e afetiva.

+Leia também: Entre a meta e a medalha: psicóloga olímpica fala sobre sucesso e saúde mental

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A superdotação invisível

Tendemos a esperar, de maneira equivocada, que uma criança ou um adulto superdotado sejam excêntricos, que falam difícil e passam o dia divagando sobre teoremas. Isso também pode acontecer, mas não é a regra geral.

O mais comum é a superdotação ficar invisível para a maior parte das pessoas, inclusive as próprias superdotadas, não obstante sua agudeza de visão e capacidade de aprendizado, como alguém que tivesse a visão borrada toda vez que se olhasse no espelho.

Esse problema é tão difundido que, hoje, dos 4 a 10 milhões de superdotados estimados do nosso país, apenas pouco mais de 56 mil estudantes foram identificados, segundo o censo de 2025.

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Imaginemos a quantidade de artistas, esportistas, engenheiros, médicos, terapeutas, empresários, mas também pedreiros, cozinheiros, líderes comunitários, estagiários, motoboys, cabeleireiros que sequer sabem que podem fazer parte desse grupo, embora notem, desde crianças, que são pessoas diferentes mesmo que não saibam dizer o porquê.

Superdotados estão em todo o país e em todas as classes sociais. São pessoas de todas as idades. Os preconceitos que temos invisibilizam essa condição.

O projeto de lei que pode mudar o jogo

Esse cenário deve mudar com o Projeto de Lei 1049/26, que já tramitou na Câmara e Senado e segue para sanção presidencial. Este projeto procura mudar este estado de coisas, propondo a criação de um cadastro nacional, alimentado pela identificação precoce, com foco em aspectos socioemocionais e não somente desenvoltura cognitiva.

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A dupla-excepcionalidade, ou seja, a presença de uma ou mais neurodivergências associadas à superdotação (autismo, TDAH, dislexia, discalculia e outros transtornos do aprendizado) deve ser ativamente buscada através de avaliação clínica biopsicossocial ou neuropsicológica.

O Projeto de Lei também versa sobre a aceleração e flexibilidade de ensino, que deve se adaptar às aptidões, necessidades, interesses e limites da pessoa superdotada. Um trabalho dessa monta demanda a estruturação de centros de referência que devem criar uma rede nacional para cumprir essa tarefa hercúlea.

Quantas pessoas ainda estão fora deste jogo?

Talentos do futebol são buscados ativamente pelos olheiros. O que se está criando no país é algo que pode ampliar nossa visão e nos ajudará a revelar os matizes de possibilidades de expressão das capacidades de nossas pessoas superdotadas.

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No dia em que isso acontecer, encheremos mais de 50 estádios do Maracanã, numa projeção tímida de 4 milhões de pessoas, e quiçá mais de 120 arenas lotadas, se pudéssemos encontrar todos os 10 milhões de brasileiras e brasileiros excepcionalmente sensíveis e inteligentes.

Hoje lotamos pouco mais da metade das arquibancadas. Quantas pessoas ainda estarão fora deste jogo?

 

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