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O legado e a medalha simbólica de Simone Biles nas Olimpíadas

Ginasta americana que deixou algumas competições de lado para se restabelecer emocionalmente traz lições para a comunidade esportiva e toda a sociedade

Por Maria Isabel Azambuja da Cunha e Ingrid Cancela, psicólogas*
28 ago 2021, 09h44

A ginasta americana Simone Biles, de 24 anos, encantou o mundo ao conquistar cinco medalhas, quatro delas de ouro, nos Jogos do Rio em 2016. Na expectativa de vê-la brilhar em Tóquio, a atleta chamou a atenção do mundo para outro tema, a saúde mental. A pergunta que fica é até quando será necessário chegarmos ao extremo para entender que o cuidado com a saúde mental e emocional é prioridade em todos os âmbitos?

Ao desistir de parte das apresentações, Simone Biles expõe o olhar limitado da sociedade diante das capacidades mentais e emocionais para alcançar resultados. Ao longo do ciclo olímpico – e este foi de cinco ao invés de quatro anos e com uma pandemia no meio –, os atletas sofreram com pressão, lesões, dor, perdas e renúncias.

Mais do que abraçar e entender a saúde mental, precisamos focar na prevenção. É fundamental que o atleta receba um acompanhamento especializado contínuo na escola, em seu clube, em sua seleção.

Assim como os treinos e competições, o acompanhamento psicológico precisa fazer parte da rotina do atleta de todas as modalidades. O objetivo é possibilitar que o bem-estar emocional impacte positivamente em sua qualidade de vida e isso vai se refletir, inclusive, no rendimento nos torneios.

Esse processo costuma ser silencioso, mas há sinais para os quais podemos estar atentos. Os principais são perda de qualidade do sono, oscilações de humor frequentes, histórico de doença mental na família, excesso ou falta de apetite constante, procrastinação de compromissos importantes, dificuldade frequente em se concentrar em tarefas, déficit de atenção e memória, dificuldade de relacionamentos, isolamento social, alterações de comportamento, diminuição da motivação para atividades que antes eram prazerosas, assim como sentimento de incapacidade e pensamentos negativos recorrentes.

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Após anunciar a desistência da competição em alguns aparelhos, Simone Biles competiu na final da trave e ficou com o bronze. Porém, a sua grande conquista no Japão foi o legado de dar visibilidade para a importância de reconhecermos os limites. Não há superatletas, mas sim seres humanos.

O atleta profissional, que treina arduamente todos os dias, também apresenta limites e eles precisam ser respeitados e percebidos desde cedo. Caso contrário, vícios emocionais vão sendo criados e podem trazer prejuízos a longo prazo.

Há uma cobrança da sociedade com relação a resultados em vários aspectos da nossa vida. O olhar do espectador é de que o atleta é uma máquina, esquecendo das suas fragilidades emocionais, dos seus medos e da sua própria expectativa.

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O fato é que, por trás da autoexpectativa, estão os medos inerentes ao ser humano. E é em momentos assim que atletas de alta performance podem se sentir ainda mais fragilizados, por temerem não corresponder a milhares de pessoas ao redor do mundo, da sua própria equipe, familiares, amigos, treinadores e patrocinadores.

A coragem de Simone Biles nos certifica de que os limites humanos precisam ser respeitados. Não devemos esquecer de nos reconhecer como “seres humanos comuns” nesse processo, não apenas como alguém que precisa alcançar e mostrar resultados.

* Maria Isabel Azambuja da Cunha e Ingrid Cancela são psicólogas da TopMed, empresa especializada em telessaúde e telemedicina

 

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