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Álcool e câncer de mama: até uma taça conta

Reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, inclusive o vinho, é uma forma possível de prevenir o câncer de mama, alertam especialistas da SBOC

Por Clarissa Baldotto e Daniele Assad, oncologistas* 26 out 2026, 11h50
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Não há dose segura de álcool, concluem estudos atualizados (Ana Cossermelli/Veja Saúde)
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Quando falamos em prevenção do câncer de mama, algumas recomendações já fazem parte do cotidiano das mulheres. Falamos sobre atividade física, controle do peso, conhecimento do próprio corpo, atenção aos sinais e sintomas e importância do diagnóstico precoce.

Há, porém, um fator de risco modificável sobre o qual ainda falamos menos do que deveríamos: o consumo de álcool.

E é preciso incluir o vinho nessa conversa.

Durante muito tempo, uma taça de vinho esteve associada quase exclusivamente a imagens positivas: celebração, gastronomia, relaxamento e até saúde. Mas, quando o assunto é câncer, a evidência científica exige uma conversa mais cuidadosa.

O que a ciência diz sobre álcool e câncer de mama

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classifica as bebidas alcoólicas como carcinogênicas para humanos, Grupo 1, e reconhece uma relação causal entre o consumo de álcool e diferentes tipos de câncer, entre eles o câncer de mama feminino.

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Isso não significa que uma mulher que bebe vinho desenvolverá câncer de mama. Câncer é uma doença multifatorial, influenciada por idade, genética, fatores hormonais, ambientais e comportamentais.

A maioria das mulheres que desenvolvem câncer de mama, inclusive, não apresenta história familiar conhecida da doença.

O que a ciência nos permite afirmar é outra coisa: o álcool aumenta o risco, e esse risco cresce à medida que aumenta o consumo. Estudos avaliados pela IARC mostram uma relação dose-resposta, inclusive com consumo moderado.

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+Leia também: 10 fatos sobre os danos do álcool — e o que está sendo feito para combatê-los

Vinho, cerveja ou destilado: o vilão é o etanol

Talvez o aspecto menos conhecido dessa discussão seja que o organismo não distingue o álcool de uma taça de vinho daquele presente na cerveja ou em um destilado como imaginamos culturalmente.

Do ponto de vista do risco de câncer, o elemento central é o etanol. Por isso, vinho, cerveja e destilados estão incluídos na recomendação de redução do consumo.

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Existe uma dose segura de álcool?

Também não podemos afirmar que existe uma quantidade de álcool completamente segura para a prevenção do câncer.

O World Cancer Research Fund conclui que mesmo pequenas quantidades podem aumentar o risco de alguns tumores e recomenda, especificamente para prevenção do câncer, que o melhor é não consumir álcool. Para o câncer de mama, a entidade aponta aumento de risco tanto antes quanto depois da menopausa.

Isso muda a maneira como devemos comunicar prevenção.

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Não se trata de culpabilizar mulheres por seus hábitos nem de transformar uma taça ocasional em motivo de medo. Risco não é destino.

Trata-se de garantir que cada mulher tenha informação suficiente para fazer escolhas conscientes sobre um fator de risco que, diferentemente da idade ou da herança genética, pode ser modificado.

Quanto menos álcool, menor o risco

E há uma mensagem prática importante: quanto menos álcool, menor o risco. Reduzir já é uma escolha relevante. Não é necessário transformar a discussão em uma oposição simplista entre beber ou nunca mais beber.

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Para uma mulher que toma vinho diariamente, por exemplo, diminuir a frequência ou a quantidade já significa reduzir sua exposição ao álcool.

Para quem não bebe, não há razão, do ponto de vista da prevenção do câncer, para começar a beber em busca de supostos benefícios à saúde.

Por que o álcool aumenta o risco de câncer de mama

Há mecanismos biológicos que ajudam a explicar essa associação. Quando metabolizamos o etanol, produzimos acetaldeído, substância capaz de interferir no DNA e em seus mecanismos de reparo.

O álcool também pode influenciar os níveis de estrogênio, hormônio relacionado ao desenvolvimento de determinados cânceres de mama, além de participar de outros processos biológicos associados à carcinogênese.

O tamanho do problema no Brasil

No Brasil, essa discussão ganha especial importância diante da dimensão da doença. O INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028.

Excluídos os tumores de pele não melanoma, ele continua sendo o câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras. Outubro Rosa Brasil tem quase 79 mil novos casos de câncer de mama por ano e SBOC defende campanhas de prevenção permanentes.

Não temos como modificar todos os fatores envolvidos no desenvolvimento de um câncer de mama. Não podemos mudar nossa idade ou nossa história genética. Mas podemos agir sobre alguns fatores de risco — e o consumo de álcool está entre eles.

Por isso, precisamos começar a falar sobre a taça de vinho com a mesma naturalidade com que falamos sobre atividade física e outros hábitos relacionados à prevenção.

*Clarissa Baldotto é presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), e Daniele Assad é diretora da SBOC

Manual anticâncer: 14 formas de evitar a doença

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