Slam: quais os riscos do uso injetável de drogas em relações sexuais?
A prática inclui diversas substâncias e está intimamente ligada ao chamado sexo químico ou "chemsex”

Ao longo da História, a utilização de substâncias psicoativas teve diversos intuitos, como o de busca por bem-estar ou alterações da consciência. Nos últimos anos, as drogas têm ganhado espaço no contexto das relações sexuais.
Poderíamos abordar o consumo indiscriminado de medicamentos para disfunção erétil, como tadalafila ou sildenafila, vendidos livremente em farmácias, mas o problema é ainda mais grave.
Estamos falando da aplicação de diversos tipos de substâncias diretamente na veia antes e durante o sexo. A prática, chamada slam ou slamming, em referência ao “bater” em inglês, apresenta diversos riscos à saúde.
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O que é slam?
Slam é o nome dado a um modo específico de usar drogas, pela via injetável de substâncias no organismo, prática geralmente associada ao contexto de festas ou encontros sexuais.
“Os usuários injetam drogas recreativas diretamente na veia, buscando intensificar os efeitos, principalmente os que envolvem euforia, aumento da libido e resistência física”, resume o o farmacologista Lucas Gazarini, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
“A prática começou a ser relatada há mais de 10 anos, e parece especialmente frequente entre homens que fazem sexo com homens e na comunidade LGBTQIA+”, acrescenta.
Vale contextualizar que não existe uma regra sobre quais substâncias são utilizadas. Como o slam diz respeito à forma de aplicação, qualquer composto, legal ou ilícito, pode estar envolvido.
“Comumente, algumas substâncias estimulantes são mais usadas, como metanfetamina ou ‘cristal’, cocaína, ecstasy e mefedrona, que podem aumentar a energia, desejo sexual, euforia e desinibição”, elenca o professor.
O especialista destaca ainda a existência de estudos que descrevem o uso de alguns compostos sedativos, como o GHB (Gama-hidroxibutirato) e a ketamina, que podem produzir efeitos calmantes e dissociação, ou a sensação de se estar fora do corpo.
“Alguns medicamentos vendidos legalmente também podem ser usados, como a sildenafila, para disfunção erétil, benzodiazepínicos, como calmantes e sedativos, entre outros”, pontua Gazarini.
Existe ainda a possibilidade de combinação de elementos, os chamados “cocktails”, que podem conter duas ou mais drogas, aumentando o risco de interações, reações graves, overdose e morte.
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Efeitos do slam
A via injetável, chamada pelos profissionais de saúde de terapia endovenosa, é uma das formas mais rápidas e potentes de fazer com que uma droga aja no corpo. Por isso, trata-se de um recurso amplamente utilizado no contexto hospitalar, de maneira segura e controlada, por especialistas.
“Algumas das substâncias presentes no slam já são usadas, legalmente ou ilicitamente, por outras vias de administração, como a oral ou inalatória. Ao dispor desses mesmos compostos por via injetável, a tendência é que o pico de efeito seja mais alto e obtido mais rapidamente”, detalha o farmacologista.

Sexo químico ou chemsex
O slam está intimamente ligado ao chamado “chemsex”, também conhecido no Brasil como “sexo químico”. Os praticantes recorrem às drogas com o objetivo de turbinar experiências e sensações, geralmente por longos períodos, como horas ou até dias.
“Em geral, o slam acaba sendo adotado como forma de aumentar a libido, prolongar o prazer e conferir sensações de poder e conexão que, para algumas pessoas, parece melhorar a experiência sexual”, aponta o professor da UFMS.
Conhecer os efeitos gerados por cada uma delas ajuda a entender a escolha pelas principais substâncias incluídas nesse contexto.
• Metanfetamina: ação estimulante, aumenta energia, resistência física e vigor, interfere diretamente no desejo e foco durante as relações.
• Mefedrona: reduz inibições, vergonha, timidez e inseguranças, além do efeito euforizante e estimulante.
• GHB: também reduz inibições, aumenta a libido, com ações “afrodisíacas” relatadas.
• Ketamina: traz efeitos dissociativos, promove sensações “extracorpóreas” e momentos alucinógenos.
Riscos
A aplicação de qualquer tipo de substância no corpo por conta própria através da veia apresenta uma série de riscos. O procedimento feito em unidades de saúde ou farmácias, por exemplo, conta com uma série de cuidados para evitar contaminações ou erros na técnica de injeção.
Infecções
O problema começa logo na aplicação, como explica a médica Letícia Jacome, clínica geral do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
“O compartilhamento de seringas contribui para a disseminação de doenças infecciosas, como hepatites B e C, além do HIV. que pode levar a diferentes infecções. O usuário de drogas injetáveis também apresenta maior risco de desenvolver pneumonia”, detalha Jacome.
“Problemas com a assepsia e higienização podem favorecer infecções secundárias, gerando feridas, inflamações e até trombose”, acrescenta o farmacologista.
Overdose
O rápido acesso à corrente sanguínea potencializa o risco de overdose, devido à falta de controle sobre as doses administradas. Uma mesma dose usada por via oral pode ser letal por via injetável, por exemplo.
Vale destacar que uma substância obtida em mesma quantidade de fontes diferentes pode ter concentrações distintas do composto ativo, aumentando o risco de overdose por pequenas variações na dosagem.
“Como o efeito também é muito rápido, o tempo de reação para busca de ajuda pode ser menor, dificultando o atendimento médico quando ele se torna necessário. A sensação de perda de controle pode dificultar ainda mais a busca por socorro”, enfatiza Gazarini.
Dependência
Outro ponto é a maior probabilidade de dependência, porque o efeito imediato pode aumentar o impulso pelo uso repetido, levando a um padrão abusivo.
Contaminação
No contexto das drogas ilícitas, não existe qualquer tipo de controle sobre pureza, abrindo espaço para a contaminação por micro-organismos e substâncias tóxicas.
Problemas vasculares
Em alguns casos, é comum que o produto em comprimido seja esmagado para que se torne um pó colocado na seringa e misturado com soro fisiológico.
“Se pequenos cristais e pós não dissolvidos completamente forem injetados, existe risco de interrupção da corrente sanguínea em pequenos vasos e comprometimento de órgãos, como infarto cardíaco e isquemia cerebral”, acrescenta o professor da UFMS.
Morte
Por fim, quando substâncias são misturadas em cocktails, os problemas aumentam devido à interação de substâncias. Os efeitos podem se somar, potencializando as chances de morte.
Considerado um grave problema de saúde pública, o consumo de drogas ganha novos e perigosos contornos quando aliado às práticas sexuais.
“Muito além do prazer momentâneo, os danos têm potencial grave e duradouro, envolvendo problemas neurológicos e emocionais, isolamento social e depressão pós uso, desenvolvimento de dependência química e padrão de uso abusivo de substâncias, maior vulnerabilidade a ISTs e chance aumentada de abuso sexual e violência em geral”, conclui Gazarini.