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Guenta, Coração Por Blog Médicos, nutricionistas e outros profissionais da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) explicam as novas (e clássicas) medidas para resguardar o peito

O ‘retorno’ de uma velha pandemia que nunca passou

Principais causas de morte no mundo, as doenças cardiovasculares podem ser prevenidas com ajustes no dia a dia. Mas muita gente abdicou dos cuidados

Por João Fernando Monteiro Ferreira, cardiologista* Atualizado em 1 out 2021, 10h38 - Publicado em 29 set 2021, 10h13

Até o final de agosto, o mundo registrava mais de 213 milhões de casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus e o número de óbitos beirava os 4,5 milhões. O cenário sem precedentes, que impactou o planeta, paralisou o tratamento de muitos pacientes acometidos por outras condições, entre elas as doenças cardiovasculares (DCVs), principais responsáveis por mortes no mundo.

Para ter ideia, 18,6 milhões de pessoas morrem por ano em decorrência delas, e 520 milhões de indivíduos convivem com o mal.

No Brasil, não é diferente: as DCVs são as que mais matam, assinando 27,65% do total de óbitos, o equivalente a 400 mil pessoas ao ano. Entre as doenças do grupo, destacam-se o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC), que ocupam o primeiro e segundo lugares desse ranking, respectivamente.

Na esfera global, ambas as patologias vitimam fatalmente mais de 15,2 milhões de indivíduos todos os anos, permanecendo como líderes nos últimos 15 anos. O principal vilão aqui é a dislipidemia (anomalias nos níveis de gordura no sangue, como o colesterol elevado), por trás de 51% dos infartos.

De acordo com a edição mais recente da Diretriz de Prevenção Cardiovascular, embora as taxas de mortalidade estejam diminuindo no Brasil – possivelmente como resultado de políticas de saúde bem-sucedidas –, o número total de pacientes está aumentando, principalmente devido ao envelhecimento e adoecimento da população. Portanto, as DCVs caracterizam uma espécie de “pandemia perene”, cuja “vacina” atende pelo nome de prevenção.

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Porém, o medo da infecção da Covid-19 fez muitos cardiopatas desfocarem do problema. O resultado foi o abandono de tratamentos clínicos ou cirúrgicos, pausa nas atividades físicas, alimentação desequilibrada, excesso do consumo de cigarros, além de descontrole do peso, da pressão arterial, do colesterol e do diabetes.

Em outras palavras: para alguns, a crise sanitária foi um álibi para renunciar a cuidados essenciais para manter as DCVs sob controle.
Só que há maneiras de se cuidar e, ao mesmo tempo, seguir os protocolos recomendados, que minimizam o risco de contaminação pelo novo coronavírus: o uso da telemedicina ao invés de comparecer às consultas presenciais e a prática de exercícios em casa são exemplos.

Se para a população em geral o ideal é não ter contato com o vírus, é fato que o grau de proteção deve ser redobrado entre aqueles com doenças pré-existentes, uma vez que, comprovadamente, a infecção da Covid-19 pode evoluir de forma mais grave nesse grupo. Mas largar mão de medidas protetivas sob esta égide definitivamente não fecha a conta.

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Escore de risco cardiovascular

A sociedade e os governos precisam se conscientizar de que a “epidemia coronária” também deve ser encarada como inimiga a ser combatida: um evento agudo, por exemplo, é a primeira manifestação da doença aterosclerótica em aproximadamente metade das pessoas que apresentam essa complicação.

A vantagem é que os vilões cardiovasculares podem ser desarmados antes de entrarem em campo. E uma das estratégias é a identificação dos indivíduos assintomáticos, mas com predisposição para desenvolverem o problema. Nesses casos, é importante investir em um trabalho de prevenção efetivo, com a correta definição de metas terapêuticas.

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Por conta dessa realidade e para estimar a gravidade das DCVs, foram criados os chamados escores de risco para o agravamento da doença. O escore de risco global (ERG) inclui a possibilidade de ocorrência de eventos coronarianos, cerebrovasculares, doença arterial periférica ou insuficiência cardíaca (IC) nos próximos dez anos.

Foram considerados quatro níveis de risco:

  • Risco muito alto: para aqueles que apresentam doença aterosclerótica significativa (coronária, cerebrovascular ou vascular periférica) com ou sem sintomas.
  • Risco alto: pacientes com aterosclerose subclínica (sem sintomas), aneurisma de aorta abdominal, doença renal crônica e LDL (colesterol “ruim”) elevado.
  • Risco intermediário: portadores de diabetes mellitus, sem doença aterosclerótica ou renal.
  • Risco baixo: pessoas em risco intermediário, mas não diabéticos, sem histórico familiar de doença coronariana prematura.

A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) tem se manifestado junto ao Ministério da Saúde para ampliar a proteção cardiovascular da população, apoiando medidas como a aferição do colesterol em crianças e adolescentes; o uso de tecnologias que permitam diagnóstico precoce na saúde pública; ampliação do quadro de vacinas, como a da gripe, que pode ter ação preventiva para infarto; além de campanhas de conscientização sobre dietas saudáveis e a importância de colocar o corpo em movimento.

Essas são as vacinas baratas, se compararmos aos custos sociais, emocionais e financeiros que as DCVs representam para a sociedade.

Agora em setembro, mês do Dia Mundial do Coração (29/9), a Socesp tem promovido diversas ações de conscientização para a população sobre os fatores de risco para o coração e como preveni-los, com entrevistas com especialistas, postagens informativas, artigos, vídeos e podcasts. Visite o nosso site.

*João Fernando Monteiro Ferreira é presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)

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