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O mal-estar psíquico em tempos de coronavírus

Psicanalista lança mão de ideias de Freud para refletir sobre o impacto do isolamento social em nosso bem-estar mental

Por René Góes, psicóloga* - Atualizado em 20 abr 2020, 14h28 - Publicado em 19 abr 2020, 10h22

Sigmund Freud, no livro O Mal-Estar na Civilização (clique para comprar), já discutia o fato de que existe uma oposição entre os impulsos do indivíduo e as regras de um estado ou comunidade. Da opressão aos desejos do sujeito nasceria a sensação de um constante mal-estar.

Valiosa até hoje, essa ideia propõe uma saída para entender o choque entre desejos e vontades de uma pessoa e as expectativas da sociedade. Sociedade que ignora os sintomas e o sofrimento advindos das relações, da maldade com a natureza e da deterioração e decadência do corpo e da mente.

Resultados diversos se imprimem como consequência disso: desde a busca pelo alto grau de punição até a negação da compreensão e do papel desse indivíduo na sociedade. Ele aceita os comandos e as barbaridades sem refutar. E pode receber como resposta a desigualdade social, a falta de liberdade de expressão e a distância das ideologias.

Trata-se de um movimento de alienação que impede sua saída desse mal-estar. Em tempos de Covid-19, a discussão se reatualiza: como se isolar, sem adoecer corpo e mente, dentro de uma sociedade que colabora com essa tensão e o mal-estar psíquico?

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O isolamento social previne o avanço da doença, mas o medo passa a fazer parte da nova dinâmica das nossas vidas. A saída é — respeitando o distanciamento social, evidentemente — indignar-se e trazer pra a consciência os atos e as vivências do isolamento. Provar posições libertárias através dos pensamentos para encontrar defesas contra um vírus que adoece o corpo e também a mente.

Não é possível negar essa fatalidade. A população está aprisionada na falta de escuta e na falta de realização de seus desejos. São tantos sentimentos que a reclusão psíquica desemboca num sofrer inconsciente e consciente e desperta a sensação de uma morte anunciada.

Um conjunto de sofrimentos, antes aliviados no trabalho ou no movimento das ruas, agora se perpetua sob o poder do medo. Nesse momento, podemos optar pela direção de priorizar as conexões profundas e significativas em nossas vidas ou nos perder na ignorância e ausência de ideias e utopias.

Precisamos escutar para entender os sons e a vida ao redor, tudo que humaniza ou maltrata. Digerir o que parece pequeno e escolher as armas para lutar por uma vivência e sociedade sem mal-estar. Do contrário, adoeceremos pelos orifícios do corpo ou pelo derramamento psíquico.

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O isolamento é também oportunidade de resgate: para entender o que foi/ é perdido, acessar as necessidades básicas e lidar com frustrações e medos (da saúde, das finanças…) São fatores objetivos e subjetivos que aterrorizam as escolhas de cada um há muito tempo e mostram que o sujeito continua andando em círculos e com medo de ser exilado dentro da sua própria mente. Reflita e fique em casa!

* René Cacique de Góes é psicanalista e psicóloga clínica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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