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Coronavírus: estudo avalia uso precoce de hidroxicloroquina e azitromicina

O experimento, conduzido pela Prevent Senior, indica uma redução no número de internações por coronavírus. Mas cientistas criticam a qualidade da pesquisa

Por Theo Ruprecht - Atualizado em 18 ago 2020, 10h47 - Publicado em 17 abr 2020, 18h57

Há tempos, a Prevent Senior anunciou que realizaria uma pesquisa sobre o uso conjunto dos remédios hidroxicloroquina e azitromicina nos primeiros dias de sintomas após a infecção do novo coronavírus (Sars-CoV-2). Os resultados acabaram de sair e indicam uma redução na necessidade de internações após esse tratamento.

Mas a metodologia do estudo recebeu duras críticas de dois cientistas ouvidos por SAÚDE. De acordo com ambos, os resultados apontados não são confiáveis e não devem ser utilizados como argumento para utilizar essa combinação contra a Covid-19.

Um resumo do estudo em si

Pacientes atendidos pela Prevent Senior que estavam em casa, mas apresentavam há mais de três dias sintomas suspeitos da Covid-19, a doença causada pelo coronavírus, foram convidados a participar do experimento. No total, 636 voluntários, com média de 62 anos de idade, aceitaram.

O combo hidroxicloroquina e azitromicina foi oferecido a todos: 412 toparam receber o tratamento em casa, enquanto 224 se recusaram. Todos foram acompanhados diariamente por telemedicina.

Resultado: 1,9% do grupo que tomou os comprimidos necessitou de internação, contra 5,4% do que não os engoliu (um número 2,8 vezes maior). Os benefícios seriam maiores quando os participantes iniciavam o tratamento antes do sétimo dia do surgimento dos sintomas.

“Nesse primeiro momento, nos concentramos no efeito sobre a taxa de hospitalização por entendermos que esse é um grande problema do coronavírus. Isso porque ele leva um número considerável de pessoas ao hospital, o que pode sobrecarregar os sistemas de saúde”, defende o médico Pedro Benedito Batista Junior, diretor-executivo da Prevent Senior. “Um tratamento que reduza esse índice ajudaria muito no combate à pandemia”, arremata.

O estudo ainda não foi publicado em um periódico científico. Isso significa que não passou por uma avaliação técnica de outros especialistas, que poderiam apontar limitações, erros e ajustes.

Durante a pandemia atual, está se tornando mais comum ver a divulgação de pesquisas antes dessa sabatina científica, assim por dizer. Daí porque pedimos a dois pesquisadores independentes avaliarem o artigo publicado pelo time da Prevent Senior.

A questão do diagnóstico de coronavírus

Os voluntários recrutados, por mais que apresentassem sintomas como tosse, febre e cansaço, não foram submetidos a exames moleculares que confirmam a presença do Sars-CoV-2. “Algumas dessas pessoas poderiam ter gripe. O diagnóstico virológico é mandatório para discernir a efetividade de um remédio antiviral”, critica o virologista Paulo Brandão, da Universidade de São Paulo.

Segundo ele, conduzir um experimento com um “diagnóstico provável” só gera incertezas. “Para mim, isso seria motivo de negação da publicação desse estudo em uma revista científica”, arremata.

Natalia Pasternak, bióloga e presidente do Instituto Questão de Ciência, concorda. “Nós não sabemos se eles trataram a Covid-19, ou se trataram gripe, resfriado, rinite alérgica, asma”, enumera.

A questão dos voluntários

Pesquisas tradicionalmente utilizadas para garantir a eficácia de um tratamento dividem aleatoriamente os participantes entre o grupo submetidos aos medicamentos e os que servem de controle. Já na investigação da Prevent Senior, os próprios voluntários escolheram o grupo em que desejavam estar.

“Isso gera um viés. A pessoa pode ter escolhido tomar o remédio porque acredita muito nele. E o efeito placebo tem poder”, afirma Natalia. Ela ainda lembra que a repercussão na mídia sobre a hidroxicloroquina e a azitromicina é enorme, o que contribuiria para o efeito placebo.

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Além disso, o voluntário talvez tenha aceitado receber o tratamento por apresentar sintomas um pouco mais intensos ou prolongados — ele estaria mais disposto a testar um fármaco sem comprovação científica para evitar uma internação.

“Mas a presença de mais sintomas poderia significar que o coronavírus tenha infectado esse indivíduo há mais tempo e, portanto, estaria mais perto de ser eliminado pelo seu organismo”, complementa. Se fosse o caso, ele teria uma chance maior de não ser internado, porque seu corpo já haveria passado a fase crítica da infecção.

Em outras palavras, a forma de recrutamento dos voluntários e o fato de eles escolherem qual estratégia seguir levantam dúvidas sobre a confiabilidade do resultado da pesquisa.

De acordo com Natalia, seria possível resolver essas limitações fazendo uma divisão aleatória entre os grupos e oferecendo um tratamento placebo para uma turma, sem que nenhum voluntário saiba o que está tomando e nenhum médico saiba quem recebeu e quem não recebeu a hidroxicloroquina e a azitromicina.

Há trabalhos assim sendo feitos nesse momento. “Mas nós queremos oferecer respostas mais rápidas à população com esse artigo”, argumenta Rodrigo Barbosa Esper, médico que liderou a pesquisa da Prevent Senior. Ele afirma que o seu próprio time está participando de levantamentos mais robustos.

O virologista Paulo Brandão também criticou a grande diferença no número de pessoas em cada grupo — 65% dos voluntários receberam a medicação. “Imensas discrepâncias nesse sentido diminuem a confiança nos testes”, aponta.

Esper responde: “Nós não queríamos excluir do estudo as pessoas que tomaram o tratamento por uma questão metodológica e para não sermos criticados por selecionar ativamente os escolhidos”.

De acordo com Natalia, uma solução seria sortear, entre os tratados, quem seria considerado e quem não seria considerado para a pesquisa. Isso eliminaria a necessidade de uma escolha ativa dos pesquisadores, ao mesmo tempo em que equipararia o número de participantes em cada turma.

A questão do benefício decorrente do tratamento

O trabalho indica uma redução no número de internações em pessoas com suspeita de infecção pelo coronavírus. “Mas não sabemos o que acontece dali em diante”, ressalta Natalia. Em outras palavras, a pessoa pode ter entrado em um dia no hospital e saído no outro. Ou ter sido entubada. Ou, infelizmente, morrido. Conhecer essas informações ajudaria a verificar o real efeito de tomar hidroxicloroquina e azitromicina.

A presidente do Instituto Questão de Ciência afirma também que, como os médicos sabiam quem recebia as medicações, poderiam tender a acreditar que esses indivíduos estariam mais protegidos das complicações da Covid-19. E, com isso, solicitariam menos internações. Virando o lado da mesma moeda, os profissionais também poderiam pedir mais hospitalizações ao grupo que não ingeriu as drogas.

“Nós temos uma indicação clara para quando internar os pacientes”, defende-se Esper. No artigo, são citados dois critérios: saturação de oxigênio abaixo de 90% e piora geral da condição de saúde (não há mais detalhes sobre esse critério).

Já Paulo Brandão discordou do trecho em que o artigo da Prevent Senior alega que não foram encontrados efeitos colaterais sérios. “Em 16,5% dos casos tratados, observou-se diarreia. Idosos debilitados com esse problema podem desidratar rapidamente”, aponta.

A hidroxicloroquina, em comparação com a cloroquina, de fato apresenta menos reações adversas no uso prolongado. Daí porque pessoas com doenças crônicas, como lúpus, recorrem e ela, e não à cloroquina. “Mas mesmo a hidroxicloroquina pode gerar arritmias cardíacas, o que deve ser considerado”, complementa Natalia.

Além dessa pesquisa, outras tantas vêm sendo conduzidas para testar a efetividade e a segurança de vários tratamentos tidos como promissores contra o coronavírus. Ainda não há um estudo que comprove o potencial da hidroxicloroquina e da azitromicina, seja em pacientes que estão começando a apresentar sintomas ou naqueles com casos graves. O próprio artigo da Prevent Senior conclui: “Ainda não há estudos randomizados, duplo-cegos e com controle de placebo que provam a efetividade dessas drogas no tratamento da Covid-19”.

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