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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Contar mortos não resolve: é preciso impedir a circulação do coronavírus

Para conter a Covid-19, especialista discute a necessidade de testagem rápida assim que surgem alguns casos de coronavírus em uma região

Por Guilherme Ambar, CEO da Seegene do Brasil* 8 Maio 2021, 09h41

A preocupação brasileira com a evolução do número de mortes pela Covid-19 e, mais recentemente, com a percentagem da população que recebeu a vacina não vai levar ao controle da epidemia no curto prazo . O Brasil deveria seguir o caminho dos países que tiveram êxito no bloqueio do surto, como a China e a Coréia do Sul, cuja estratégia foi centrada na localização — e eliminação — dos focos de infecção, através de testes RT-qPCR em áreas escolhidas criteriosamente.

A difusão do coronavirus está descontrolada no Brasil porque não há uma preocupação das autoridades em combater o vírus nas áreas onde ele predomina. O exemplo típico é o que acontece em Sapopemba. O distrito de São Paulo registra o maior índice de casos da capital paulista: 18 827, com 667 mortes (mais do que as registradas em 626 cidades do Estado).

Esses dados, fartamente divulgados pela mídia, indicam que o maior foco de infecção da cidade é essa região com 286 mil habitantes. Não há dúvida de que centenas de moradores de Sapopemba estão infectados e, a cada manhã, se deslocam para outras áreas da cidade, espalhando o vírus.

Tanto a Coreia do Sul como a China e outros países asiáticos enfrentaram problema idêntico. A diferença é que, quando da simples suspeita de que um bairro teria alto índice de contaminados, foi feita a testagem em massa da população local, identificando precisamente onde era maior a incidência do vírus — seja num mercado a céu aberto, num conjunto habitacional, numa escola ou nos passageiros de determinada linha de ônibus.

Identificada a predominância do vírus, o próximo passo foi vacinar toda a população da área, não priorizando faixas etárias, pessoas com comorbidades ou apenas profissionais de saúde. Feita a imunização, em duas semanas cada foco estava controlado e o vírus deixou de se disseminar. E, é claro, essas regiões impunham medidas de lockdown, restringindo a movimentação dos cidadãos e o monitoramento dos infectados.

Voltando ao caso de São Paulo, do ponto de vista de prevenção de casos e mortes, seria mais eficaz vacinar toda a população de Sapopemba do que distribuir o mesmo equivalente de doses para os grupos prioritários da cidade inteira.

O mesmo poderia ter sido feito com maior eficácia no caso de Araraquara, também no Estado de São Paulo, que registrou um surto importante, medido como é usual pelo número de internados e mortos.

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A resposta das autoridades, e eficiente por sinal, foi o lockdown, que permitiu uma rápida melhoria da situação. Elas não se preocuparam, porém, em identificar os focos de onde vinha o vírus e muito menos na vacinação da população da região.

Para identificar os focos, o caminho seria a testagem em massa com o RT-qPCR, que está disponível em grande quantidade no Brasil e cuja aplicação seria rápida, permitindo a montagem de um mapa dos pontos críticos nos quais o vírus precisa ser combatido.

  • A identificação rápida de focos da Covid-19 também permite a construção de hospitais de campanha, que precisam ser móveis e se ajustar às necessidades locais da pandemia. No ano passado, concentraram muitos desses centros na capital paulista. Campinas, por exemplo, teve que mandar doentes para São Paulo, já que a cidade no interior do estado estava com hospitais lotados.

    O programa de aplicação de testes rápidos e o isolamento dos focos de contágio foi feito em determinada área do Brasil, entre tribos indígenas, mas passou despercebido das autoridades responsáveis. A empresa que dirijo, a Seegene do Brasil, participou dessa experiência de sucesso muito antes da primeira vacina estar disponível no país. O programa foi aplicado pelo Instituto Raoni em 48 aldeias de 11 etnias de Mato Grosso, onde no ano passado a pandemia matou quatro índios.

    Os responsáveis nos aldeamentos nos contataram para pedir a doação de 1 900 testes. Em menos de uma semana, esses exames permitiram identificar 787 índios que estavam positivos. Na inexistência de vacina ou de hospital na mata, foram feitos isolamentos por onde o vírus estava circulando, o que bloqueou a dispersão e manteve a saúde da população local durante vários meses, até que as vacinas chegassem. Deu certo.

    No Brasil como um todo, entretanto, as pessoas só insistem na necessidade de conseguirmos mais vacinas rapidamente. Isso está correto, mas não basta. E não basta porque vamos demorar muitos meses, provavelmente mais de um ano, para imunizar toda a população. Enquanto isso, pouco é feito para impedir a circulação do vírus no curto prazo.

    O uso de máscara, o distanciamento físico e a lavagem constante das mãos também ajudam muito. Mas repito: isso não basta. É necessário usar os testes para identificar os focos de onde o vírus se espalha e vacinar em massa os habitantes desses locais. Na Ásia deu certo. Está na hora do Brasil fazer o mesmo.

    *Guilherme Ambar é biólogo e CEO da Seegene do Brasil

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