Assine VEJA SAÚDE por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Rastreamento de contatos: o que é e como ele ajuda a conter o coronavírus

Detectar pessoas com coronavírus e monitorar quem interagiu com elas pode reduzir o ritmo de novos casos, ainda mais com a flexibilização da quarentena

Por Maria Tereza Santos
23 jun 2020, 19h13

Recentemente, saíram notícias de que a Nova Zelândia e, anteriormente, o Vietnã, conseguiram superar a primeira onda da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2). O que eles fizeram para alcançar isso? Além de testagem em massa, conscientização da população e adoção do isolamento social, ambos os países lançaram mão de uma política intensa de rastreamento de contato.

A enfermeira Ethel Leonor Noia Maciel, especialista em epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que essa medida começa com a identificação e o isolamento de uma pessoa com Covid-19. O profissional, então, pergunta por onde ela andou e com quem teve contato mais próximo.

A partir daí, procura ativamente esses indivíduos e pede para que eles adotem uma quarentena de 14 dias (contando desde o dia do contato com o infectado original) e fiquem de olho em quaisquer sintomas. Se, durante alguma dessas conversas, o rastreador de contatos notar que o sujeito já está com sinais do novo coronavírus, vai precisar descobrir com quem ele interagiu recentemente. E a busca vai avançando dessa forma, às vezes com apoio de aplicativos e outras tecnologias que facilitam o acompanhamento.

Só um detalhe: o rastreador não precisa caçar qualquer pessoa que cruzou rapidamente pelo caminho do infectado. Sua atenção vai se concentrar nos contatos mais prolongados, que geram um maior risco de contaminação. É o amigo que conversou por um tempo na porta de casa, o companheiro de escritório, os familiares que o encontraram para um almoço em família…

Continua após a publicidade

O rastreamento de contatos, em resumo, vai tirando de circulação os doentes e parte dos indivíduos que interagiram com ele e, por isso, podem carregar o Sars-CoV-2 sem nem saber.

O método não precisa necessariamente ser feito em um país, estado ou cidade. Dá para aplicá-lo dentro de empresas, escolas e condomínios, por exemplo. Mas será que ele é efetivo mesmo em um país enorme como o Brasil, em que o coronavírus já se disseminou do Norte ao Sul?

O rastreamento de contato no Brasil

“O uso dessa estratégia já é comum para enfrentar outras doenças infecciosas, como a tuberculose”, adianta Ethel.

A enfermeira participou de um estudo recente que propõe um modelo de rastreamento no país utilizando recursos já existentes no Sistema Único de Saúde (SUS) contra o novo coronavírus.

A pesquisa é reflexo de um trabalho anterior, relacionado justamente à tuberculose e feito em Vitória (Espírito Santo). Nesse estudo mais antigo, com dados de 2003 a 2007, a meta era entender a cadeia de transmissão da bactéria causadora dessa enfermidade. Ou seja: checar quem passou para quem. Na época, os cientistas constataram que era prudente que os profissionais de saúde monitorassem quem morava em um raio de 2 mil metros dos infectados para impedir a expansão da doença efetivamente.

Continua após a publicidade

“Com a pandemia, a gente começou a pensar em um jeito de adaptar essa ideia para enfrentar a Covid-19, até porque a tuberculose tem a mesma via de transmissão”, relata a professora. Embora menos contagiosa, a tuberculose também é espalhada por gotículas respiratórias.

Segundo o novo modelo criado por Ethel e seus colegas, os agentes comunitários de saúde do SUS, que já passam regularmente nos bairros domiciliares, deveriam visitar com mais frequência regiões onde habitam portadores do Sars-CoV-2 (ou moradores que infelizmente morreram por causa dele). O ideal seria testar essa turma e, nos casos positivos, solicitar uma quarentena ainda mais rígida.

“A gente já tem uma organização similar no programa de Saúde da Família. O que precisaria é de um aporte financeiro maior para contratar novas equipes e melhorar o que existe”, complementa Ethel.

Continua após a publicidade

A profissional acredita que essa medida é essencial no nosso país, ainda mais no cenário atual de contínuo aumento de casos, reabertura do comércio e flexibilização do isolamento. Seria uma forma de minimizar o impacto do aumento da circulação de pessoas no avanço da pandemia.

“Nessas visitas, os profissionais também poderiam utilizar o oxímetro. É um aparelhinho colocado no dedo que avalia a saturação do oxigênio no sangue”, acrescenta Ethel. Índices baixos de O2 na circulação sanguínea sugerem a presença do coronavírus, mesmo sem sintomas claros — um fenômeno chamado de hipóxia silenciosa.

Isso possibilitaria identificar pacientes que podem evoluir para a forma grave da Covid-19, se não forem tratados precocemente.

Continua após a publicidade

Ethel pede ainda que o governo ofereça os recursos necessários para que indivíduos de classes socioeconômicas mais baixas possam fazer o isolamento, tendo um mínimo para sobreviver. “Sem renda, eles vão continuar trabalhando e contaminarão outras pessoas”, alerta.

De acordo com ela, o Brasil deveria ter investido mais em medidas que impedem a transmissão do coronavírus — e não só em hospitais de campanha e mais leitos de UTI. O isolamento social abrangente e o rastreamento de contatos são grandes aliados nesse sentido.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

A saúde está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA SAÚDE.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja Saúde impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 12,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.