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Como funcionam as vacinas mais avançadas contra o coronavírus

Oxford, Sinovac e outras: conheça as candidatas mais bem posicionadas na corrida por uma vacina que evite a Covid-19 — e quando podemos ter uma disponível

Por Chloé Pinheiro - Atualizado em 8 jul 2020, 17h34 - Publicado em 22 jun 2020, 14h05

Quanto tempo ainda falta para termos uma vacina contra o coronavírus (Sars-CoV-2)? E qual a possibilidade de ela chegar depressa ao Brasil? O quão eficaz seria? Estão aí algumas das perguntas que VEJA SAÚDE mais tem recebido. E elas são tão importantes quanto difíceis de responder categoricamente.

Apesar dos avanços recentes nas pesquisas, os imunizantes contra a Covid-19 mais avançados ainda precisam passar por uma baita prova de fogo: os estudos de fase 3. Eles são feitos com milhares de indivíduos, que comparam as candidatas com um placebo ou outra vacina e avaliam segurança e eficácia.

“Atualmente, dez vacinas estão sendo testadas em humanos. Algumas estão chegando à fase 3, o que nos deixa otimistas”, comemora a epidemiologista Cristiana Toscano, da Universidade Federal de Goiás, única representante brasileira no grupo da Organização Mundial de Saúde (OMS) que acompanha os estudos sobre o tema.

A que parece liderar a corrida é a vacina desenvolvida na Universidade Oxford, na Inglaterra — ela pertence à farmacêutica Astra Zeneca. A pesquisa com ela, já na fase 3, pretende recrutar mais de 50 mil voluntários pelo mundo. Entre eles, 5 mil profissionais de saúde brasileiros, em uma parceria com a rede D’Or e a Universidade Federal de São Paulo.

Outra que chega em breve para testes no país é a produzida pela chinesa Sinovac. A farmacêutica enviará 9 mil doses aos brasileiros de uma vacina feita com o vírus inativado. Trata-se de uma tecnologia semelhante à utilizada nas doses anuais contra a gripe. O Instituto Butantan, em São Paulo, participa dessa fase do projeto — o anúncio foi feito pelo governo paulista, como mostrou VEJA.

Confira agora algumas das candidatas mais promissoras a vacina contra o novo coronavírus. Depois falaremos dos prazos…

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A vacina de Oxford

Ela é feita com um tipo de adenovírus modificado. Esse vírus carrega um pedaço do material genético do Sars-CoV-2, o que instiga células do nosso corpo a produzirem as chamadas espículas. Estamos falando daquelas espécies de “espinhos” que novo coronavírus possui em sua superfície. Mas atenção: essas estruturas, sozinhas, não causam a Covid-19 e o adenovírus inoculado também não possui capacidade de se replicar.

De qualquer forma, as espículas fabricadas pelo organismo após a vacinação incitam o sistema imunológico a produzir anticorpos contra elas. “Essa estrutura se liga a enzimas na superfície das células do corpo para o Sars-CoV-2 infectá-las”, explica Jorge Kalil, imunologista do Instituto do Coração (Incor) e professor da Universidade de São Paulo.

Ou seja, ao ter anticorpos contra a espícula logo de cara, seu sistema de defesa barraria a entrada do novo coronavírus nas células. Com isso, ele não causa estragos, tampouco consegue se replicar.

Segundo os especialistas envolvidos, a vacina de Oxford demonstrou ser eficiente e segura em fases anteriores de pesquisa, realizadas com mais de mil indivíduos. Contudo, os dados ainda não foram publicados em periódicos científicos.

“Nos estudos com animais, a dose também se mostrou altamente eficaz”, comentou Lily Yin Weck, coordenadora do centro de Referência para Imunobiológicos Especiais da Universidade Federal de São Paulo e investigadora principal da pesquisa que será realizada no Brasil. Sua fala ocorreu em uma live do Hospital e Maternidade Santa Joana.

A vacina chinesa que vem para o Brasil

Já essa é produzida com o novo coronavírus em si, mas inativado. Essa versão criada do agente infeccioso não consegue se replicar, porém instiga o sistema imunológico.

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Produzida pela Sinovac, ela também mostrou ser eficiente nos testes com animais, que ocorrem antes dos experimentos em seres humanos. Em comunicado à imprensa no site Clinical Trials Arena, a companhia divulgou resultados preliminares de seu estudo de fase 2, uma etapa que testa a segurança e a dose ideal do composto em um número considerável de pessoas — mas menor do que na fase 3.

De acordo com a empresa, 90% dos participantes desenvolveram anticorpos neutralizantes 14 dias depois da injeção, sem eventos adversos relatados. Entretanto, os dados também não foram publicados em periódicos científicos, o que limita bastante qualquer interpretação.
Vacinas de RNA contra o coronavírus

Assim como na proposta de Oxford, essas vacinas buscam apresentar ao sistema imune somente a parte do código genético do Sars-CoV-2 que é responsável por produzir a tal espícula.

Só que, aqui, essa porção do RNA do novo coronavírus é entregue sozinha, sem um adenovírus modificado. Na verdade, ela é envolvida em uma capa de gordura ou outro composto que proteja sua delicada composição até que chegue nas células do corpo.

Nessa abordagem, saiu na frente a vacina desenvolvida pela farmacêutica Moderna, em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID, na sigla em inglês). Os estudos com seres humanos começaram em março.

Segundo a companhia, na primeira etapa, os 105 voluntários mostraram uma produção de anticorpos neutralizantes “em nível comparado aos de pacientes recuperados pela Covid-19”. Atualmente, o trabalho está na fase 2, assim como outra proposta de vacina baseada em RNA, feita pela Pfizer e pela Biotech.

Essa tecnologia é mais arrojada e pode ser promissora, porém será preciso vencer algumas barreiras. “Apesar de funcionarem bem em animais, as vacinas desse tipo em geral induzem uma resposta que não é muito forte ou duradora”, destaca Kalil.

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A Moderna afirma ter uma tecnologia mais eficiente para entregar o RNA do Sars-CoV-2 nas células humanas, o que superaria essa limitação.

Por que vacinas estão sendo testadas no Brasil

Teóricos da conspiração alegaram que o nosso país só está sendo escolhido para servir de cobaia a outras nações mais desenvolvidas. Besteira.
“O melhor local para provar que a vacina funciona é onde a epidemia está ativa, com alta circulação do vírus”, explica Rosana Richtmann, infectologista do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo. Além disso, o Brasil possui um histórico de produção de vacinas e de pesquisadores renomados na área.

No mais, é possível que esses estudos facilitem o acesso às doses, se elas realmente forem eficientes. “A da Sinovac, por exemplo, é feita com uma técnica dominada pelo Instituto Butantan. Então seria necessário apenas fazer a transferência de tecnologia”, comenta Rosana.

E quando fica pronta a vacina?

“Há alguns meses, nos perguntávamos se haveria uma vacina. Hoje, provavelmente a questão é qual será a melhor”, afirma Rosana. “Entre outubro e novembro, devem chegar os resultados com alguma dessas candidatas que estão na fase 3 de pesquisa”, calcula Rosana.

Caso eles sejam positivos, será necessário avaliar os dados em detalhes e buscar aprovações e produção em larga escala, o que levaria mais alguns meses. “Se tudo der certo, podemos ter alguma vacina pronta já no primeiro semestre de 2021”, estima a epidemiologista Cristiana Toscano.

Mas é bom ter em mente que seria a primeira vez na história que um imunizante fica pronto tão rápido. A recordista até agora é a vacina do ebola, pronta em cinco anos.

Fora que, como várias etapas do rito da pesquisa científica estão sendo aceleradas, os números sobre a possível eficácia dessas vacinas devem ser interpretados com cautela. Mesmo com um imunizante aprovado, os cientistas continuarão acompanhando os voluntários para verificar a extensão da proteção e o surgimento de potenciais reações adversas mais raras.

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Aliás, a própria resposta imune ao Sars-CoV-2 é uma grande incógnita. Ora, algumas pessoas se curam mesmo sem produzir anticorpos eficazes contra o vírus.

“Temos muito mais perguntas do que respostas e faltam dados publicados. Não podemos entrar na euforia mundial de querer a vacina a qualquer custo”, diz Kalil, que trabalha em uma proposta brasileira de imunizante. Ele e sua equipe vem pesquisando o soro de pacientes que se recuperaram da Covid-19 para entender melhor a reação do sistema imune frente ao coronavírus.

A partir daí, a ideia é criar uma injeção que reproduza as respostas mais eficazes do nosso sistema de defesa.

A questão da distribuição

Uma vacina aprovada vai gerar interesse de bilhões de pessoas ao mesmo tempo. “A capacidade de produção global não comporta essa demanda. O abastecimento provavelmente será em fases, com grupos prioritários estabelecidos pelos países”, conta Cristiana.

Além dos profissionais de saúde, idosos são a escolha lógica, mas é fato que o sistema imunológico na terceira idade reage pior a vacinações em geral, o que possivelmente exigirá doses de reforço.

Outra questão que cerca o trabalho de Cristiana na OMS é garantir uma distribuição igualitária. “No passado, vivemos situações onde países mais pobres tiveram acesso tardio à vacina, e estamos trabalhando com coalizões para tentar evitar essa diferença”, destaca a médica.

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