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A cabeça em tempos de crise

O psicólogo Esdras Vasconcellos fala sobre como superar momentos difíceis

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, diz a sabedoria popular. Detestamos crises. Queremos a felicidade eterna. Temos uma tendência quase instintiva a esquecer que a vida é feita de ciclos. Que eles vão e voltam em um eterno retorno. A felicidade passa, mas tempos depois ressurge. Sendo assim, é efêmera e, por retornar sempre, também eterna.

Algumas religiões e filosofias ensinam que todas as coisas são inconstantes e mutáveis. É o Princípio da Impermanência. Elas também doutrinam sobre a eternidade. Impermanência e eternidade parecem um paradoxo. No entanto, se a felicidade acaba e mais tarde reaparece, efêmero e eterno são categorias que não se excluem mutuamente. Pelo contrário, completam o ciclo da vida.

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Em geral, não temos muita elasticidade para aceitar e suportar momentos de crise. Quando estamos envolvidos em uma delas – amorosa, familiar, financeira, profissional -, cada dia lembra uma eternidade. Por causa dessa percepção, ficamos ansiosos, irritados, depressivos. Mas sabemos que somente uma crise verdadeira e profunda é capaz de gerar mudanças relevantes. Precisamos dela algumas vezes na vida. E sabemos também que toda crise verdadeira passa. Nenhuma se sustenta eternamente.

Um fator decisivo ao depararmos com uma crise é a forma como a concebemos e a sentimos. Quem tem baixo limiar de tolerância e tendência à ansiedade vai encará-la como interminável. Fica impaciente e pessimista. Outros, ao contrário, se alegram, pois concluem que, a cada dia, a crise se aproxima do fim.

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As pesquisas sobre coping e a experiência cotidiana provam que, nesse contexto turbulento, ter uma crença sempre ajuda. E a crença sobre a própria crise tanto a configura quanto, ao mesmo tempo, a desintegra. Não importa a pertinência da crença que utilizamos para encarar esse período. Pessoas com uma convicção consciente estão sempre mais bem preparadas para atravessá-lo. O segredo não está na eficácia de uma ou outra crença, mas no fato de carregar uma.

Não importa se a crise foi gerada por nossos erros, pela situação externa ou pelo destino. Para enfrentá-la, podemos escolher, no mínimo, entre duas posturas: sentir seu aprofundamento ou focar em sua passagem. A crise será então vivida como mal que muito dura ou nuvem passageira. Os mais sábios optarão por vivenciá-la conscientemente, pois sabem que, quanto mais forte é a chama, mais cedo ela se apagará; quanto mais profundo o luto, mais rápido ele se dissipará. O que mais nos estressa na vida não é o fato concreto em si, mas a forma como o interpretamos.

Dr. Esdras Vasconcellos é psicólogo, professor da Universidade de São Paulo e diretor científico do Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeuroendo-crinoimunologia.