Recentemente, uma pesquisa com mais de 135 mil pessoas de cinco continentes, englobando 18 países, causou burburinho no universo da nutrição. Publicada no respeitado periódico científico The Lancet, ela apontou, por exemplo, que quem consumia mais gordura tinha menor risco de morrer do que aqueles com baixa ingestão desse nutriente.
Já os indivíduos que comiam carboidratos aos montes enfrentavam uma maior probabilidade de falecer em comparação aos que consumiam pouco desse grupo de nutriente. À primeira vista, os dados parecem surpreendentes. Mas é preciso cautela para analisá-los.
Segundo a nutricionista Isabela Pimentel, diretora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), trata-se de um estudo observacional. Ou seja, os participantes responderam questionários alimentares e, com base no número de óbitos ocorridos durante os sete anos de acompanhamento, os cientistas traçaram o elo entre o consumo de certos nutrientes e o risco de morte. Isso significa que a pesquisa firma associações, mas não mostra uma relação clara de causa e efeito.
De qualquer forma, não chega a ser uma surpresa o fato de o abuso nas fontes de carboidratos trazer prejuízos. “Sabemos que isso aumenta inflamação, obesidade, resistência à ação da insulina…”, cita Isabela. “O que chama a atenção é o desfecho, isto é, o risco maior de mortalidade”.
Agora, é preciso frisar que, ao dividir os voluntários, os maiores fãs de carboidratos chegavam a atingir 77% das necessidades calóricas só com fontes desse nutriente. O que é muita coisa! Oficialmente, recomenda-se uma ingestão de 50 a 60% de carboidratos por dia. Mais: esse abuso acontecia, na maioria das vezes, em países pobres, onde a assistência de saúde tende a ser mais precária em geral. Ou seja, às vezes não foi o carboidrato que provocou as mortes, e sim a falta de assistência.
Isso não é um convite a cortar drasticamente arroz, pães, massas e afins do dia a dia. “O próprio autor do trabalho coloca, em um dos parágrafos, que o dado demonstra a necessidade de equilíbrio”, conta Isabela.
Quanto à gordura, também há ponderações importantes. No estudo, o maior consumo do nutriente representava, em média, 35% das necessidades calóricas de um indivíduo. Só que isso não é nenhum absurdo. Para ter ideia, a recomendação oficial é que 25 a 35% da dieta seja composta por gordura mesmo. Então, enquanto o maior consumo de carboidratos era de fato excessivo, o maior consumo de gorduras não fugia muito daquilo que as diretrizes estabelecem.
Mais um detalhe gerou bafafá. Ao separarem os tipos de gorduras entre monoinsaturada, poli-insaturada e saturada, os cientistas descobriram que a maior ingestão da última, presente em carnes vermelhas, por exemplo, não acarretou em malefícios. Pelo contrário: até reduziu o risco de derrame. Vale lembrar que o exagero da versão saturada sempre foi considerado perigoso para a saúde do coração.
Mas, ao analisar as pessoas que comiam mais gordura saturada, vê-se que esse nutriente correspondia a 13% de sua dieta, o que está só um pouco acima do recomendado – que é até 10%, segundo as diretrizes. “Porém, consumir 13% da energia diária proveniente das gorduras saturadas está longe daquilo que uma dieta à base de pizza, carnes gordursosas, fast food, doces e derivados de leite integrais pode alcançar. Esse tipo de alimentação é capaz de atingir até 20% de saturadas”, afirma Isabela.
Por isso, a nutricionista da Socesp acredita que não há nenhuma grande novidade no trabalho. “Ele só evidencia o perigo de investir em um padrão alimentar desbalanceado, como uma dieta pobre em gordura e rica em carboidratos”, diz. Em resumo, não há nenhum nutriente que mereça ser consumido de forma desmedida – ou excluído do cardápio.