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Tudo sobre a tirzepatida, a nova promessa contra a obesidade

Já aprovada nos Estados Unidos, a droga teria alcançado uma maior perda de peso do que as outras - e abre mais um capítulo no tratamento da obesidade

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 15 Maio 2022, 13h52 - Publicado em 6 Maio 2022, 12h40

A tirzepatida, um novo candidato à medicamento contra a obesidade, parece ter alcançado um resultado superior ao de outros remédios disponíveis para esse fim. Segundo a fabricante Eli Lilly, o composto chegou a reduzir em mais de 20% o peso dos participantes em um novo estudo. Isso em um ano e meio de tratamento. O fármaco foi aprovado recentemente nos Estados Unidos, e vem sendo avaliado em vários outros. 

A pesquisa, conduzida com cerca de 2,3 mil voluntários, ainda não foi publicada ou revisada por pares, o que exige cautela. Mas o anúncio animou o meio médico pela suposta magnitude do emagrecimento e por seu mecanismo de ação inovador. 

Estudos anteriores com pacientes que têm diabetes, estes sim já submetidos ao jugo da comunidade científica, mostraram um emagrecimento superior a 10% do peso total no período de um ano, o que já é muito positivo. Esse novo trabalho, no entanto, incluiu indivíduos sem diabetes, uma doença que pode dificultar o processo de perda de peso. 

O fármaco simula a ação de dois hormônios secretados pelo intestino, GLP-1 e GIP, que atuam no controle da glicose, na promoção da saciedade e em mais uma porção de processos do corpo. “É uma mudança de paradigma no tratamento da obesidade e da diabetes”, destaca o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, professor da Universidade de São Paulo (USP) e colunista de VEJA SAÚDE. 

+ Leia também: Diabetes em transformação: o que está mudando no tratamento

A tirzepatida é aplicada com uma injeção subcutânea semanal. Como dissemos, ela ainda não é comercializada no Brasil ou em outros países. Ou seja, não há informações sobre o preço do medicamento. Se aprovado, ele deve estar disponível no segundo semestre de 2023.

Como foi feito o estudo 

Chamado de Surmount-1, a pesquisa envolveu 2,3 mil voluntários com obesidade ou sobrepeso. Eles possuíam ao menos uma comorbidade (uma consequência do excesso de peso), mas sem diabetes. Os voluntários, então, foram divididos em quatro grupos: três recebendo o remédio em doses diferentes e um quarto, apenas o placebo. 

Era um ensaio duplo cego randomizado. Ou seja, ninguém sabia quem tomava o quê. Esse método é considerado o melhor para averiguar a eficácia de um medicamento

Ao fim de 72 semanas (cerca de um ano e meio) de acompanhamento, os grupos que tomaram o fármaco perderam de 16% a 22,5% do peso total, a depender da dosagem. Enquanto isso, o emagrecimento da turma do placebo não passou de 2,4%. 

Outro achado interessante: cerca de 90% dos voluntários que receberam a tirzepatida emagreceram pelo menos 5%. Entre os voluntários que tomaram placebo, esse índice ficou em 28%. 

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Para que sejam validados, os achados agora devem ser revisados e publicados em um periódico científico. “Nos estudos publicados ano passado, a redução máxima com a tirzepatida foi de 13%, mas com menor tempo de acompanhamento e em pessoas com diabetes, uma doença que atrapalha a perda de peso”, destaca o endocrinologista Bruno Geloneze, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Como funciona a tirzepatida 

Ela é uma espécie de evolução da categoria dos análogos de GLP-1, que na última década mudaram o tratamento da diabetes e, mais recentemente, o da obesidade. 

O GLP-1 é um hormônio secretado no intestino quando comemos. Ele estimula a produção de insulina no pâncreas quando a glicose está alta, o que faz a digestão ficar mais lenta e promove a sensação de saciedade. 

+ Leia também: Novos rumos para a perda de peso

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Em estudos com animais, o GLP-1 parece ainda aumentar o gasto energético do organismo. Semaglutida e liraglutida, dois medicamentos já disponíveis no Brasil, pertencem à essa categoria. 

Mas a tirzepatida, além estimular só os receptores de GLP-1, instiga os de GIP, outro hormônio conhecido há um tempo, mas que não gerava tanto interesse.

O GIP também é produzido pelo intestino, no jejuno. E, isoladamente, facilita o acúmulo de gordura no organismo. Por outro lado, diminui o apetite no cérebro”, comenta Couri. Curiosamente, quando está junto com o GLP-1, esse efeito de acumular gordura desaparece. Na verdade, eles são sinérgicos – um potencializa a ação do outro em processos ligados à perda de peso e no controle da glicemia

 “A vantagem é replicar a ação que esses próprios hormônios têm no organismo, mas de maneira mais potente, controlada e contínua”, explica Geloneze. 

A tirzepatida pertence, portanto, a uma categoria chamada coagonista, que deve trazer mais moléculas sintéticas que interagem com vários receptores hormonais.

Nova era no tratamento da obesidade

A tirzepatida abre um novo capítulo de uma história que já estava sendo escrita: a da mudança de foco no controle da obesidade. Até poucos anos atrás, tratamentos farmacológicos para emagrecer se baseavam em medicamentos chamados anorexígenos, com efeitos no cérebro e no sistema nervoso central. 

“É uma classe que diminui o apetite via neurotransmissores, e que traz reações adversas como a hiperexcitação e o aumento da frequência cardíaca. Isso gera nas pessoas o medo de que o remédio faça mal à saúde”, comenta Couri. De fato, alguns estudos apontam um risco elevado de problemas no coração e de ordem psicológica com esses compostos. 

Já os análogos de hormônios têm o efeito contrário: estudos indicam que eles protegem o sistema cardiovascular. Isso é importante porque tanto a obesidade quanto o diabetes aumentam o risco de infartos, derrames e outros pepinos nos vasos sanguíneos. A tirzepatida, para ter ideia, é estudada inclusive para tratar gordura no fígado.

A ação tão abrangente pode fazer esses remédios se tornarem mais comuns no manejo das doenças crônicas ligadas à síndrome metabólica. “Estamos inaugurando uma nova era de combate à obesidade, pautada na modulação dos peptídeos [pedacinhos de proteína] intestinais”, celebra Gelonese. 

Liraglutida e semaglutida, que atuam somente nos receptores GLP-1, também demonstraram bons resultados na redução do peso. A primeira já é aprovada no Brasil para esse fim, e a segunda é usada de modo off-label – essa indicação deve ser oficializada no final do ano. 

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Lembrando que, por aqui, ainda tropeçamos no mais básico. Não há medicamentos antiobesidade oferecidos no Sistema Único de Saúde (SUS) e os mais modernos disponíveis na farmácia são vendidos na casa das centenas de reais.   

Nova bariátrica? 

Como a perda de peso vista em estudos é bem significativa, tem gente comparando a tirzepatida e outras drogas com a cirurgia bariátrica, que chega a eliminar 50% do peso corporal excedente. 

Os especialistas, contudo, são cautelosos. “É provável que uma série de indivíduos com graus menores de obesidade não precisem mais ser operados. Por outro lado, a cirurgia voltará a privilegiar obesos grau 3, com IMC [índice de massa corpórea] acima de 40, que aguardam o procedimento”, comenta Gelonese. 

Por fim, vale destacar que qualquer medicamento, cirurgia ou intervenção só faz sentido dentro de um tratamento completo contra a obesidade, uma doença crônica que exige acompanhamento de longo prazo e mudanças de estilo de vida. 

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