Retatrutida: o que é, para que serve, como age e quando estará disponível
Substância está em fases de estudos, mas já é destaque da nova geração das chamadas "canetas emagrecedoras"
A retatrutida é uma molécula experimental que faz parte da nova geração dos medicamentos injetáveis que imitam a ação de hormônios com funções voltadas à saciedade e controle da glicose, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras“.
Essa classe engloba medicações como a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, e a tirzepatida, do Mounjaro, e têm revolucionado o tratamento para obesidade e diabetes.
Em estudos, a retatrutida já demonstrou ser capaz de promover uma perda de até 28,5% do peso corporal. Para comparar: o Mounjaro pode chegar a, no máximo, cerca de 22,5%.
O segredo é que, enquanto outras medicações do tipo atuam em um (caso do Ozempic) ou dois hormônios (como o Mounjaro), a retatrutida é um triplo agonista, ou seja, age reproduzindo a ação de três deles: o GLP-1, o GIP e o glucagon. Essa combinação reduz ainda mais a fome, melhora o controle a glicose e eleva o gasto calórico.
Diante desse potencial e, consequentemente, alta expectativa, o medicamento, que ainda está em fase de estudos e não foi liberado para comercialização em nenhum lugar do mundo, já é alvo de falsificações.
Só no ano passado, uma operação da Receita Federal apreendeu dezenas de unidades de um produto que dizia conter retatrutida, enquanto, no último mês, uma empresa paraguaia chegou a fazer um evento para anunciar a sua futura cópia da substância, que já tem nome e até embalagem prontos. A Anvisa também já protagonizou ações contra a venda de falsas retatrutidas nas redes sociais.
“Por ser ainda experimental, sua produção e comercialização é irregular, ilegal e não tem dados de 100% de segurança“, explica o médico Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade do Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
A substância, que pertence à farmacêutica norte-americana Eli Lilly, ainda não saiu dos laboratórios, é protegida por patente e não foi aprovada por nenhuma agência reguladora no mundo.
Mas o que já sabemos sobre essa formulação?
O que é retatrutida e para quem ela é indicada
A retatrutida é um novo medicamento desenvolvido pelo laboratório Lilly para tratamento de diabetes e obesidade, que demonstrou potência superior à tirzepatida (Mounjaro), mas que ainda está em estudos, portanto, não foi aprovado em nenhum país.
A farmacêutica também tem avaliado se o candidato a medicamento pode ajudar em vários problemas de saúde relacionados ao peso, como osteoartrite do joelho, apneia obstrutiva do sono moderada a grave, dor lombar crônica, desfechos cardiovasculares e renais, além de gordura no fígado associada à disfunção metabólica.
+Leia também: Por que as canetas emagrecedoras entraram no radar da reumatologia?
Ela age como um agonista triplo dos receptores hormonais de GIP, GLP-1 e glucagon. Os agonistas são substâncias que imitam a ação de algo que o próprio corpo já produz, reproduzindo o mesmo efeito.
Por exemplo, a retatrutida se liga aos mesmos receptores desses três hormônios, “enganando” o corpo e fazendo-o ativar as mesmas funções. Isso otimiza a saciedade, reduz apetite e aumenta o gasto calórico.
Como ela age
Ao se conectar aos receptores de cada um dos três hormônios, a retatrutida promove distintos benefícios, reproduzindo suas funções, segundo explica o endocrinologista Fernando Gerchman, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e membro do Departamento Científico da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).
O hormônio GLP-1 é liberado após as refeições e age no pâncreas aumentando a insulina, o que reduz os níveis de açúcar no sangue e retarda o esvaziamento do estômago, gerando saciedade. Além disso, ele também reduz o apetite, porque atua no hipotálamo, regulando a sensação de fome direto do cérebro.
“Esses efeitos resultam em menor ingestão alimentar e melhora da glicemia“, explica Gerchman.
Já o GIP, que já era reproduzido também pela tirzepatida, nasce no intestino delgado e atua estimulando a liberação de insulina pelo pâncreas após as refeições e melhorando o metabolismo. Dessa forma, ele ajuda no controle da glicemia e potencializa os efeitos do GLP-1. É por isso que o Mounjaro tem resultados maiores do que o Wegovy, por exemplo.
Mas o grande diferencial da retatrutida é que ela também se conecta aos receptores do glucagon.
“O glucagon é um hormônio produzido pelas células alfa do pâncreas, cujo papel principal é elevar os níveis de glicose no sangue (glicemia) quando estes estão baixos, agindo como um contrarregulador da insulina“, explica Mancini.
Ou seja, o glucagon entra em ação, por exemplo, no jejum ou durante exercícios intensos, quando a glicose cai bastante. Na ausência de açúcar no sangue, que é nossa fonte primária de energia, o glucagon faz o corpo converter o glicogênio (o estoque de carboidratos do organismo) em glicose ou queimar a gordura para usá-la com combustível.
Por isso, ao ativar o receptor desse hormônio, o medicamento consegue aumentar o gasto energético e estimular a quebra e a queima (oxidação) de gorduras. Também por isso pode, em tese, reduzir a gordura no fígado.
O paradoxo da retatrutida
Como visto, as funções do GLP-1 incluem a redução do nível de glicose. Para isso, entre os seus mecanismos de ação, está justamente o poder de inibir a produção do glucagon, que faz o contrário: eleva os níveis de açúcar no sangue quando estão baixos. Enquanto isso, o GIP potencializa as ações do GLP-1.
Como pode, então, um mesmo medicamento ter substâncias que, suspostamente, anulariam a função uma da outra?
“Essa é uma das perguntas mais interessantes do ponto de vista fisiológico. Teoricamente, o GIP aumenta insulina [o hormônio que controla a glicose] e o glucagon aumenta glicose. Pareceria contraditório. Mas na prática farmacológica três fatores evitam essa anulação”, explica Gerchman.
Segundo o médico, esses fatores são os seguintes:
- 1. Ativação balanceada
O fármaco criado pela Lilly não ativa os receptores dos três hormônios com a mesma potência.
- 2. Efeito controlado sobre a insulina
Além disso, o GLP-1 e o GIP só estimulam insulina quando a glicose está elevada. Isso protege tanto contra o excessos quanto contra uma possível hipoglicemia.
- 3. Mudança de função
A fórmula foi criada de modo que o glucagon atue principalmente para o gasto calórico e queima de gorduras e não tanto na produção de glicose no fígado.
Retatrutida pode substituir a bariátrica?
Segundo Mancini, a realização de cirurgias bariátricas tem diminuindo desde o advento da semaglutida e mais ainda com a tirzepatida. Agora, os médicos têm feito novos cálculos que podem reduzir ainda mais o número de operações: a perda de peso estimada com uma bariátrica é de 25-30%, muito próximo aos 28,7% apresentados pela retatrutida no estudo TRIUMPH-4, o último divulgado pela Lilly.
Por isso, Gerchman crava: “sem a menor dúvida não faz sentido se fazer cirurgia bariátrica se a resposta a estas medicações é eficiente e há boa tolerabilidade de efeitos adversos”. Mas o assunto gera polêmica.
Qual a diferença entre retatrutida e tirzepatida?
A tirzepatida, do Mounjaro, é um agonista duplo (GLP-1 + GIP). Em estudos de 2022, os participantes que tomaram tirzepatida perderam até 24 quilos dentro de 72 semanas.
A maioria dos participantes alcançou redução de pelo menos 20% no peso corporal. Em comparação, a retatrutida, em estudos de fase 3, resultou em perda de peso em 68 semanas de 28%, demonstrando possível superioridade.
“Não há estudos comparativos ainda para se ter certeza. Mas é muito provável que a medicação, baseada nesses dados, seja mais eficaz”, reforça Gerchman.
Como a retatrutida deverá ser usada?
Por enquanto, a retatrutida vem sendo testada em doses de 2 mg, 4 mg, 9 mg ou 12 mg, aplicadas uma vez por semana. Nos ensaios, o tratamento começa com 2 mg semanais, com aumento gradual da dose a cada quatro semanas até atingir a dose alvo de cada paciente.
Quando a retatrutida estará disponível?
O medicamento está na fase 3 dos estudos, a última necessária antes de uma possível aprovação pelas agências de vigilância sanitária, como a Anvisa, no Brasil, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, ou mesmo a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria (Dinavisa), do Paraguai.
Os principais resultados da fase 3 foram divulgados em março e é esperado que sejam realizados mais sete ensaios clínicos dentro desta etapa. Somente ao fim das análises será possível confirmar completamente a eficácia e segurança do medicamento.
Segundo a Lilly, mais resultados devem ser divulgados ao longo do próximo ano.
A empresa alerta que a substância ainda não foi analisada ou aprovada por nenhuma agência reguladora e que ninguém deve considerar o uso de qualquer substância que alegue ser retatrutida fora de um ensaio clínico patrocinado pela farmacêutica.
“Ninguém pode vendê-lo legalmente para uso humano, portanto, qualquer atividade promocional ou de marketing relativa a um composto experimental não aprovado — mesmo que apresentada como preparação para um lançamento futuro — não está de acordo com os padrões de responsabilidade da indústria“, destacou, em nota enviada para VEJA SAÚDE.
O programa de ensaios clínicos de Fase 3 TRANSCEND-T2D da Lilly está avaliando a segurança e a eficácia da retatrutida para o tratamento de adultos com diabetes tipo 2 em três estudos globais de registro. O programa, que teve início em 2024, já recrutou mais de 2.050 participantes.





