Compare as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para a saúde pública
O futuro do Farmácia Popular, uso de inteligência artificial e mais: veja o que os planos dos presidenciáveis realmente apontam para o SUS
O financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), a redução das filas para consultas e cirurgias e a ampliação do acesso a medicamentos estão entre os principais desafios para a saúde no próximo governo.
Para enfrentá-los, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, apresentam propostas com diferentes ênfases.
Entre as ideias de Lula, estão a continuidade e a ampliação de programas federais, como o Mais Médicos, o Agora Tem Especialistas e o Farmácia Popular.
Já Flávio propõe rever a remuneração de hospitais e clínicas que atendem pela rede pública e foca em agilizar filas com estratégias digitais.
Apesar das diferenças, os planos têm muitos pontos em comum, como a digitalização dos serviços, a unificação de prontuários, o uso de inteligência artificial na regulação de pacientes e investimentos na Estratégia de Saúde da Família.
Ainda assim, dúvidas sobre a continuidade de programas, o financiamento do SUS, controle dos gastos públicos e o acesso a serviços de saúde têm alimentado discussões nas redes sociais.
Para entender o que realmente é apresentado por cada presidenciável, VEJA SAÚDE reuniu as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para o setor e mostra quais são as prioridades de cada candidato para a saúde pública.
Ciência e Saúde nas eleições
Como parte do Projeto Ciência e Saúde nas Eleições, as propostas foram analisadas por especialistas da ACT Promoção da Saúde, organização civil dedicada à prevenção de doenças crônicas e responsável pela Agenda Brasil + Saudável, e do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que produz pesquisas sobre SUS, financiamento, atenção primária, recursos humanos e desigualdades em saúde.
Ainda no primeiro turno, os pesquisadores avaliaram os projetos dos 12 candidatos às cegas, sem a identificação dos candidatos proponentes, e fizeram considerações sobre as diferentes abordagens dos planos.
A seguir, junto às propostas, constam parte dessas análises, que podem ser conferida na íntegra aqui.
Prontuário digital e inteligência artificial
A digitalização da saúde é um dos principais pontos em comum entre os programa de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), diferenciando-se, especialmente, em relação ao nível de detalhamento das propostas.
Lula (PT) promete acelerar a consolidação do prontuário único do cidadão, que já vem sendo desenvolvido por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), infraestrutura que integra, padroniza e compartilha dados de saúde de diversas origens.
A proposta do candidato é integrar informações da atenção básica, da vigilância em saúde, da assistência farmacêutica e dos serviços especializados.
O plano prevê que, com isso, os pacientes possam acessar pelo celular informações como resultados de exames e agendamentos nas unidades básicas de saúde.
A integração, diz o documento, deverá facilitar a continuidade do atendimento quando uma pessoa precisar passar por diferentes serviços da rede pública.
Além disso, a inteligência artificial seria utilizada para fazer a triagem de pacientes e auxiliar no diagnóstico em regiões com poucos especialistas. O candidato defende, ainda, que as filas para procedimentos sejam organizadas conforme a gravidade de cada paciente.
Lula também fala em Ofertas de Cuidados Integrados (OCI), propiciando o conhecimento e a articulação do cuidado ao longo de toda a trajetória do usuário na rede.
Flávio também propõe implantar um prontuário eletrônico único, mas vinculado ao Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) e integrado à plataforma Gov.br. A ideia é reunir o histórico de consultas, exames, vacinas e prescrições.
Na proposta, o candidato também menciona a integração dos dados entre os sistemas públicos e privados de saúde, observados o consentimento do paciente e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O candidato quer, ainda, “concluir a digitalização do SUS” e utilizar inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames, identificar pessoas com maior risco de adoecer e facilitar o encaminhamento para a primeira vaga disponível.
O que dizem especialistas:
A cientista social Julia Pereira, gerente de relações institucionais do IEPS e doutora em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), considera que a ideia de uma fila pública única, organizada por prioridade clínica e consultável pelo cidadão esbarra num problema prático: hoje quem administra as filas são os estados e, em boa parte, os municípios, cada um com sua própria lógica e seu próprio sistema.
“Sem que Unidades Básicas de Saúde estejam conectadas à rede de média e alta complexidade e sem que os prontuários conversem entre si, a fila única fica sendo um painel bonito sobre uma realidade que continua fragmentada por baixo”, disse.
Em relação ao uso de inteligência artificial, ela comenta que, ainda que a tecnologia ajude a organizar triagem e agendamento, ela não resolve o problema sozinha.
Já quanto à integração do prontuário ao CPF, ela destaca que, desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde já emite o Cartão Nacional de Saúde com o CPF como identificador único, substituindo o número antigo do Cartão SUS.
“O que falta não é criar, é continuar ampliando o uso e a integração entre os sistemas que ainda não foram atualizados”, considera.
Já integrar dados da rede privada ao sistema público não é simples como parece, segundo a especialista. “Informação de saúde é ativo comercial para uma clínica ou hospital privado. Não existe hoje garantia legal de que esse dado seria compartilhado com segurança e nos termos que o SUS precisa”, diz.
Medicamentos e Farmácia Popular
Na área de assistência farmacêutica, Lula promete manter o Farmácia Popular, programa criado por ele em 2004, com distribuição integralmente gratuita dos medicamentos contemplados pelo programa.
O plano cita a continuidade da oferta de fraldas geriátricas e a ampliação dos pontos de retirada, especialmente em regiões periféricas e localidades sem farmácias conveniadas.
Uma das novidades propostas é incluir exames laboratoriais e testes para diagnóstico e acompanhamento de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, no programa. A medida ampliaria seu alcance para além da distribuição de medicamentos.
O plano de governo de Flávio Bolsonaro não menciona o Farmácia Popular nem apresenta uma nova iniciativa específica para a distribuição gratuita de medicamentos.
A ausência do programa no documento, porém, não significa, por si só, que o candidato pretenda encerrá-lo. Após a circulação de publicações nas redes sociais que atribuem a Flávio a intenção de extinguir a iniciativa, a assessoria da campanha do PL negou à imprensa que ele seja autor de declarações públicas sobre o fim da iniciativa.
No que diz respeito aos medicamentos, o plano de governo do presidenciável menciona que “um sistema de entrega de remédio em domicílio vai garantir que o idoso, a pessoa com deficiência e o doente crônico não precisem escolher entre buscar o tratamento e pagar o transporte”.
Filas do SUS e contratação de serviços privados
A redução do tempo de espera por consultas, exames e cirurgias aparece nos dois programas, mas os candidatos apresentam caminhos distintos para ampliar a oferta de atendimento.
Lula promete dar continuidade e ampliar o Agora Tem Especialistas, programa voltado à redução das filas na rede pública e encaminhamento de pacientes do SUS para a rede privada.
Entre as medidas estão a expansão dos atendimentos em terceiro turno, a realização de mutirões e o reforço das Carretas da Saúde.
O plano também prevê a continuidade das parcerias com hospitais privados, que podem oferecer procedimentos à rede pública em troca de créditos financeiros ou de redução de dívidas.
Outra frente é aprimorar a regulação das filas com uma plataforma digital que organize a ordem de atendimento conforme o risco clínico, além de ampliar a transparência sobre a espera dos pacientes.
Flávio Bolsonaro, que encabeça o projeto “Brasil Sem Filas”, propõe contratar serviços e exames da rede privada nos horários ociosos, com o objetivo de aproveitar a capacidade já instalada nessas unidades fora dos períodos de maior movimento.
O plano também prevê a correção da tabela SUS, que define os valores pagos pelo sistema público por procedimentos realizados.
Segundo o documento, a remuneração deve cobrir os “custos reais” do atendimento, de modo a melhorar as condições de funcionamento de hospitais, santas casas e clínicas, especialmente no interior do país.
“A lei de reajuste já existe, mas, presa ao orçamento, não enfrentou a defasagem que asfixia hospitais, santas casas e clínicas, sobretudo no interior”, diz o material.
A proposta, porém, não detalha os valores dos reajustes nem como seriam financiados.
O que dizem especialistas:
A tabela SUS define quanto o sistema público paga por diferentes procedimentos. O problema é que, em muitos casos, esses valores são considerados insuficientes para cobrir os custos reais dos hospitais.
Flávio propõe corrigir essa tabela para melhorar a remuneração de hospitais, santas casas e clínicas que atendem pelo SUS. No entanto, Pereira lembra que, desde agosto de 2026, estados e municípios estão autorizados a pagar valores acima da tabela usando recursos próprios. Mas há uma ressalva: “isso tende a ajudar só quem já tem caixa sobrando“, diz.
Além disso, comenta que o problema pode não ser apenas o valor pago e sim o modelo de pagamento. “Pagar por procedimento isolado tende a distorcer o incentivo, o hospital ganha por fazer mais procedimento, não por entregar o melhor resultado para o paciente”, afirma Pereira.
Atenção primária, saúde da família e teleconsultas
Lula e Flávio Bolsonaro prometem reforçar a atenção básica, porta de entrada do sistema público de saúde.
O plano de Lula prevê dar continuidade ao Mais Médicos, com incentivos à permanência de profissionais em áreas vulneráveis e à formação em medicina de família e comunidade.
Também propõe ampliar as equipes multiprofissionais e a oferta de exames e recursos de diagnóstico na atenção básica, para evitar encaminhamentos desnecessários a especialistas.
Sobre o tema, o documento do plano de governo de Flávio diz: “vamos ampliar a Estratégia Saúde da Família, levando o cuidado para perto de casa”.
Os dois candidatos também apostam no atendimento a distância para facilitar o acesso à assistência médica.
Lula propõe ampliar teleconsultas, teleorientação e teleacolhimento na atenção primária. Flávio prevê que médicos de regiões com menor demanda possam atender, por telefone ou aplicativo, pacientes de localidades onde as filas são maiores.
Flávio também menciona o uso de inteligência artificial no apoio à prevenção. “O sistema poderá identificar quem corre maior risco de adoecer e chamar essa pessoa para se cuidar a tempo, em vez de esperar que ela chegue ao pronto-socorro quando já é grave”, diz o projeto.
O que dizem especialistas:
Para Pereira, o atendimento remoto não resolve a fila de exames. “Boa parte da demora no SUS está no tempo de espera por exame de imagem ou laboratorial, não na consulta em si, e telemedicina não faz biópsia ou ressonância à distância”, alerta.
Tratamento e prevenção do câncer
Na área de oncologia, o plano de Lula prevê ampliar diferentes etapas do atendimento, da prevenção ao tratamento.
Entre as medidas estão fortalecer a rede pública de assistência oncológica, expandir as Unidades de Alta Complexidade em Oncologia (Unacons) e os Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacons), além de ampliar a oferta de radioterapia e cirurgias.
O candidato também propõe criar o “Supercentro Brasil de telediagnóstico do câncer“, voltado a agilizar a análise de biópsias, especialmente em regiões distantes dos grandes centros. O documento inclui ainda ações para ampliar o diagnóstico precoce dos cânceres de mama e do colo do útero.
No plano de Flávio Bolsonaro, o câncer aparece associado à ampliação de exames preventivos e de atendimentos voltados à saúde da mulher.
A proposta inclui ações relacionadas à prevenção e ao atendimento de diferentes condições, como câncer, menopausa, gestação e endometriose. O documento, porém, não detalha uma estratégia específica para expandir a rede de tratamento oncológico.
Envelhecimento da população
Os dois candidatos prometem ampliar a assistência para a população idosa.
Lula propõe dar escala nacional ao Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso (PADI Brasil), que oferece cuidados em casa a pessoas com limitações funcionais e condições crônicas.
O plano também prevê fortalecer a atenção básica e as equipes multiprofissionais para responder ao envelhecimento da população.
Flávio propõe criar um Programa de Atendimento aos Idosos e facilitar o acesso a medicamentos por meio de entregas domiciliares para pessoas mais velhas, além de pacientes com deficiência ou doenças crônicas.
Em outro eixo do programa, prevê o projeto Casa Segura para Envelhecer, com subsídios para adaptar moradias de famílias de baixa renda, e a ampliação de instituições de longa permanência. O documento também menciona um aplicativo de companhia e alertas de perigo para idosos a serem enviados às famílias.
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Saúde da mulher
Lula e Flávio Bolsonaro propõem ampliar o acesso a cuidados de saúde para mulheres, mas enfatizam frentes diferentes.
Flávio promete expandir exames preventivos e facilitar o atendimento por telemedicina e unidades móveis, inclusive em comunidades ribeirinhas. O plano também prevê ampliar a assistência relacionada a câncer, menopausa, gestação e endometriose.
O candidato ainda propõe ampliar o atendimento domiciliar e os centros-dia para apoiar famílias que cuidam de crianças, idosos e pessoas com deficiência, trabalho que, segundo o documento, recai principalmente sobre as mulheres.
Lula, por sua vez, prevê ampliar a distribuição gratuita de contraceptivos modernos e de longa duração pelo SUS, além de fortalecer o Programa Dignidade Menstrual.
Na assistência materna, promete intensificar as ações para reduzir a mortalidade, com atenção especial às mulheres negras e às que vivem em áreas rurais e remotas.
Entre as medidas estão fortalecer a Rede Alyne, programa para redução da mortalidade materna e infantil com foco em cuidado humanizado, as casas de gestantes e o atendimento obstétrico na Amazônia Legal.
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Vacinas e produção nacional
Na vacinação, Lula propõe manter campanhas nacionais, ampliar a imunização nas escolas e reforçar a cobertura de novas vacinas contra doenças como dengue, bronquiolite e infecções pneumocócicas (pneumo 20), que chegaram aos SUS nos últimos dois anos.
O documento também prevê a incorporação de novos imunizantes ao SUS e destaca o “combate ao negacionismo científico” como parte da estratégia para recuperar as coberturas vacinais.
Além disso, Lula propõe fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com participação de empresas nacionais, universidades, instituições públicas e centros de pesquisa.
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A estratégia menciona ampliar a produção brasileira de medicamentos e insumos farmacêuticos, incentivar a transferência de tecnologia e investir em pesquisas relacionadas à biodiversidade do país, “com destaque para o potencial da Amazônia”.
O projeto menciona, ainda, a ampliação do sequenciamento genômico voltado ao estudo de variantes associadas à resistência ou à susceptibilidade a doenças infecciosas e crônicas.
Flávio, por sua vez, promete ampliar o acesso a exames preventivos, manter o incentivo à imunização e “fortalecer a produção nacional de vacinas”.
Saúde mental
Na saúde mental, Lula propõe fortalecer o acompanhamento de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) e outras neurodivergências, além de ampliar estratégias de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas.
Flávio promete criar um programa para apoiar famílias que cuidam de pessoas com Alzheimer.
O documento também cita a ampliação da assistência a pessoas com depressão e ansiedade, o diagnóstico precoce e o apoio a crianças com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), além do acompanhamento de idosos com doenças neurológicas e de seus cuidadores.
O candidato também propõe implantar centros de referência em transtorno do espectro autista.







