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O que são os anticorpos monoclonais aprovados para tratamento da Covid-19

Cresce a lista de remédios dessa classe liberados pela Anvisa. Mas, devido ao alto custo e avanço da vacinação, eles devem ficar restritos a poucos grupos

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 26 out 2021, 15h43 - Publicado em 19 out 2021, 19h04

Recentemente, novas opções de medicamentos para o tratamento da Covid-19 foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Muitas fórmulas que receberam o aval da entidade fazem parte do grupo dos anticorpos monoclonais.

Eles são feitos em laboratório e têm a função de mimetizar a ação dos anticorpos produzidos pelo nosso próprio corpo. Além disso, são programados para agir diretamente na proteína do vírus que possibilita a sua reprodução dentro do organismo. Por isso, mostram-se eficazes na hora de impedir que a infecção se agrave.

“Esses medicamentos imitam os anticorpos do tipo neutralizantes”, resume o farmacêutico-bioquímico Sergio Surugi de Siqueira, professor de Imunologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e membro titular da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Até a durabilidade desses anticorpos fabricados pode ser manipulada. “É possível dotá-los de uma vida biológica mais longa do que a dos nossos anticorpos naturais”, afirma Siqueira.

Eles são indicados para os primeiros dias de infecção, quando são detectados os sintomas iniciais. Ou seja, esse, sim, seria um tratamento precoce vantajoso, à base de remédios com ação benéfica realmente comprovada.

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Mas o uso dessa classe de medicamentos, já empregada no tratamento de outras doenças, não é tão simples. Veja: todos eles são injetáveis e só podem ser ministrados em ambiente hospitalar. Além disso, cada fórmula tem uma indicação precisa contra a Covid-19 e, se o médico prescrever fora do período correto,  pode até colocar o paciente em risco.

“O medicamento vai funcionar quando o vírus está se replicando muito. Depois disso, infelizmente, já vem toda a resposta inflamatória, a chamada tempestade de citocina. É antes desse ‘estrago’ que o anticorpo monoclonal age”, reforça Barbara Furtado, gerente médica e líder de vacinas da AstraZeneca Brasil.

Quais são os medicamentos contra a Covid aprovados pela Anvisa?

+ Associação de casirivimabe e imdevimabe, produzidos pelas farmacêuticas Regeneron e Roche
+ Associação de banlanivimabe e etesevimabe, da Elli Lilly
+ Regdanvimabe, da Celltrion Healthcare
+ Sotrovimabe, da GSK

Também estão aprovados pela agência reguladora alguns medicamentos que não são anticorpos monoclonais, como o antiviral injetável Rendesivir, produzido pela Gilead, e o baricitinibe, medicamento indicado no tratamento da artrite reumatoide.

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Monoclonais x vacina

“A diferença entre os dois é que as vacinas são desenhadas para estimular a produção natural de anticorpos. Logo, é uma imunização ativa. No caso dos monoclonais, os anticorpos já estão prontos: é a imunização passiva”, esclarece Siqueira.

Especialistas questionam o papel desses medicamentos em um cenário em que boa parte da população está sendo imunizada e, portanto, produzindo seus próprios anticorpos neutralizantes a partir da picada.

E tem mais: embora promissores, os monoclonais são caríssimos, chegando a custar milhares de reais. Isso faz com que o tratamento seja inacessível para a maior parte da população. Consequentemente, não dá para imaginar que eles serão capazes de conter a pandemia – ao contrário da vacinação.

Fora que esses remédios são liberados em pequenos lotes por causa do alto investimento e do processo delicado de produção, baseado em cultura de células. “Nem todos os hospitais têm acesso. Acho improvável que sejam utilizados em larga escala”, avalia o infectologista Alexandre Zavascki, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS.

Por isso, a expectativa é que essas fórmulas sirvam de opção para grupos específicos, como pessoas com comorbidades ou imunossuprimidos, que têm um maior risco de desenvolver os sintomas graves da doença, mesmo após receber a imunização completa.

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“Até agora, o que sabemos é que há pessoas com o sistema imunológico comprometido, ou seja, que respondem de uma forma diminuída à qualquer infecção ou vacina. São, por exemplo, indivíduos que fizeram algum transplante, estão em tratamento de câncer, têm doenças reumatológicas, etc. Nesses casos, o anticorpo monoclonal trará um diferencial”, raciocina Bárbara.

A AstraZeneca anunciou que chegou à fase 3 de estudos do coquetel de anticorpos AZD7442. Uma das promessas é que o novo monoclonal atue logo após o diagnóstico para evitar o desenvolvimento de qualquer sintoma. Os anticorpos desse medicamento podem permancer durante seis meses no corpo, segundo divulgado pela empresa.

“Antes do surgimento da vacina, também fizemos testes com 3 400 pessoas para avaliar a capacidade de prevenção da Covid-19. Metade recebeu os anticorpos monoclonais e a outra metade, placebo. Vimos que há uma grande capacidade de o remédio proteger contra a infecção. Mas ainda estamos conduzindo estudos nesse cenário pós-vacina”, conta a gerente médica da farmacêutica.

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