Clique e assine VEJA SAÚDE por R$ 5,90/mês

Na rota da doação de sangue

O ato que salva vidas foi abalado pela Covid-19 — o estoque de bolsas chegou a cair até 50%. Veja as lacunas e os avanços para abastecer o sistema

Por André Bernardo - 15 ago 2020, 10h27

Há 36 anos, o servidor público Paulo Luiz de Lima Neris, de 54, cumpre o mesmo ritual: de três em três meses, ele se dirige ao hemocentro mais perto de onde estiver, no Brasil ou no exterior, e repete o gesto que faz desde os 18. No dia 31 de julho de 2020, o maior doador de sangue do país fez sua doação de nº 300 no Hemocentro Dalton Cunha, em Natal (RN), onde mora desde 2003.

Paulo já cedeu ao longo da vida 150 litros de sangue A positivo — quase 30 vezes o volume do corpo humano — e ajudou a salvar 1 200 pessoas. Cada bolsa de 450 mililitros ampara até quatro vidas.

Ainda garoto, o atual recordista brasileiro observava o pai, Luiz, doar sangue. Quando completou a maioridade, tomou coragem, enfrentou a agulha e passou a fazer o mesmo. Na época, homens podiam doar todos os meses. Hoje, só a cada dois meses, e as mulheres, a cada três. “No Brasil, a idade-limite é de quase 70 anos. Ou seja, ainda tenho uns 16 pela frente. Se tudo der certo, quero chegar às 500 doações”, conta Paulo, um dos 3,3 milhões de cidadãos que doam sangue no país.

Na ponta do lápis, isso representa 1,6% da nossa população. Embora esteja dentro do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o número é, na opinião dos especialistas, “muito pouco”. “Nossa população está envelhecendo e a violência não para. Eu diria que 2% seria o patamar mínimo e 2,5% o ideal”, afirma o hematologista Luiz Amorim, diretor do Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti (Hemorio), na capital fluminense.

No hemocentro mais antigo do Brasil, a queda provocada pela pandemia de Covid-19 chegou a 40%. Em maio, o número de bolsas despencou de 7 mil para 4,2 mil. Em instituições como o Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio, e a Fundação Pró-Sangue, em São Paulo, o estrago foi maior: 50%. Com medo de contrair o coronavírus, os doadores sumiram. Na entidade paulista, que atende 100 instituições públicas em todo o estado, o número de bolsas caiu de 10 mil para 6,5 mil por mês. “No auge da pandemia, tivemos que recorrer a outros hemocentros para o nosso estoque não ficar zerado”, relata a hematologista da fundação Luciana Sampaio.

Mas não é de hoje que o Brasil pena com essas quedas. Nos últimos quatro anos, o total de transfusões de sangue aumentou de 2,8 milhões para 2,95 milhões. A quantidade de bolsas para suprir a demanda, porém, caiu de 3,35 milhões para 3,2 milhões. Durante a pandemia, a situação só se agravou.

Tanto que, em junho, o governo federal lançou a campanha “Seja Solidário, Doe Sangue. Doar É um Ato de Amor”, a fim de atrair novos doadores e fidelizar os antigos. Em caso de necessidade, o Ministério da Saúde prevê o remanejamento de bolsas: ele aciona o hemocentro mais próximo ou o que está com o estoque mais abastecido para socorrer aquele em estado crítico.

Foi o que aconteceu com o Ceará, que cedeu bolsas para São Paulo. Entre março e junho, o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) registrou 27,8 mil doações, um número 15% menor que o alcançado no mesmo período de 2019. “Mas conseguimos manter nosso estoque dentro da margem de segurança”, avalia Luciana Carlos, diretora da instituição. No primeiro semestre, 1,6 mil bolsas de sangue foram transferidas de um lugar para outro pelo ministério, cujo site esclarece uma porção de dúvidas sobre a doação em si.

Faltou sangue!

A, AB, O… Entre os tipos de sangue, o mais procurado é o O negativo. “Conhecido como doador universal, ele pode ser usado em transfusões de emergência”, explica Afonso José Cortez, diretor da Associação Beneficente de Coleta de Sangue (Colsan). Independentemente da classificação, o fato é que faltou sangue de norte a sul.

Na Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Estado do Amazonas (Hemoam), que atende 89 centros de saúde, a média diária de doações caiu, em junho, de 250 para 140. “A situação ficou tão crítica que tivemos que suspender, por uma semana, o uso de derivados do sangue em todo procedimento que não fosse de urgência e emergência”, conta o diretor clínico do Hemoam, Nelson Fraiji.

O estoque de um serviço de hemoterapia — termo que os hematologistas preferem a banco de sangue — é catalogado como seguro, adequado ou mínimo. Para evitar que falte sangue para transplantes de órgãos, tratamentos oncológicos ou em casos de anemia, hoje cada hemocentro se vira como pode. A primeira providência é racionar o uso das frações que compõem o sangue humano: hemácias, plaquetas, plasma… Mais uma razão para, na vigência da Covid-19, terem suspendido cirurgias eletivas e priorizado as emergenciais.

No Rio, a solução encontrada foi promover coletas móveis. Em vez de o doador ir ao hemocentro, o hemocentro vai até o doador (em escolas, quartéis, igrejas etc). Com o confinamento domiciliar, o jeito também foi coletar sangue em condomínios, dois por dia, de segunda a sábado. “Atualmente, o Hemorio dispõe de duas equipes para fazer a coleta móvel. O maior hemocentro do mundo, em Nova York, tem 35. Atualmente, 40% do sangue do Hemorio vem dessas coletas”, calcula Amorim.

Mais ao Norte, a Fundação Centro de Hemoterapia e Hematologia do Pará (Hemopa) organiza a Caravana Solidária, que disponibiliza micro-ônibus para levar e buscar grupos de até 15 voluntários até o posto de coleta.

Na opinião do médico Dante Langhi, presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), é preciso mudar o perfil do doador brasileiro. “Em geral, as pessoas só doam sangue quando algum membro da família faz cirurgia ou sofre acidente. É importante criar na população jovem o hábito de doar”, ressalta. Quando o nível de estoque cai de adequado para mínimo, não há outra coisa a fazer a não ser recorrer aos meios de comunicação e, no bom português, pedir socorro à população.

Continua após a publicidade

O diretor do serviço de coleta do Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Vagner de Castro, observa que, em âmbito nacional, o Brasil só faz campanha de conscientização duas vezes ao ano: 14 de junho, dia internacional do doador de sangue, e 25 de novembro, o dia nacional. “Ninguém acorda pela manhã morrendo de vontade de doar sangue… Seria interessante se, desde o ensino básico, as crianças fossem educadas sobre a importância da doação”, sugere o médico.

Para acolher os doadores com segurança e sem aglomeração, os hemocentros estão reforçando medidas de higiene e distanciamento social. As doações são agendadas, e as unidades disponibilizam máscara e álcool em gel. “Na pandemia, as pessoas só devem sair de casa para atividades essenciais. Mas precisamos ter consciência de que doar sangue é essencial. Ainda não inventaram nada que possa substituí-lo”, sentencia Alexandre Nonino, diretor da Fundação Hemocentro de Brasília.

Em busca do sangue artificial

Em 1988, Luiz Amorim, então um hematologista recém-formado, participava de um simpósio na França quando o professor anunciou: “Daqui a cinco anos, nossa especialidade irá desaparecer”. O motivo? A fabricação de sangue sintético. Trinta e dois anos depois, a profecia não se cumpriu.

“Ninguém conseguiu reproduzir em laboratório a hemoglobina, que transporta o oxigênio pelo corpo”, explica. As pesquisas mais promissoras vêm do Japão e dos EUA. Numa delas, foi testada em coelhos uma espécie de sangue universal. Outra desenvolve glóbulos vermelhos que transportariam remédios. “Pelos próximos dez anos, não teremos sangue artificial”, prevê Amorim.

Progressos na história

Uma das estratégias de captação de novos doadores é firmar parcerias com aplicativos de transporte ou doação. Enquanto uns oferecem descontos e corridas grátis para viagens com origem ou destino nos hemocentros, outros se propõem a conectar doadores a serviços de hemoterapia. “Sou professor de TI e sempre quis usar a tecnologia para salvar vidas”, conta Orlando Silva Júnior, fundador do aplicativo gratuito Partiu Doar Sangue.

Para se cadastrar, basta incluir os dados e o usuário entra para uma lista com 18,5 mil pessoas. Toda vez que houver campanha, é notificado. “Durante a pandemia, o número de novos doadores chegou a 20 por dia. O volume de pedidos atendidos mais que triplicou. Houve pedidos de doação com 30 pessoas se disponibilizando para doar”, orgulha-se Silva Júnior.

Enquanto esse app nasceu em Minas Gerais, outro despontou no Rio Grande do Sul. Em 2016, Fernando Berwanger estava participando de uma palestra sobre empreendedorismo em Santa Maria quando, na hora das perguntas, um rapaz levantou a mão. Ao ser indagado sobre o que gostaria de saber, disparou: “Não estou aqui pela palestra. Meu irmão está internado no hospital da cidade. Alguém quer ir até lá doar sangue para ele?”.

Quatro anos depois, o aplicativo criado por Berwanger, o Hemotify, já contabiliza 12 mil usuários (6 mil ativos) e 30 hemocentros cadastrados. “Embora seja um número relevante, está aquém do esperado. Desde o início da pandemia, o número de pedidos de doação triplicou e só conseguimos atender a 40% deles”, revela.

No meio de tanto perrengue e atos de solidariedade, houve outros progressos. Em maio, o Supremo Tribunal Federal derrubou as restrições à doação de sangue por homens gays. O STF decidiu que as normas do governo, que impediam a doação por “homens que tiveram relações sexuais com outros homens” no período de um ano, eram inconstitucionais.

O ativista Gabriel Galli, da ONG Somos — Comunicação, Saúde e Sexualidade, de Porto Alegre, celebra a decisão. “Essa norma se baseava em uma premissa discriminatória de que, por causa de sua identidade sexual, os homens gays e as mulheres trans e travestis tinham um comportamento promíscuo. O comportamento de um indivíduo não é definido por isso”, justifica.

Em julho, a Somos organizou um mutirão no hemocentro da capital gaúcha para incentivar a comunidade LGBT a doar sangue. “De maneira geral, os profissionais da saúde que trabalham na coleta ainda precisam de capacitação para atender esse público de maneira menos preconceituosa”, argumenta Galli.

No Rio, a campanha Sangue LGBTI Também Salva Vidas, realizada em quatro hospitais públicos do estado, superou a expectativa dos organizadores: só no primeiro dia, recebeu quase o dobro da meta inicial. “A derrubada da proibição pode impactar positivamente os estoques de sangue porque aumenta o número de doadores”, afirma a hematologista Indianara Brandão, do Hospital Moriah, em São Paulo.

Apesar do fim da restrição a homens gays, ainda existem outros impeditivos à doação. Alguns são temporários, como gravidez, tatuagem recente e situações de risco para doenças sexualmente transmissíveis. Outros, porém, são definitivos, como presença de hepatite ou malária e uso de drogas injetáveis. Em tempos de Covid-19, pessoas que apresentam febre, tosse, dor no corpo ou outros sintomas da infecção pelo coronavírus não podem doar por 30 dias. Já quem teve contato com casos suspeitos ou confirmados deve esperar 14 dias.

No mais, todo mundo está convidado a prestar esse ato de amor ao próximo. “Não dói no bolso nem no braço. Enquanto eu tiver saúde, vou continuar doando. Quem salva uma vida salva o mundo”, filosofa Paulo, o campeão brasileiro de doação de sangue.

A jornada de quem doa até quem recebe

Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Foto: Ricardo Davino/SAÚDE é Vital
Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Foto: Ricardo Davino/SAÚDE é Vital
Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Continua após a publicidade
Publicidade