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Casos misteriosos de hepatite grave em crianças: o que sabemos até agora

As autoridades têm só hipóteses para explicar esse aumento de casos na infância. Covid, infecção por adenovírus e outros fatores estão sob suspeita

Por Fabiana Schiavon 3 Maio 2022, 14h09

A proliferação de casos de hepatite grave de origem desconhecida entre crianças pelo mundo ainda é um mistério para cientistas. O último boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS), de 29 de abril, afirma que “a etiologia dos casos segue sob investigação”.

Na data do informe, 169 casos em pequenos e jovens de 1 a 16 anos haviam sido contabilizados em 12 países – 10% passaram por transplantes de fígado.

Mais recentemente, três mortes foram reportadas na Indonésia, um país que até então não havia notificado nenhum caso. Há suspeitas em outros países, como Canadá e Portugal. Não há notificações no Brasil.

Diante dessa situação, reunimos as hipóteses levantadas sobre as causa por trás desse problema. Antes de mais nada, no entanto, é importante lembrar que hepatite nada mais é do que uma inflamação no fígado.

Ela pode ser causada por diversos motivos, como excesso de medicamentos, alcoolismo e a presença de alguns vírus. Daí a dificuldade de estabelecer uma causa para esse, digamos, surto.

No caso das crianças, já se sabe que não se trata de nenhum tipo de hepatite viral, que vai do tipo A ao E.

Adenovírus: um dos suspeitos

Das 169 crianças com essa hepatite severa incluídas no boletim da OMS, 85 foram testadas para a presença do adenovírus. Dessas, 74 voltaram com o resultado positivo.

Existe uma grande variedade na família desse agente infeccioso – boa parte provoca doenças respiratórias. O tipo 41, particularmente comum nos exames feitos entre essas crianças, tende a desencadear reações no trato gastrointestinal.

Talvez uma mutação ou outro fator desconhecido em conjunto com o adenovírus disparem o problema, mas há inconsistências nesse argumento. “O que se estranha é que essa cepa nunca provocou reações dessa magnitude”, explica Rogerio Camargo Pinheiro Alves, hepatologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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O geneticista Salmo Raskin, pediatra e diretor do laboratório Genetika, em Curitiba, vai além. “Nos poucos casos registrados de hepatite pelo adenovírus anteriormente, surge um sinal típico no tecido do fígado. E ele não foi encontrado em nenhuma das seis crianças analisadas que tiveram seus órgãos transplantados”, explica, referindo-se ao informe publicado pelo CDC, agência reguladora de saúde dos Estados Unidos. O documento cita o caso de crianças tratadas no hospital do Alabama.

Como o adenovírus é muito comum, talvez sua presença nas crianças seja uma mera coincidência. Só mais investigações esclarecerão esse elo.

De novo ela: a Covid-19

Também há a possibilidade de a hepatite ter relação com sequelas da Covid. Isso porque sua maior prevalência foi em crianças menores de 5 anos que não tomaram vacina contra o coronavírus.

“O Reino Unido relata que metade de suas crianças já foram infectadas pelo Sars-CoV 2. Seria importante saber se as que ficaram doentes têm o vírus em seu organismo, mas esses testes ainda não foram feitos”, pondera Raskin. “Já em Israel, todos os casos de hepatite grave ocorreram em crianças que já haviam tido Covid”, acrescenta.

+ LEIA TAMBÉM: A Covid longa na era da Ômicron e dos vacinados

Além disso, especula-se que essa hepatite seja mais uma manifestação da chamada Covid Longa. Raskin teoriza que, talvez, o coronavírus provoque alguma imunodeficiência em médio e longo prazo que favoreceria o avanço de infecções capazes de destrambelhar a saúde do fígado.

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Ou, quem sabe, a variante ômicron seja especialmente agressiva a esse órgão na infância. O pediatra lembra ainda de um estudo, publicado na Nature, que relaciona a preferência do vírus da Covid por células do fígado. Mas isso, por si só, não comprova essa hipótese.

Uma combinação de fatores

O informe da OMS aponta que “testes laboratoriais estão sendo realizados para entender […] a potencial associação dos casos de hepatite com agentes infecciosos, substâncias químicas e toxinas”. Especula-se que uma mistura desses e de outros possíveis fatores desconhecidos culmine nesse surto de hepatite grave em crianças.

Não seria, nem de perto, a primeira vez que algo do tipo aconteceria. Por exemplo: um estudo mostrou que a combinação do vírus Zika com o consumo de água contaminada explicaria boa parte do surto de microcefalia que ocorreu entre 2015 e 2016 no Brasil. E justificaria o motivo pelo qual os casos se concentraram no Nordeste.

Por que só crianças são vítimas?

Uma aposta envolve a volta às aulas. Como a garotada voltou a circular e a encontrar seus colegas, acabou se expondo mais a patógenos em circulação – não só ao Sars-CoV-2. “Elas ficaram muito tempo isoladas, sem se contaminar com nada. Por isso estão mais desprotegidas e suscetíveis a novas infecções”, explica Alves. “Mas esse seria apenas um fator”, completa.

+ Leia também: Covid: como funcionam as vacinas de RNA que serão usadas nas crianças

A imunidade menos desenvolvida e outras características típicas do organismo na infância também justificariam esse fenômeno.

Uma melhor capacidade de detecção?

A maior número de casos vêm da Inglaterra (114 crianças até o momento). A médica Philippa Easterbrook, epidemiologista da OMS, explica que já existiram episódios de hepatite grave inexplicáveis pelo mundo, mas eles costumavam ser raros.

Até por isso, os especialistas não descartam que esse maior número seja, na realidade, fruto de uma melhor vigilância epidemiológica. Passageiro ou não, o alerta fez com que outros países ficassem mais atentos, e pesquisadores passaram a investigar os casos mais de perto.

Quais são os sintomas da hepatite? Há tratamento?

A hepatite pode começar com vômito, náuseas, diarreia e perda de apetite. Sem tratamento, ela evolui para olhos e pele amarelados e cansaço.

“Esses sintomas são bem comuns em crianças pequenas. Por isso os pais precisam ficar atentos se há persistência desses sinais”, relatou Philippal, da OMS.

O tratamento depende da causa da hepatite – às vezes, é feito com antirretrovirais. Nesses episódios recentes em crianças, os médicos têm apenas manejado os sintomas e as consequências da inflamação abrupta no fígado.

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“O principal é dar suporte ao fígado para que ele se cure sozinho. Mas há casos em que o órgão já entrou em falência. Aí é preciso partir para transplante”, explica Alves.

É possível se prevenir?

Como não se sabe o que está por trás dessa situação, as instruções são vagas. Richard Pebody, líder europeu da OMS no combate a patógenos, recomenda que a população faça uma boa higiene geral. “Como essa hepatite poderia ter transmissão aérea ou fecal-oral, é importante lavar bem as mãos”, afirmou o epidemiologista, durante live da OMS sobre tema.

No mais, há países pesquisando a possibilidade de a doença decorrer de alimentos contaminados. Nesse sentido, reforçar os cuidados com a comida ingerida seria uma boa.

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