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Covid: como funcionam as vacinas de RNA que serão usadas nas crianças

A nova tecnologia tem se demonstrado uma das mais eficazes contra o coronavírus, mas também é alvo de muita desinformação

Por Chloé Pinheiro 14 jan 2022, 16h20

A vacinação infantil contra a Covid-19 vai começar! Mas, em vez de estarmos tranquilos para comemorar, assistimos com apreensão o desenrolar de uma campanha de difamação contra as doses. Entre as justificativas de tais ataques está o fato de o imunizante da Pfizer – aprovado para as crianças – ser feito com RNA mensageiro, uma tecnologia inédita.

Isso tem gerado dúvidas nos pais e mesmo nos pediatras. A quantidade de desinformação que circula na internet certamente não ajuda, dizendo que as vacinas são “experimentais” e capazes de alterar nossos genes.

Em primeiro lugar, é totalmente compreensível ter perguntas num contexto como esse. Trata-se de uma fórmula de fato nova e desenvolvida em tempo recorde, até então desconhecida pela população – não que a gente pensasse muito sobre como as outras vacinas eram feitas antes da pandemia e da politização do tema.

“É importante esclarecer que ela é nova para nós, mas não para os cientistas, que já estavam desenvolvendo a tecnologia há cerca de 20 anos”, aponta a pediatra e imunologista Heloisa Ihle Garcia Giamberardino, coordenadora do Centro de Vacinação do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba/PR.

A vacina de RNA mensageiro: uma ideia revolucionária

O RNA mensageiro é uma molécula que todos nós temos aos montes dentro da maioria das nossas células. Ele é como um livro de receitas, que traduz informações do nosso código genético para estruturas dentro das células, chamadas de ribossomos. Elas produzem, a partir daí, as proteínas, a base de tudo: sangue, hormônios, ossos, anticorpos etc.

O Sars-CoV-2 e alguns outros vírus também são feitos de RNA. Quando invadem as células humanas, usam essa mesma “fábrica” natural, os ribossomos, para se replicarem. É a resposta a esse sequestro que gera a doença, pois o sistema imune desencadeia uma inflamação para contar ao resto do corpo o que está acontecendo.

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“As vacinas de RNA mensageiro são uma versão sintética de parte do RNA do vírus, a que contém a receita para produzir a proteína spike, usada pelo Sars-Cov-2 para invadir as células”, explica o infectologista Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Trata-se apenas de informação genética: não há nada do vírus em si. Quando os ribossomos leem essa informação, montam a proteína spike, seguindo a receita. Daí, o processo é o mesmo. “O corpo entende que há uma invasão real acontecendo e produz uma resposta de defesa”, continua Kfouri.

Só que, nesse caso, a resposta é totalmente controlada, pois a fração artificial do vírus não é capaz de se replicar ou provocar doença. O RNA mensageiro, uma molécula muito sensível, se degrada rapidamente, em segundos, e a proteína spike produzida a mando dele também é destruída em poucos dias.

E, diferente do que afirmam os boatos, esse processo não é nem de longe uma terapia gênica. “O RNA é lido no citoplasma, e o DNA está no núcleo da célula. Portanto, ele não tem capacidade de alterar o DNA da criança. Esse é um boato espalhado por pessoas que não entenderam o funcionamento da vacina”, lamenta Heloisa. Ou as aulas básicas de biologia.

A ideia de usar a engenharia do RNA mensageiro e dos ribossomos a nosso favor é vista como uma revolução na medicina. É bem provável que mais imunizantes sejam feitos com essa tecnologia no futuro. Ela é mais simples, pois não exige a manipulação do vírus vivo, e rápida: basta que alguém decifre o código genético para que outros laboratórios do mundo o utilizem.

vacina de rna como funciona
Fotos: Tomás Arthuzzi/Ilustrações: Thiago Almeida/SAÚDE é Vital

Alguns remédios, na verdade, já se aproveitam das fábricas celulares por meio do RNA mensageiro – e vários outros estão em fase final de testes. Contamos essa história aqui e conversamos com uma das cientistas por trás da descoberta que permitiu a produção das vacinas.

Por que vacinar as crianças

Embora a Covid-19 grave seja mais comum em adultos mais velhos, ela também pode acometer crianças. No Brasil, o risco de uma criança morrer se contrair o coronavírus chega a ser 10 vezes maior do que na Europa. Não porque o vírus seja mais agressivo, mas por conta dos problemas no acesso à saúde.

Somos o segundo país do mundo com mais mortes infantis, e o coronavírus matou mais crianças brasileiras (cerca de 2,5 mil menores de 18 anos) desde o início da pandemia do que todas as doenças evitáveis por vacinas somadas.

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“São só 0,1% do total de mortes de Covid-19”, dizem os detratores das vacinas. E, entre as crianças de 5 a 11 anos, o público alvo da campanha, “apenas” 300 óbitos – ou uma a cada dois dias, desde o início da pandemia.

Mas não deveria existir um patamar aceitável para isso. Ainda mais porque não houve nenhuma morte relacionada às vacinas.

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“Fora que estamos falando de uma doença sem tratamento específico. Quem se infecta sem estar vacinado corre um risco alto de ter complicações e sequelas. O que devemos temer é a doença, não a vacina”, reforça Heloísa. Para as crianças, a principal preocupação é a síndrome inflamatória multissistêmica, um quadro raro, mas perigoso, que pode ser fatal.

E tem o fator Ômicron. Com a chegada de uma variante muito mais transmissível, mais gente se contamina e, proporcionalmente, aumenta o número de casos graves, em especial nos indivíduos suscetíveis – os não vacinados, além das pessoas com problemas no sistema imune, em quem as doses já não funcionam tão bem.

Os efeitos colaterais da vacina

Nas crianças, a vacina se mostrou tão eficaz e segura quanto nos adultos, tendo como principais reações adversas queixas leves e breves, como febre e dor no local da aplicação.

Uma preocupação dos pais e médicos é a miocardite, que de fato é descrita como evento adverso extremamente raro do imunizante da Pfizer. Segundo dados do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, 15 casos de inflamação cardíaca foram registrados entre 8 milhões de crianças imunizadas, menos de 0,001% de incidência. A miocardite é tratável e nenhuma criança morreu por causa da picada.

Por fim, o coronavírus também pode desencadear miocardite em crianças, mas uma versão que pode ser mais grave e imprevisível. “E o risco de desenvolver o problema ao contrair Covid-19 é, segundo estimativas, 20 vezes maior”, completa Kfouri. Deixá-las correndo esse perigo é irresponsabilidade quando há uma vacina segura disponível.

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Nenhum imunizante contra nenhuma doença é 100% eficaz ou 100% livre de reações adversas, o que se faz é uma conta de risco e benefício. E, nesse sentido, todos os especialistas em crianças e em vacinas são categóricos: os benefícios superam de longe os riscos.

A vacina não é mais “experimental”

Os estudos de fase 3, que antecedem a aprovação, já foram publicados e revisados por pesquisadores independentes. “Assim, ela já passou da fase de experimento, pois eficácia e segurança estão comprovados”, explica Renato Kfouri.

O que ocorre agora é a farmacovigilância. “Já temos mais de 8 bilhões de vacinas aplicadas, sendo ao menos 2 bilhões de doses da Pfizer, o que nos deixa ainda mais tranquilos em relação à segurança da fórmula”, comenta o infectologista.

O assunto é levado muito a sério pelas autoridades e pesquisadores. Se remédios já devem ser usados com cuidado, vacinas, então, mais ainda – afinal, trata-se de dar um medicamento a alguém que não está doente. Qualquer risco, então, tem peso importante na tal análise de custo-benefício.

Sim, essas vacinas foram feitas de forma mais acelerada, mas não porque as etapas de segurança foram puladas, mas sim porque havia dinheiro e boa vontade para realizar todas as outras partes burocráticas mais rápido – recrutar voluntários, equipar centros de pesquisa, contratar profissionais, redigir protocolos etc.

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Quando se diz que elas “ainda estão sendo estudadas” é porque está se averiguando sua eficiência em longo prazo – é preciso tempo para saber quanto dura a proteção. Mas o mesmo não acontece com a segurança, porque os eventos adversos só poderiam acontecer enquanto a vacina estiver agindo no organismo.

“E esse é um processo rápido. Não há plausibilidade biológica para crer que uma vacina sintética, que se degrada rapidamente, terá um dano negativo de longo prazo”, reforça Kfouri. É o que também explica a microbiologista Natália Pasternak na Revista Questão de Ciência:

“As liberações emergenciais são “emergenciais” porque ocorrem antes de os testes de eficácia serem completados, mas depois de as avaliações de segurança terem sido todas feitas. Isso significa que os valores de eficácia anunciados (95%, 94%, 70%, etc.) ainda podem mudar, ou que a margem de erro em torno desses valores ficará mais estreita, mas não se esperam alterações radicais.”

Desinformação preocupa

Pediatras estão alarmados com a possibilidade de pais deixarem de proteger os filhos por conta de mentiras difundidas na internet. “Se quiser, você pode correr o risco de ser entubado, de adoecer gravemente e morrer, mas não pode determinar que seu filho corra esse risco também”, avalia Heloísa.

Com tanta gente falando mal das vacinas, inclusive autoridades e médicos interessados em lucrar “tratando” a doença ao invés de preveni-la, a hesitação é quase natural. “E isso atinge inclusive os próprios pediatras, que acabam politizando a pauta também. Será necessário um trabalho intenso para conscientizar as pessoas da importância da imunização”, diz Kfouri.

Uma das maneiras de se guiar em tempos incertos é ouvir o que dizem os especialistas. As sociedades brasileiras de Pediatria, Infectologia e Imunizações, a Anvisa e o próprio Ministério da Saúde – que, apesar das declarações infelizes e da morosidade, incluiu os pequenos no Programa Nacional de Imunização (PNI) – apoiam a vacinação infantil.

“Precisamos dar atenção para quem trabalha com vacinas e atende crianças”, resume Heloísa, que tem mais de 20 anos de experiência nos dois tópicos.

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