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Março borgonha: fique atento aos sinais do mieloma múltiplo

Hematologistas pedem que outras especialidades aprendam a suspeitar deste tipo de câncer, e associações lutam para que tratamento chegue à rede pública

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 4 abr 2022, 16h27 - Publicado em 28 mar 2022, 15h34

Março borgonha é o mês de conscientização para o mieloma múltiplo, um tipo de câncer hematológico (do sangue), do qual também fazem parte leucemia e linfoma.

Entre os três, ele é o segundo com mais ocorrências no mundo, mas ainda é uma doença rara. Portanto, seus sintomas podem ser confundidos com outros males, mais comuns.

“É preciso que o conhecimento da doença chegue a outras especialidades, como os ortopedistas, nefrologistas. Pela falta dele, o indivíduo acaba levando muito tempo para chegar ao hematologista ou oncologista que dará início o tratamento”, defende o médico Angelo Maiolino, professor de hematologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj) e vice-presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).

Uma pesquisa feita pela farmacêutica Sanofi ouviu 1 500 pessoas em todo o país no fim de 2021 e constatou que 10% da população conhece alguém que teve mieloma múltiplo. Entre suas vítimas recentes, estão o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor e a jornalista Cristina Lôbo.

O que é mieloma múltiplo

A doença acomete regiões do corpo onde a medula óssea, estrutura que fica dentro de alguns ossos, é ativa. A medula óssea é o local onde se fabrica nossas células sanguíneas. Entre elas, estão os glóbulos brancos, que fazem parte do nosso sistema imunológico.

O mieloma ataca diretamente os plasmócitos, um tipo de glóbulo branco. No lugar da célula saudável, surgem células malignas que se proliferam e passam a produzir anticorpos anormais, conhecidos como proteína M.

“A doença faz a medula produzir um anticorpo sem função, que vai prejudicar o organismo do indivíduo, deixando-o mais suscetível a doenças”, explica Maiolino.

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Com o câncer já manifestado, 70% das pessoas podem ter uma lesão óssea, e ainda dores, fraturas, anemia. Cerca de 30% dos diagnosticados sofrem de insuficiência renal.

O mieloma é chamado de múltiplo porque provoca lesões em diversas partes. Entre os locais mais comuns, os ossos da coluna vertebral, crânio, pélvis, caixa torácica e áreas ao redor dos ombros e quadris.

Pode ocorrer dele atingir apenas um ponto: os médicos chamam tecnicamente de plasmocitoma ósseo solitário.

Incidência

O mieloma múltiplo é considerado um tipo raro de câncer no sangue. Ele acomete, aproximadamente, 750 mil pessoas ao redor do mundo.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que há cerca de 4.560 casos anuais, com uma taxa de incidência de 2,1 casos por 100 000 habitantes na população geral. Cerca de 60% dos óbitos ocorrem em pessoas entre 60 e 79 anos.

Há dados sobre o possível aumento de casos em outras faixas etárias.

“Há casos entre jovens, mas eles demoram para ser diagnosticados porque os médicos não pensam em mieloma. Nos Estados Unidos, 35% dos pacientes com mieloma descobrem a condição com os exames de rotina. Aqui, esse número é mínimo: cerca de 95% dos brasileiros são diagnosticados em estágio avançado”, avalia Christine Jerez Telles Battistini, presidente e fundadora da International Myeloma Foundation na América Latina (IMF LA), entidade que apoia pacientes e mantém a campanha “Conheça o Mieloma Múltiplo”.

Para hematologistas, no entanto, os números entre os mais jovens podem ter aumentado justamente porque as equipes de saúde estão mais atenta aos sinais. “O risco não aumentou, mas médicos que detectam insuficiência renal em uma pessoa jovem agora suspeitam do mieloma e pedem os exames”, exemplifica Maiolino.

Diagnóstico

Não existe uma política de rastreamento do mieloma, como a mamografia para o câncer de mama. A investigação começa em geral a partir dos sintomas ou de alterações sanguíneas. As primeiras suspeitas podem vir de um hemograma, e há um exame de sangue simples que já aponta alterações, a eletroforese de proteínas séricas.

Também estão no rol diferentes tipos de exame de urina, a biópsia da medula-óssea (feita com anestesia local), radiografia óssea, tomografia computadorizada ou ressonância magnética.

Fatores de riscos

O problema não está relacionado diretamente com uma condição de saúde ou hábitos de estilo de vida. “Não dá para associar diretamente como fazemos com o cigarro e o câncer de pulmão”, afirma o hematologista Marco Aurélio Salvino, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Entretanto, a obesidade é um fator risco citado por alguns especialistas, o que pode ter a ver com o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados.

Contato com agrotóxicos ou produtos tóxicos, como o benzeno (que é encontrado na evaporação da gasolina) e as dioxinas (usadas pela indústria para branquear objetos e que fazem parte da receita de alguns agrotóxicos) são possíveis causas.

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Há uma porcentagem de casos entre familiares, mas eles são considerados raros, por isso médicos não entendem o mieloma uma doença genética.

+ LEIA TAMBÉM: Alimentos ultraprocessados elevam risco de doenças cardiovasculares

Sintomas e sinais

Em 70% dos pacientes, os sintomas mais comuns de mieloma múltiplo são dores nas costas ou nos ossos.

“Nas campanhas, falamos sempre que dores nas costas persistentes nem sempre são só um problema na coluna. Pode ser mieloma, pode não ser. Melhor tirar a dúvida”, reforça Christine.

Fraturas, fadiga persistente, distúrbios no sistema nervoso e infecções recorrentes e inexplicáveis estão entre outros sinais apontados.

Estágios da doença

Mieloma latente: ainda não há sintomas, mas os exames aparecem com alteração. Em algumas pessoas, a doença pode não evoluir. Protocolos indicam que não há necessidade de tratamento, mas há estudos que recomendam a ação do médico. “A doença pode ficar assintomática por anos”, esclarece Maiolino.

Estágio 1: há poucas células de mieloma no corpo, pouco ou quase nenhum dano nos ossos, com alguns exames ligeiramente desequilibrados.

Estágio 2: começam a aparecer as células cancerígenas.

Estágio 3: células malignas já se multiplicaram, e o câncer destruiu três ou mais áreas ósseas. Nessa fase, o sistema imunológico está debilitado. Há excesso de cálcio no sangue,porque os ossos danificados liberam esse nutriente, e os rins são afetados pelo desequilíbrio.

Prevenção

Não há uma política de prevenção desse tipo de câncer justamente pelas causas não serem tão claras. Viver bem é a receita para reduzir riscos de desenvolver qualquer tipo de doença, inclusive os tumores.

“Sempre digo que é melhor escolher aquela comida que a sua avó ou bisavó comeriam em sua rotina. Quanto mais natural, melhor”, sugere Christine.

Tratamento

O combate do mieloma múltiplo melhorou bastante. A sobrevida, que era de dois anos, aumentou para até 14 anos, relata Salvino.

A quimioterapia, tipo mais agressivo de tratamento, está sendo substituída por novas abordagens. Hoje o manejo é mais customizado, e podemos usar medicamentos de terapia-alvo (que miram exclusivamente nos tumores, provocando menos efeitos colaterais), como os anticorpos monoclonais e a imunoterapia.

Uma grande conquista foi a aprovação recente pela Anvisa da terapia de células CAR-T para esse tipo de câncer. ““Ele trata um perfil de pacientes cujas opções eram escassas e a média de sobrevida era de meses. Agora, eles contam com uma terapia que apresenta taxas de remissão completa, com índices de resposta entre 80% e 90%. É um marco muito importante”, afirma Salvino.

O desafio é fazer essas novidades chegarem ao sistema público de saúde. “A expectativa de vida melhorou para quem tem acesso à rede privada. Ainda precisamos avançar muito em relação a esses protocolos”, lamenta Christine.

O vice-presidente da ABHH concorda. “Temos medicamentos revolucionários de custo expressivo, mas que fazem muita diferença na qualidade e expectativa de vida do indivíduo. Com eles, possível controlar a doença, como se faz com o diabetes”, afirma Maiolino.

Transplante de medula óssea

Também pode fazer parte do tratamento um transplante de medula-óssea do tipo autólogo. “É o carro-chefe do tratamento, considerado seguro, eficaz e está disponível no sistema público”, afirma Salvino.

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Nesse tipo específico de transplante, o paciente é o próprio doador. Para isso, ele recebe uma medicação que induz as células da medula óssea a entrarem na corrente sanguínea, sem a necessidade de sedação nem anestesia. Uma máquina filtra o material para retirar as células-tronco saudáveis [que dão origem a novas células] e a pessoa as recebe de volta depois, como em uma transfusão de sangue.

Antes, é necessário passar por sessões de quimioterapia para atacar as células malignas.

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